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16/03/2008

Buscando o reconhecimento de trabalhadores desaparecidos na guerra

The New York Times
Thomas Fuller
Em Kanchanaburi, Tailândia
Os grupos de turistas estrangeiros que visitam a cidade de Kanchanaburi, no oeste tailandês, normalmente vão direto pra a famosa ponte sobre o rio Kwai e para os bem cuidados cemitérios que contêm os restos mortais de milhares de prisioneiros de guerra Aliados que morreram construindo uma ferrovia no país durante a Segunda Guerra Mundial.

Quando vão parar no tranqüilo bairro onde mora Urai Bosap é porque provavelmente pegaram o caminho errado. Nenhum memorial atesta os horrores que aconteceram aqui há seis décadas, apenas uma pequena plantação de babaneiras e limeiras espremida entre os condomínios murados das famílias abastadas.

Thomas Fuller/The International Herald Tribune 
Cemitério de Kanchanaburi guarda os corpos dos milhares de prisioneiros de guerra

Mas Urai, 78, sabe bem mais que isso. Ela se recusa a comer as frutas do pomar porque quando era adolescente viu os corpos de centenas de trabalhadores asiáticos famintos serem jogados em valas comuns onde hoje estão as árvores.

"Às vezes as pessoas ainda não estava mortas", diz Urai, com os olhos se espremendo com a memória. "Alguns ainda gemiam quando eram jogados no buraco."

A construção da às vezes denominada "Ferrovia da Morte" que liga a Tailândia a Burma, então ocupada pelo Japão em 1940, tornou-se um símbolo da crueldade infringida pelas tropas japonesas que almejavam conquistar as terras do leste asiático e além. Ainda assim, o maior grupo de vítimas da construção da ferrovia, um número estimado em 70 mil trabalhadores asiáticos, é pouco lembrado em Kanchanaburi, a cerca de 100 quilômetros de Bancoc.

Os restos dos mortos estão, na maioria das vezes, onde os japoneses os largaram: espalhados ao longo da ferrovia que hoje ainda é parcialmente usada.

Entre 200 e 300 mil trabalhadores asiáticos -ninguém sabe o número exato- foram recrutados à força pelos japoneses e por seus sucessores para trabalhar na linha férrea: tamis (povo que habita a região entre o sul da Índia e norte do Sri Lanka), chineses, e malaios da Malaia Britânica; burmaneses e outros grupos do território compreendido pela atual Mianmar, e javaneses provenientes de onde hoje é a Indonésia.

"É uma história praticamente esquecida", diz Sasidaran Sellappah, um fazendeiro aposentado da Malásia cujo pai esteve entre os 120 trabalhadores tamis de um seringal que foram forçados a trabalhar na ferrovia. Apenas 47 sobreviveram.

Sasidaran, que ajuda a liderar uma campanha para conseguir reparações por parte do governo japonês, diz que já encontrou várias famílias que sabiam tão pouco sobre a ferrovia que não entendiam porquê seus pais ou avós foram para a Tailândia e nunca mais voltaram.

Por outro lado, a agonia dos 61.806 prisioneiros de guerra britânicos, australianos, holandeses e americanos que trabalharam na ferrovia, cerca de 20% dos quais morreram vítimas de fome, doenças e execuções, é lembrada em pelo menos uma dúzia de memoriais, documentada na história oficial dos governos envolvidos, e relatada na ficção "Ponte Sobre o Rio Kwai", livro campeão de vendas de Pierre Boulle que inspirou o clássico filme de Hollywood de 1957.

The New York Times 
Entre 200 e 300 mil trabalhadores foram recrutados à força para trabalhar na ferrovia

Os dois cemitérios de Kanchanaburi dedicados aos prisioneiros de guerra estão decorados com fileiras de arbustos floridos e são cuidados por 15 zeladores empregados em tempo integral. Eles lembram os memoriais da Normandia em homenagem aos soldados mortos na invasão do Dia D.

Muitos dos túmulos aqui estão gravados com epitáfios pungentes, como o do túmulo de H.S. McLeod, um sargento australiano de 34 anos de idade que morreu em 1943: "Um sorriso e um aceno, e ele se perdeu em estranho terreno."

Os prisioneiros de guerra ocidentais são normalmente mantidos separados dos trabalhadores asiáticos. Eric Lomax, um prisioneiro de guerra britânico, lembra-se de ver "estreitas fileiras de asiáticos" que logo se transformaram em uma "enxurrada, uma maré de homens infelizes".

"Mesmo naquela época, apesar do meu pouco conhecimento sobre a dimensão dos eventos que se abatiam sobre nós, era possível imaginar que esses infelizes trabalhadores morreriam em grande número e seriam as maiores vítimas da ferrovia", escreveu Lomas em seu livro de memórias "O Homem da Ferrovia", de 1995.

Tendo conquistado o sudeste asiático, os japoneses construíram a ferrovia para abastecer suas tropas enquanto forçavam o caminho em direção à Índia. A ferrovia havia transposto um terreno geográfico inconveniente, a Península Malaia, que obrigava as embarcações a navegarem mais de 3.000 quilômetros para ir de Bancoc até Burma. A viagem pela ferrovia não tinha mais do que 600 quilômetros.

Hoje, poucos moradores e um número cada vez menor de sobreviventes asiáticos, a maioria em seus 80 e 90 anos, são as únicas testemunhas remanescentes desses anos de doença, desnutrição, abuso e assassinatos.

