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14/03/2008

Krugman: ações do Fed não serão suficientes para impedir a queda da economia

The New York Times
Paul Krugman
Há quatro anos, um economista acadêmico chamado Ben Bernanke foi co-autor de um estudo técnico que poderia ser intitulado "Coisas que o Federal Reserve Poderia Tentar Fazer em Caso de Desespero", apesar de não ficar óbvio a partir de seu título real, "Políticas Monetárias Alternativas no Limite Zero: Uma Investigação Empírica".

Atualmente o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) está realmente desesperado, e Bernanke, como seu presidente, está colocando em prática algumas das sugestões de seu estudo. Infelizmente, as ações do Fed de Bernanke -apesar de serem sem precedentes em sua extensão- provavelmente não serão suficientes para impedir o mergulho em parafuso da economia.

E se eu estiver certo a respeito disso, há outra implicação: os feios aspectos econômicos da crise financeira logo criarão políticas igualmente feias.

Para entender o que está acontecendo, é preciso saber um pouco sobre como a política monetária costuma operar.
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O poder econômico do Fed se apóia no fato de ser a única instituição com direito de adicionar à "base monetária": pedaços de papel verde ostentando retratos de presidentes falecidos, mais depósitos que os bancos privados realizam no Fed e que podem converter em papel verde à vontade.

Quando o Fed está preocupado com o estado da economia, ele basicamente responde imprimindo mais papel verde para fazer mais empréstimos, o que faz empresas e lares gastarem mais e a economia se expandir.

Este processo pode ser quase mágico em seus efeitos: um comitê em Washington dá algumas instruções técnicas para uma mesa operadora em Nova York e, num estalar de dedos, a economia cria milhões de empregos.

Mas às vezes a mágica não funciona. E esta é uma dessas vezes.

Atualmente, é raro passar uma semana sem ouvir sobre outro desastre financeiro. Parte disso é inevitável: não há nada que Bernanke possa ou deva fazer para impedir que pessoas que apostaram em preços cada vez mais altos dos imóveis residenciais percam dinheiro. Mas o Fed está tentando conter os danos do colapso da bolha imobiliária, impedindo que provoque uma profunda recessão ou que quebre mercados financeiros que não tinham nada a ver com imóveis residenciais.

Assim, Bernanke e seus colegas têm feito o habitual: imprimir papel verde e usá-lo para comprar títulos. Infelizmente, a política não está tendo muito efeito sobre as coisas que interessam. As taxas de juros para títulos do governo estão em queda -mas o caos financeiro deixou os bancos não dispostos a correrem riscos, e está ficando mais difícil, e não mais fácil, para as empresas contraírem empréstimos.

Em conseqüência, a tentativa do Fed de evitar uma recessão quase certamente fracassou. E cada nova peça de dado econômico -como a notícia de que as vendas no varejo caíram no mês passado- aumenta os temores de que a recessão será tanto profunda quanto longa.

Então o Fed está seguindo uma das opções sugeridas naquele estudo de 2004, que tratava das coisas que podiam ser feitas quando a política monetária convencional não consegue qualquer tração. Em vez de seguir as práticas habituais de comprar apenas dívida segura do governo americano, o Fed anunciou nesta semana que colocaria US$ 400 bilhões -quase metade de seus fundos disponíveis- em outras coisas, incluindo títulos apoiados por hipotecas residenciais. A esperança é de que isto estabilize os mercados e coloque um fim ao pânico.

Oficialmente, o Fed não comprará diretamente os títulos baseados em hipotecas: ele apenas os está aceitando como garantia pelos empréstimos. Mas está definitivamente assumindo parte do risco da hipoteca. Isto é, até certo ponto, um socorro aos bancos? Sim.

Ainda assim, não é isso que me preocupa. Eu estou mais preocupado com o fato de que apesar da escala extraordinária da ação de Bernanke -pelo que sei, nenhum banco central de país avançado já se expôs tanto a tamanho risco de mercado- o Fed ainda assim não conseguiu tomar as rédeas da economia. Pode soar muito, mas US$ 400 bilhões ainda são pouco diante do tamanho do problema.

De fato, os primeiros retornos dos mercados de crédito foram decepcionantes. Os indicadores do estresse financeiro como o "TED spread" (nem pergunte) estão um pouco melhores do que estavam antes do anúncio do Fed -mas não muito, e as coisas de forma alguma voltaram ao normal.

E se esta iniciativa fracassar? Eu estou certo de que Bernanke e seus colegas estão considerando freneticamente outras medidas que possam adotar, mas há um limite para o que o Fed -cujos recursos são limitados e cujo mandato não se estende a salvar todo o sistema financeiro- pode fazer quando se vê diante do que parece cada vez mais como uma das maiores crises financeiras da história.

Os próximos passos caberão aos políticos.

Eu costumava pensar que as grandes questões que o próximo presidente enfrentaria seriam como sair do Iraque e o que fazer a respeito da saúde. Mas a esta altura, eu suspeito que o maior problema para o próximo governo será determinar que partes do sistema financeiro socorrer, como pagar a conta da limpeza e como explicar o que está fazendo para um público irado. George El Khouri Andolfato

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