UOL Notícias Internacional
 

17/03/2008

Twombly na terra de Michelangelo

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Roma
Você não perceberia, circulando pela apinhada feira de arte de Bolonha, há algumas semanas, nem visitando a nova galeria de arte de Larry Gagosian em Roma, onde parte do endinheirado e asséptico ar do Chelsea de Nova York alcança a vizinhança ao redor da escadaria da Praça de Espanha. Mas a Itália tornou-se o caso perdido da Europa Ocidental.

É o que todos dizem. Ainda é o paraíso do turismo, claro, se você não estiver pagando em dólares. Em termos políticos, porém, é um país sempre atrás de seu próprio rabo. Esse inverno o governo, cronicamente geriátrico, caiu pela enésima vez. Décadas de corrupção e inépcia foram responsáveis pelo lixo que se empilhou e apodreceu nas ruas de Nápoles.

Mas existe a realidade da arte contemporânea.

 Marco Di Lauro/The New York Times 
Pepi M. Franchi, diretora da galeria de Gagosian, em Roma, observa as pinturas de Twombly

Um novo museu está sendo construído em Roma, chamado MAXXI (Museu das Artes Nacionais do Século XXI), e projeto de Zaha Hadid. Um museu aberto há pouco em Bolonha, chamado MAMbo (os italianos adoram seus acrônimos). A Fundação Prada acaba de comprar um espaço para exibições no sul de Milão; Rem Koolhaas será o arquiteto. E ao norte de Milão há o Hangar Biccoca, uma imensa fabrica antiga da Pirelli, dedicada a instalações gigantescas; uma série extraordinária de torres de Anselm Kiefer construídas em forma de totem em blocos de concreto acaba de se transformar em local de peregrinação.

Em Nápoles, o Madre, um museu contemporâneo, apresenta exposições de primeira linha. Agora tem um novo local. Assim como a família Maramotti, que possui a Max Mara, uma confecção. Nesse inverno os filhos de Maramotti abriram uma fundação em uma fábrica adaptada em um inacreditável prédio que reunia indústria e escritórios em Reggio Emilia para abrigar a coleção de seu falecido pai.

Mais coisas estão acontecendo em Turim, onde o Castello de Rivoli durante muito tempo reinou como o mais importante museu de arte contemporânea na Itália. E depois de anos de abandono, Veneza recentemente cedeu sua sede da alfândega a François Pinault, o bilionário francês que já possui o Palazzo Grassi e diz que vai usar ambos para exibir sua coleção. Dificilmente essa seria a melhor forma de qualquer cidade resgatar a arte contemporânea, mas para a Itália é muito importante que Pinault tenha preferido Veneza a Paris, que o queria.

Para ver as coisas sob uma diferente perspectiva, fui procurar Lorcan O' Neil, um marchand que mudou de Londres para Roma há vários anos, e agora dirige uma das melhores galerias de primeira linha da cidade. Ele é um irlandês alto e magro com um catálogo de grandes nomes de artistas e um modesto espaço em uma rua secundária em Trastevere. Nós nos acomodamos na sala dos fundos, cercados por pilhas das muitas revistas de arte publicadas aqui.

"Os estrangeiros se sentem à vontade para caçoar da Itália e lamentar que seja decrépita e corrupta disse." Seja qual for a razão, eles acham que é fascinante insultar os italianos, mesmo que eles em seguida saiam para comprar Prada, comer comida italiana e desejar uma Ferrari." Quando se trata de arte contemporânea, ele acrescentou, a Itália de certa forma está mais dinâmica que a Inglaterra, onde à parte Londres, não existe nada.

Então o cenário artístico está florescendo por aqui, eu disse.

Ele riu da minha ignorância: "É complicado. Seria uma aberração se a Itália não se beneficiasse, como todo mundo." Ele estava se referindo ao boom global da arte, que se parece com uma onda levantando todos os barcos.

Muitas instituições públicas de arte daqui são como o governo italiano, ele prosseguiu. São instáveis. O Estado ainda pensa em cultura quase que exclusivamente em termos de antigüidades, portando, basicamente é para aí que vai todo o dinheiro que existe. "Além disso, afirma, "historicamente existe um relacionamento muito complexo e antagônico entre a esfera pública e a privada," razão pela qual uma cidade como Milão não tem um museu público de arte moderna, mas possui todo tipo de iniciativas privadas, de pessoas que acreditam que podem ser mais eficientes.

Confesso que, de repente, fiquei um tanto quanto confuso.

"Veja você mesmo," ele disse, fazendo, no jeito italiano, um gesto que seria "tanto faz" e dispensando-me na garoa da noite.

É "medieval," disse o veterano curador Germano Celant. Ele é o Richelieu da arte contemporânea em seu país. Agora ele mais se parece com um anjo vingador. "Todos esses diferentes vilarejos, cidade contra cidade, museu contra museu -cada instituição é o projeto de um indivíduo; caso contrário, nada é feito. Não existe estrutura, nenhuma cultura oficial de competência."

