UOL Notícias Internacional
 

17/03/2008

Venezuelanos partem para Curaçao em busca de dólares ilegais

The New York Times
Simon Romero*
Em Willemstad, Curaçao
Caminhe pela Columbusstraat. Entre no saguão esfumaçado do Hotel e Cassino San Marco. Suba um lance de escadas até a recepção. Peça para falar com o quarto 106. Leve um cartão de crédito expedido na Venezuela.

Na tentativa de colocar as mãos em alguns dólares americanos, os venezuelanos estão se debandando para Curaçao, nas Antilhas Holandesas, para participar desse e de outros elaborados esquemas ilegais para burlar o controle monetário imposto pelo governo do presidente Hugo Chávez.

"Os venezuelanos vêm aqui para conseguir dólares, e nós ficamos felizes em ajudá-los", disse Ronald Veenstra, 36, dono do bar Supreme and Real, em frente ao Hotel San Marco, enquanto preparava um mojito. "Eu nunca fiz tantos drinques para nenhum outro grupo em toda minha vida".

Para os venezuelanos, a opção de ir a Curaçao para obter dólares surgiu no ano passado quando o valor da moeda do país, o bolívar, caiu bruscamente em relação ao dólar enquanto se intensificava o medo em relação à política econômica de Chávez, que inclui a nacionalização das companhias de petróleo e telefonia.

Com a maior taxa de inflação da América Latina, cerca de 23%, e com o valor do bolívar decaindo, a Venezuela tornou-se uma aberração econômica. Numa era de valorização de várias moedas locais, como é o caso do real brasileiro e o sol peruano, a Venezuela é um lugar onde o dólar ainda é cobiçado.

É aí que entra Curaçao. "A Venezuela sempre foi um mercado natural para Curaçao", diz Johannes Henriques, 63, gerente do St. Michiel Bay Inn, lembrando-se dos "booms" do petróleo que aconteceram no passado, quando uma enxurrada de venezuelanos invadia as butiques e hotéis de Willemstad. "Agora os venezuelanos vêm para fazer o negócio do cartão, e é uma oportunidade para eles nos conhecerem de novo".

O "negócio do cartão" é um esquema intrincado que envolve comerciantes, burocratas socialistas, viajantes venezuelanos e intermediários.

Na tentativa de desacelerar a fuga de capital, a Venezuela proíbe que seus cidadãos gastem mais do que US$ 5 mil por ano em compras com cartão de crédito no exterior. Isso equivale a 10.750 bolívares, a uma taxa de câmbio oficial de 2,15 bolívares por dólar. Mas à taxa de 4,50 para o dólar, predominante no câmbio negro, essa quantia dobra para 22.500 bolívares.

Aproveitando essa oportunidade, os venezuelanos passaram a visitar os cassinos de Curaçao no ano passado para comprar fichas com seus cartões de crédito. Eles jogavam algumas rodadas e depois trocavam as fichas por dólares, moeda que circula em Curaçao juntamente com o guilder holandês. Mas logo os cassinos os proibiram de comprar fichas com cartão porque poucos as estavam usando para jogar.

Os intermediários então entraram em cena, organizando viagens para os venezuelanos e cobrando 20% de comissão na troca por dinheiro vivo feita por comerciantes, como, por exemplo, a agência de viagens no quarto 106 do Hotel San Marco. O intermediário e o comerciante dividem a comissão de 1 mil, deixando o venezuelano com 4 mil em dinheiro.

O intermediário diz que eles falsificam recibos, e contam com a vista grossa dos bancos locais, que processam as transações. Os intermediários dizem que os recibos, normalmente de artigos eletrônicos, oferecem um álibi para os viajantes no caso de sofrerem uma auditoria por parte dos burocratas venezuelanos ideologicamente leais a Chávez. Se surge algum problema, diz o atravessador, uma pequena "comissão" para alguns burocratas pode tornar as coisas mais fáceis.

Alguns venezuelanos guardam os dólares como uma garantia contra a instabilidade econômica, enquanto outros trocam a moeda na Venezuela por bolívares no câmbio negro, para obter lucro. Os comerciantes conseguem comissões altas por aceitar cartões de crédito.

Para se ter uma idéia de onde vai parar uma grande parte da riqueza venezuelana com o petróleo, alguns intermediários da ilha de Curaçao já acumularam fortunas desde que o esquema começou. "Só em dezembro eu fiz US$ 300 mil", diz Roberto, 31, intermediário que pediu para permanecer anônimo, com medo de ser identificado como um aproveitador.

Rosann Jansen, pesquisador do Departamento de Turismo de Curaçao, diz que os visitantes venezuelanos praticamente triplicaram em 2007, para 60 mil em relação ao ano anterior, na medida em que as companhias aéreas aumentaram os vôos de Caracas e de cidades menores na Venezuela como Maracaibo, Valencia e Las Piedras. Com vôos agendados com meses de antecedência, o número de viajantes pode aumentar para 100 mil este ano.

"Estou fazendo isso para ter alguma poupança quando ficar mais velha", diz Yesenia Castro, 53, uma venezuelana que trabalha em escritório e que viajou a Curaçao duas vezes em menos de um ano para buscar dólares.

Quando os vôos chegam, os empregados dos intermediários se aglomeram no saguão do aeroporto na tentativa de levar os venezuelanos para seus chefes. Uma vez que a concorrência ficou mais acirrada, as comissões sobre as negociações caíram para cerca de 15% recentemente, disseram os viajantes.

Desde que as compras com cartão de crédito no exterior cresceram 312% em 2007, chegando a US$ 5,1 bilhões, as autoridades de Caracas estão tentando acabar com a prática. Eles proibiram a publicação da taxa do câmbio negro e mudaram o nome da moeda do país para bolívar forte.

Eles já auditaram milhares de viajantes enquanto pediram a outros para ficarem no exterior por sete dias para acessar seus cartões de crédito. Mas as novas regras simplesmente deram origem a formas mais criativas de infração.

Alguns intermediários simplesmente fazem uma nota para viagens modestas de dois dias, e ficam com o lucro da troca cambial, efetivamente ludibriando os venezuelanos a estourarem suas quotas enquanto oferecem bebidas para eles nas praias.

Parece que há pouco exame de consciência em Curaçao por explorar as idiossincrasias da Venezuela. Há tempos a ilha vem tentando encontrar formas de se tornar próspera às custas de sua vizinha do sul.

Há tantas lojas no centro de Willemstad com cartazes dizendo "Cartões de Crédito venezuelanos são bem-vindos", que é uma surpresa encontrar uma que não os aceite. A explicação, quando dada, é simples. "Nós não fazemos isso", diz Manish Chandhani, 25, vendedor da loja de eletrônicos Baba's. "Meu chefe não gosta de ganhar dinheiro fácil." Eloise De Vylder

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