UOL Notícias Internacional
 

14/03/2008

Dólar atinge baixa recorde em relação ao euro

The New York Times
Steven R. Weisman
Em Washington
Quão desvalorizado pode ficar o dólar?

Surrado por más notícias e crescentes temores com a economia americana, o dólar despencou para novas profundezas na quinta-feira, ajudando a elevar os preços do petróleo a novas altas recordes.

O dólar foi negociado a uma nova baixa recorde de US$ 1,56 frente ao euro, enquanto os preços do petróleo fecharam a US$ 110 o barril. Antes, o dólar chegou a cair para menos de 100 ienes japoneses pela primeira vez desde 1995, mas fechou o dia ligeiramente acima deste marco.

O dólar vem perdendo valor frente ao euro e várias outras moedas desde 2002, complicando a vida daqueles que viajam para a Europa e consumidores americanos que compram bens europeus. Os políticos deploram o dólar fraco como um sinal do declínio econômico americano e de sua influência.
DESVALORIZAÇÃO DO DÓLAR
Alex Grimm/Reuters
Operador da bolsa de Frankfurt observa valor do câmbio do euro frente ao dólar nesta quinta (13/3)
PAÍSES COM CÂMBIO FIXO
KRUGMAN: IMPOTÊNCIA DO FED


Para piorar ainda mais, muitos economistas dizem que os problemas de um dólar fraco alimentam uns aos outros. À medida que o dólar enfraquece, aqueles que possuem dólares, especialmente no exterior, buscam melhores retornos para seus ativos diversificando seus portfólios com outras moedas, provocando uma desvalorização ainda maior do dólar.

"Se olharmos para frente, nós veremos a economia americana enfraquecendo ainda mais e mais cortes nas taxas de juros", disse Desmond Lachman, um membro residente do conservador Instituto Americano do Empreendimento. "As perspectivas imediatas para o dólar não parecem encorajadoras."

O imenso déficit comercial americano, apesar de ter diminuído um pouco, continua a gerar mais reservas de dólares para os exportadores no exterior em um momento em que é menos atrativo para eles manter essas reservas em dólares. Alguns países do Oriente Médio continuam indicando que poderão deixar de cotar seu petróleo totalmente em dólares, o que causaria uma pressão ainda maior de desvalorização.

E à medida que o Federal Reserve, o banco central americano, corta as taxas de juros para estimular a economia, os investidores ficam mais tentados a investir seu dinheiro em títulos em outras moedas para obter retornos maiores.

Kenneth S. Rogoff, o economista de Harvard, disse que vê como principais forças por trás do declínio do dólar a queda das taxas de juros americanas e o contínuo desequilíbrio comercial.

"Isto ocorreria com ou sem uma recessão", disse Rogoff. "Eu acho que todos os grandes protagonistas -incluindo os bancos centrais, os fundos de pensão e fundos fora dos Estados Unidos- estão buscando uma gradual diversificação do dólar a longo prazo. Eles não estão fazendo isso de uma só vez, mas o processo tem acelerado."

A desvalorização do dólar tem provocado novas tensões com a Europa, que está mantendo as taxas de juros inalteradas apesar de estar experimentando uma queda nas exportações para os Estados Unidos e para outros países cujas moedas estão alinhadas mais estreitamente ao dólar.

Mas a Europa também conta com um raio de esperança. Ela não foi atingida pelo grande aumento nos preços do petróleo, pois como o petróleo é cotado em dólares, a desvalorização do dólar manteve os preços do petróleo baixos quando convertidos em euros.

No início desta semana, em um comentário bastante divulgado, Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, disse que "nós estamos preocupados com as mudanças excessivas na taxa de câmbio" e que "volatilidade excessiva e movimentos desordenados" cambiais são "indesejáveis para o crescimento econômico".

Lachman disse que o comentário de Trichet enviou sinais de que se o dólar continuar perdendo valor frente ao euro, os Estados Unidos poderiam concordar com os ministros das finanças europeus em algum tipo de intervenção para impedi-lo de cair ainda mais.