Num recente tour super-rápido por vários museus e coleções de arte contemporânea, envolto pelas obrigatórias paradas para reabastecimento com bucatinis, revelaram bem o que se passa no país, em grande parte excelente. Mas Celant está certo. Aqui, a responsabilidade pela arte contemporânea fica certamente com as cidades ou regiões e, acima de tudo, com os empreendedores privados, que pelo menos desde a guerra reconheceram que o futuro prestígio da Itália repousa em seu passado de artesãos.

Mas embora tenha surgido o Museum of Modern Arte, a Tate e o Pompidou nos Estados Unidos, Reino Unido e França nesse período, como as grandes instituições em torno das quais museus menores e fundações privadas se firmaram como complementos e alternativas, não existe nenhum MoMA aqui. Nenhuma coesão. Toda a energia, dissipada. O debate que se repete há anos sobre a reunião de uma coleção de arte moderna a partir da Bienal de Veneza -uma fonte já pronta que durante décadas, cuidadosamente selecionada, teria produzido um museu de alta categoria- como era de se esperar, não deu em nada.

Então os colecionadores privados como Prada em Milão e Sandretto Re Rebaudengo em Turim e museus regionais como o de Rivoli, acabaram fazendo esse trabalho, para o qual não estão realmente preparados. O sistema fiscal italiano os onera ainda mais. Nos Estados Unidos, os colecionadores fazem doações aos museus e recebem isenções fiscais. Aqui não. Não existe garantia nem mesmo de que as doações serão aceitas. Francesco Semmola é um segurador privado para obras de arte ao qual eu recorri uma tarde, na feira de Bolonha. Com um sorriso lacônico, ele me disse que faz seguros para colecionadores privados e fundações italianas, mas jamais negociaria com o governo. "A triste realidade é que a maior parte dos museus na Itália não tem seguro", disse

Compreendeu minha expressão e fez o mesmo gesto de "tanto faz".

Semmola contou mais: uma universidade perto de Urbino, que há 20 anos recebeu uma importante biblioteca de milhares de volumes, precisou devolver a doação recentemente, porque ninguém sequer se deu ao trabalho de desempacotar os livros. "E também um colecionador de arte muito importante morreu e quando sua família tentou pagar os impostos sobre a herança com parte da coleção, não havia ninguém entre os funcionários do Estado que se atrevesse a dizer quanto a coleção valia," acrescentou. "Então, os herdeiros ficaram com os quadros, pagaram os impostos, depois venderam as obras de arte em um leilão por um valor imensamente maior. Como eu disse, ninguém no governo quer assumir responsabilidades."

Carlo Bach estava circulando pela feira também. Ele supervisiona o programa da Illy, que encomenda a artistas projetos para xícaras de café da empresa, depois usa o dinheiro captado por meio de vendas, para conceder bolsas a jovens artistas e catálogos para exposições de arte. "Na Itália, os proprietários de grandes indústrias são ligados à cultura, mesmo sem vantagens fiscais, como nos Estados Unidos, porque os empreendedores daqui amam seu país e quando vêem o governo perdendo a capacidade de dar apoio à arte, encarregam-se de fazer isso por conta própria."

Amor ou vaidade. Merecem o crédito por agir. Encontrei Lia Rumma, que como jovem colecionadora abriu uma galeria em Nápoles em 1971, depois uma segunda em Milão, 18 anos após. Seu marido, Marcello Rumma, publicava livros de arte e atuou em exposições de vanguarda. Ele morreu em 1970. "Eu queria proteger o legado de meu marido e abrir a Itália, como ele tentou fazer, ao panorama internacional," disse Lia Rumma. No início sua galeria expunha obras minimalistas e conceituais quando eram praticamente desconhecidas aqui. Gradualmente, patrocinou um grupo seleto de jovens colecionadores.

"Mas o mercado não pode ser um substituto para o que realmente mantém os artistas, ou seja, museus, apoio público e reconhecimento", diz ela. "A Prada e outras empresas privadas são um substituto para o Estado aqui, mas elas jamais deveriam assumir o papel das instituições públicas." Eu citei Madre, o museu de sua cidade, Nápoles, e ela fez um gesto de aprovação.

"Sim, mas uma andorinha não faz o verão."

Acontece que o país está cheio de andorinhas maravilhosas e solitárias. A Fondazione Maramotti é uma bela homenagem a um sério colecionador de arte tradicional, Achille Maramotti, que pode ser desculpado se nos últimos anos, a não ser por obras ocasionais de Philip Taaffe, Peter Cain e outros, tenha feito aquisições com exigências de certa forma menores. As salas das primeiras obras de Kounellis e Pino Pascali e Manzoni e Pistoletto são admiráveis.

