UOL Notícias Internacional
 

15/03/2008

Uma conversão na cadeia divide terroristas e familiares

The New York Times
Seth Mydans

Em Jacarta, Indonésia
Sentenciado à morte por um atentado terrorista, o cunhado de Nasir Abas escreve para ele da prisão, o chamando de infiel e de inimigo do Islã.

"Eu não respondo", disse Abas. "Eu tenho compaixão por ele por estar sob pressão na prisão. Ele não se encontra em um estado emocional normal."

Mas mesmo em um estado emocional normal, um terrorista condenado poderia ser desculpado por estar furioso com Abas.

Antes um alto comandante do grupo terrorista mais mortífero da região, Abas, 38 anos, renasceu como um pregador do antiterrorismo. Trabalhando com a polícia, ele visita seus ex-companheiros na prisão para tentar persuadi-los a cooperarem e a mudarem seus modos.

Kemal Jufri/Polaris/The New York Times 
Nasir Abas é um ex-comandante terrorista quese tornou um defensor do antiterrorismo

Ele aparece em fóruns públicos e publicou um livro chamado "Expondo o Jemaah Islamiyah", o grupo terrorista ao qual pertencia, que tem ligação com a Al Qaeda e está por trás da maioria dos ataques na região nos últimos anos.

Sua conversão filosófica é uma dádiva dos céus para a polícia, que adotou o que o chefe de contraterrorismo da Indonésia, Asyaad Mbai, chama de "abordagem suave, humana" para com os detidos, os tratando mais como irmãos que se perderam do que como criminosos. Eles recebem privilégios especiais na prisão e, em alguns casos, suas famílias recebem ajuda financeira.

"Isto tem a função dupla de manchar aqueles que aceitam e também conquistar membros a adotarem uma posição cooperativa, para que a polícia possa obter mais inteligência do que antes", disse Sydney Jones, alto consultor do International Crisis Group e um especialista em terrorismo.

Abas disse que tenta convencer os detidos de que a visão deles de guerra santa é equivocada, que a polícia não é o mal e que cooperar com ela não é um pecado. "Eu explico para eles que é errado matar pessoas com bombas", disse Abas. "Isto não é jihad no Islã. Vocês estão matando civis desarmados. Isto é uma coisa vergonhosa."

Ele tentou dizer isso ao seu cunhado, Ali Ghufron, quando ainda podia visitá-lo na prisão, e eles acabaram discutindo, ele disse.

"Ele não responderá ao meu salaam", disse Abas, se referindo a uma saudação muçulmana. "Ele não quer mais me ver."

Seu cunhado, conhecido como Mukhlas, é um dos três homens que serão executados em breve pelos atentados a bomba de 2002 contra dois clubes noturnos em Bali, que mataram mais de 200 pessoas.

"Ele diz que é guerra", disse Abas. "A América matou nossos civis na Tchetchênia e no Afeganistão e assim por diante, então estamos nos vingando contra eles."

A disputa entre eles reflete um racha que fez o Jemaah Islamiyah se afastar de atos terroristas em grande escala; não ocorre um grande ataque desde 2005, quando ocorreu um segundo ataque com bomba em Bali.

"O quadro é de um movimento altamente dividido que por ora está enfraquecido em sua capacidade, mas em constante estado de incerteza, mutação e realinhamento", disse Jones, o especialista em terrorismo.

Para Abas, esta divisão ocorre como uma disputa doméstica.

Laços de família, incluindo casamentos entre parentes, são uma forma comum de cimentar relações dentro do movimento terrorista. Pais, filhos, primos e cunhados estão ligados por redes familiares complexas.

Mas nunca ocorreu uma ruptura tão pública e pessoal quanto esta disputa entre um dos assassinos mais agressivos do grupo e seu desertor mais importante.

Pega no meio da briga está a irmã de Abas, Farida, que ele disse que simplesmente tenta se esquivar enquanto seu marido e irmãos atacam um ao outro.