Apesar do governo Reagan já ter colaborado em acordos cambiais quando o dólar estava forte demais, o governo Bush já sinalizou que não acredita nessas intervenções. Não apenas pelo presidente Bush e o secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., se oporem filosoficamente a tentar influenciar os mercados de câmbio, há preocupação de que qualquer apoio aberto ao dólar possa sair pela culatra, provocando uma venda por pânico de mais dólares.

Paulson já declarou repetidas vezes que "um dólar forte é do interesse americano" e a melhor forma de manter o dólar forte é ter uma economia americana forte. Em novembro, ele disse que os fundamentos robustos da economia no final "surtirão efeito", atraindo investidores e elevando novamente o dólar.

Mas muitos especialistas zombam dos pronunciamentos de Paulson como conversa otimista. Warren E. Buffett, o megainvestidor, disse recentemente que "o governo pode falar sobre como é do nosso interesse ter um dólar forte", mas isto não é acompanhado por políticas que ajudem.

O déficit comercial, ele argumenta, significa que "nós alimentamos à força o resto do mundo com uns dois bilhões de dólares por dia" -especialmente os países que exportam para os Estados Unidos.

Ultimamente, o governo tem apontado para números do comércio que mostram que o déficit comercial americano está caindo. As exportações cresceram mais de 12% no ano passado, e cresceram mais de 13% nos 12 meses encerrados em janeiro. O déficit comercial foi mais de 5% menor naquele período em conseqüência.

O secretário do comércio, Carlos M. Gutierrez, comemorou os mais recentes números do comércio como um reflexo da melhora da competitividade americana. O que ele e outras autoridades do governo nunca dizem -de fato, eles aparentemente foram instruídos a não dizerem- é que a melhora se deve à desvalorização do dólar, o que torna os bens americanos mais baratos.

O motivo, dizem os funcionários do governo, é que não querem ser acusados de "promover a desvalorização do dólar" e de minar o mantra do "dólar forte" de Paulson.

A situação do governo resultou em conjunto de políticas relacionadas à energia ainda mais deformado.

O presidente Bush tem apelado aos países produtores de petróleo que aumentem a produção de petróleo para provocar queda nos preços. Mas ele é repetidamente contestado, já que os ministros do petróleo do Golfo Pérsico acusam que o aumento dos preços do petróleo se deve mais à má administração econômica americana do que às limitações da oferta de petróleo.

Muitos especialistas em petróleo concordam. Segundo Daniel Yergin, que dirige a Cambridge Energy Research Associates, o preço do petróleo para os europeus ainda é basicamente o mesmo que no ano passado. O que está causando o aumento dos preços do petróleo, ele disse, são as baixas taxas de juros americanas que estão sendo reduzidas na esperança de evitar uma recessão. Apesar da demanda global ter de fato aumentado, as baixas taxas de juros também levaram investidores a correrem para os commodities, especialmente contratos de petróleo.

"Há um novo elemento no mercado do petróleo -o Federal Reserve", disse Yergin. "Não porque ele deseja elevar os preços do petróleo, mas em conseqüência de sua redução das taxas de juros para estimular a economia americana."

E quão mais o dólar pode cair? O consenso é de que ainda demorará, em parte porque a China e outros exportadores asiáticos ainda estão comprando dólares para conter a valorização de suas próprias moedas, para que possam continuar exportando com força para os Estados Unidos.

O Fundo Monetário Internacional, que monitora as flutuações cambiais a pedido de seus 185 países membros, classifica tanto o dólar quanto o euro como estando no "lado forte", por causa das práticas cambiais chinesas de manter baixo o valor do yuan.

O temor de alguns economistas é de que, com um maior declínio do dólar, possa haver uma venda por pânico. Mas a maioria dos especialistas ainda duvida que tal pânico ocorrerá, porque não seria do interesse de ninguém, muito menos de todos os investidores que possuem investimentos baseados em dólar.

Apesar de todos os seus problemas, o dólar ainda é amplamente visto como sendo a moeda mais segura do mundo. George El Khouri Andolfato

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