Quando eles morrerem, uma importante parte da história morrerá com eles, diz Muthammal Palanisamy, uma ex-professora malasiana que encontrou doze ex-trabalhadores da ferrovia, a maioria tamis, e está compilando as memórias que eles têm do tempo da guerra para publicar um livro. Ela colocou anúncios em jornais em língua tamil pedindo para que os sobreviventes a contatassem, mas foram poucos os que responderam. Talvez pelo mesmo motivo que eles não tenham nenhuma memória escrita: a maioria não sabe ler nem escrever.

Os doze trabalhadores com os quais ela falou contam histórias semelhantes, diz ela. Os japoneses disseram a eles que a ferrovia era um projeto glorioso que ajudaria a libertar a Índia das garras dos colonizadores britânicos. Durante a penúria da guerra, alguns se ofereceram para ir por vontade própria, em troca de pagamentos. Outros foram forçados pelos japoneses.

Tongyu Chalawankumpi foi levado ainda adolescente da região onde hoje fica o norte da Malásia depois que os japoneses ofereceram à sua mãe um pagamento em dinheiro em troca de seu trabalho.

Tongyu passou dois anos martelando dormentes de ferrovia e quebrando pedras. A ferrovia, com cerca de 425 quilômetros de extensão e construída entre a floresta montanhosa infectada pela malária, teria sido um desafio mesmo para os mais modernos equipamentos de engenharia. Mas foi construída sobretudo por mãos humanas ou com a ajuda de elefantes, que, de acordo com um relatório japonês, eram mais bem tratados do que os trabalhadores.

Tongyu fugiu, temendo ser jogado vivo em uma vala comum. "Eu estava ficando doente e sabia que iria acabar no buraco", disse ele em uma entrevista em sua casa, não muito longe de onde passa a ferrovia. Ele pulou no rio e flutuou com a correnteza por sete dias e sete noites, agarrado a um pedaço de bambu, antes de ser resgatado e abrigado por monges budistas.

Depois da guerra, o governo colonial da Malaia Britânica distribuiu US$ 1,5 milhão às viúvas e dependentes dos malaios que morreram construindo a ferrovia. O governo pós-independência da Malásia entrou num acordo geral de reparação com o Japão em 1967, aceitando vários milhões de dólares de indenizações.

Não está claro por que se sabe tão pouco no sudeste asiático sobre o papel dos trabalhadores asiáticos na ferrovia, especialmente levando-se em consideração a dimensão do sofrimento. Em muitos seringais malaios, os japoneses exigiam de cada família pelo menos um filho fisicamente capaz para o projeto.

Dos mais de 85 mil trabalhadores que saíram da Malaia Britânica, 33 mil morreram, mostram documentos japoneses da época. Ainda assim, pouco é dito sobre isso nos livros de história da Malásia. E o governo não tem feito nenhum esforço para encontrar e reclamar os muitos corpos que continuam nas florestas ao longo dos trilhos da ferrovia.

Worawut Suwannarit, professor de História na Universidade Rajabhat, em Kanchanaburi, passou décadas tentando aumentar a conscientização em relação aos trabalhadores asiáticos e chegou a uma dura e amarga conclusão. "Esse é o motivo pelo qual esses países são chamados de subdesenvolvidos, países de terceiro mundo", diz ele. "Eles não se preocupam com seu povo".

Outros culpam os britânicos -que colonizaram Burma e a Malaia, os dois países com maior número de trabalhadores na ferrovia, antes e depois da guerra -por não fazer nada para honrar os mortos.

O governo tailandês dá pouco incentivo para honrar as vítimas porque poucos tailandeses trabalharam na ferrovia. A razão para isso é que os japoneses temiam se opor aos seus anfitriões, que haviam assinado um acordo com o Japão permitindo a permanência e o trânsito de tropas em troca da preservação da soberania tailandesa.

Em 1990, uma organização beneficente tailandesa que ficou sabendo por parte de um morador de Kanchanaburi da possível existência de uma vala comum, cavou parcialmente a área onde hoje estão as bananeiras e as limeiras. Usando uma escavadora, equipamento que não é normalmente usado para escavações históricas, a equipe encontrou mais de 500 esqueletos. Depois que a Embaixada Australiana fez uma vistoria e determinou que os restos não eram de soldados aliados, o grupo beneficente levou os ossos para um crematório em Bancoc e os incinerou.

Isso deixou Worawut revoltado, ele argumentou com as autoridades locais para que o local das mortes fosse transformado em um museu e memorial em homenagem as trabalhadores asiáticos. "Eles nunca me deram uma resposta", disse Worawut.

Sem nenhum patrocínio, ele removeu 33 esqueletos que havia desenterrado e fechou o buraco. "Acredito que ainda haja mais corpos lá -muitos", disse. "Mas ninguém quer fazer nada a respeito".

Ele confiou os esqueletos ao departamento histórico da província de Kanchanaburi para serem guardados em segurança. Em fevereiro, Worawut, acompanhado de um repórter, voltou ao escritório do departamento para perguntar o que havia acontecido com os esqueletos.

Ele foi cumprimentado por Pichit Rongrithikrai, um dos gerentes do departamento, que disse que os ossos haviam sido descartados há cerca de três ou quatro anos porque os funcionários e os visitantes estavam reclamando do mau-cheiro. "Havia um odor rançoso", disse Pichit.

Os ossos, segundo ele, foram enterrados por um funcionário da manutenção, não muito longe da pilha de compostagem. Eloise De Vylder

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