Em Turim, Patrizia Sandretto Re Rebaudengo, trabalhando cuidadosamente com Francesco Bonami (como Celant, ela é uma das mais famosas curadoras da Itália), supervisiona a fundação que apresentou várias exposições de nível internacional. Sandretto Re Rebaudengo e seu marido possuem uma villa nessa cidade abarrotada de obras de arte. "Quando eu comecei a colecionar e visitei a Alemanha e Londres, fiquei chocada de ver artistas italianos contemporâneos que não eram encontrados em lugar algum na Itália," ela se lembra. "O fato de as pessoas se concentrarem em obras antigas é um meio de não estar envolvido com o momento presente. Mas acho que as coisas estão mudando. Elas certamente mudaram em Turim, que precisou se redefinir, quando a Fiat enfrentou dificuldades.

"A cidade percebeu que a arte contemporânea era um meio de erigir uma nova identidade," afirma, e isso ajudou a levantar na década de 1980 o Museu de Arte Contemporânea Castello di Rivoli, com o apoio da Região do Piemonte. O Rivoli ocupa um castelo dos Savóia, nos arredores de Turim. A coleção agora tem um total de cerca de 300 obras, em sua maior parte grandes instalações, disse Marcella Beccaria, a curadora. Lothar Baumgarten pintou as paredes de uma das salas em azul-ferrete e acrescentou plumas de pássaros. Sol LeWitt fez murais em outra sala. Uma exposição de pinturas da galeria Hayward de Londres chegou há poucos dias. Cerca de 100 mil pessoas visitam o Rivoli anualmente.

"Foi só recentemente que as pessoas na Itália começaram a reconhecer o valor cultural da arte contemporânea, o que os outros países fazem, por razões econômicas," disse Beccaria. "Os italianos demoraram em perceber que existe um mundo econômico lá fora que gira em torno disso."

Mas Turim é um caso e Roma outro. O artista americano Joseph Kosuth, enquanto viajava de trem uma manhã, lembrou de ter mudado para cá na década de 1990. Ele gostou de ter a possibilidade de trabalhar e pensar e, bem, "tratava-se de Roma." É isso que Larry Gagosian também tem falado. Não importa o que pensem os céticos, ele está aqui para tentar conquistar Cy Twombly, o expatriado mais lucrativo.

"Larry veio não pelas razões que as pessoas acreditam, mas pelo mais banal dos motivos," afirma Pepi Marchetti Franchi, que administra a galeria de Gagosian. "Quando ele viu Roma pela primeira vez, há muito tempo, apaixonou-se pela cidade. Agora que tem condições de ter seus luxos, acredita que os artistas nos quais está interessado terão a mesma emoção que ele, ao se apresentar aqui. Não se trata do mercado. Esse mercado praticamente não existe." A galeria, aliás, foi inaugurada com uma exposição de obras de Twombly.

Seja como for. O romantismo responde por grande parte da atração exercida por Roma. Foi o que trouxe Cornelia Lauf para cá, há vários anos. Ela estava casada com Kosuth. Uma veterana curadora, ela selecionou nomes para galerias como Monitor, Magazino, S.A.L.E.S. e 1/9, que trouxeram uma vibração nova à cidade. "Definitivamente, está mais animado", ela diz. Ela me apresentou Paola Capata, que dirige a Monitor. Nós nos encontramos diante de um andar de esculturas em compartimentos cheios com algo semelhante a ferramentas e feno: o trabalho de Kostis Velonis, ela disse, apontando para um jovem com aparência despojada de solidéu e jeans folgados.

Ele sorria com confiança.

"Não posso dizer que Roma seja fabulosa," disse Capata. "Não é como a Holanda ou a França ou o Reino Unido, onde os museus dão apoio aos seus próprios artistas jovens. Mas é um bom lugar para trabalhar, e nos últimos anos, isso certamente começou a mudar."

Onde tudo vai acabar depende em parte do MAXXI, o museu de arte moderna do Estado. O edifício está em construção. Anna Mattirolo, que trabalhou no setor de administração artística do governo durante vários anos, o dirige. Ela sentou em uma pequena mesa no café ao lado e descreveu como tem sido complicado, no decorrer de vários anos, conseguir que os burocratas do Ministério da Cultura, imersos em arte mais antiga, aprovem aquisições de arte contemporânea. Mas há melhoras, ela diz. A atitude está evoluindo.

Mas, eu disse, o governo caiu. O prédio está semi-construído. Não há um verdadeiro orçamento para aumentar a coleção. Como se pode ter certeza de que o próximo governo não vai abandonar todo o projeto?

"É a nossa cultura," disse Mattirolo. "Não adianta lutar contra isso. É impossível saber o que vai acontecer. Tudo o que sei é que se nós pedirmos a grandes artistas internacionais que venham para uma exposição, eles virão."

Ela acrescentou, "Isso é a Itália," e deu de ombros. O governo italiano ainda pensa em cultura quase que exclusivamente em termos de antigüidades e ignora que existe um mundo econômico que gira em torno da arte contemporânea Claudia Dall'Antonia

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