"Eu digo para minha irmã: 'Mukhlas diz que sou infiel. Você acredita nisso?'", disse Abas. "Ela diz: 'Eu não quero pensar no que vocês dois discutem. Este é um problema entre vocês e não um problema meu'."

Durante um longo jantar em um restaurante de sushi no centro da cidade, recentemente, sua transformação de terrorista a contraterrorista permanecia um mistério -talvez uma combinação de impulso, interesse próprio e racionalização.

Certo dia, como ele conta a história, ele estava atacando os policiais que o prenderam, na esperança de morrer por sua causa; na manhã seguinte ele estava ao lado deles, informando sobre seus companheiros e orientando sobre táticas para combatê-los. Ele insiste que não foi maltratado ou coagido.

Tudo começou, ele disse, porque odiava fazer sua lição de casa no colégio. Nascido em Cingapura e criado na Malásia em uma família de classe operária, ele ficou feliz ao descobrir um internato muçulmano onde o currículo em grande parte envolvia a leitura do Alcorão.

Uma coisa levou a outra, como freqüentemente ocorre atualmente, e ele logo sentiu o chamado para lutar ao lado de seus irmãos muçulmanos no Afeganistão ocupado pelos soviéticos. Lá, em um campo de treinamento da Al Qaeda, ele descobriu o talento em armamentos e rapidamente se tornou um instrutor.

Após seis anos lá, ele ajudou a estabelecer um campo de treinamento de terroristas no sul das Filipinas, então ascendeu ao comando de uma das quatro divisões territoriais do Jemaah Islamiyah. Alguns dos detidos que ele visita agora são seus ex-subordinados, ele disse.

Quando foi preso na Indonésia em 2003, ele disse, ele já tinha se voltado contra a morte de civis, a chamando de tática ruim e má religião.

Quando ele fala com os detidos, ele disse, é a história de sua prisão e conversão que mais os interessa. Ele a apresenta como uma parábola de pragmatismo, e seus ouvintes são bem-vindos a levá-lo a sério.

Durante toda sua noite de interrogatório ele permaneceu em silêncio, oferecendo apenas uma oração para Deus, como Abas conta para eles. Mas ao mesmo tempo ele pensava.

"Eu disse a mim mesmo, você tem que aceitar a realidade de que foi preso", ele disse. "Deus não me deixou morrer, então há algo que Deus quer que eu faça."

Pela manhã, ele disse, ele estava pronto. Ele disse uma oração e começou a falar, oferecendo à polícia uma enxurrada de detalhes sobre a estrutura e atividades do Jemaah Islamiyah.

Nada do que fez era inconsistente, ele insistiu, mas simplesmente uma adaptação às circunstâncias. "Minha mudança foi a de ter concordado em continuar minha missão juntamente com a polícia", ele disse. "Minha missão é impedir os crimes, impedir a violência, impedir os desvios. Atentados a bomba são um ato do mal, e minha obrigação é deter os atos do mal."

Segundo seu ponto de vista, ninguém merece mais punição do que seu cunhado, um dos mentores do ato terrorista mais mortal que a região já viu.

Mas com sua execução, a irmã de Abas se tornará viúva e seus filhos perderão seu pai. Quase como em um gesto de penitência pelo racha entre eles, Abas parece quase obsessivo em retratar seu cunhado como marido maravilhoso.

"Mukhlas permanecia em casa", ele disse. "Ele cozinhava. Lavava roupas. Ensinava os filhos. Limpava a casa. Lia livros para a família. Ele nunca bateu nas crianças. Ele nunca levantou sua voz. É quão bom marido ele era."

"Diferente de mim", disse Abas. "Eu não sou um bom marido. Sempre estou distante da minha família. Eu nunca lavei as camisas da minha família e nunca cozinhei. Graças a Deus minha esposa ainda me ama." George El Khouri Andolfato

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