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18/03/2008

EUA aplicam táticas de dissuasão da Guerra Fria contra terroristas

The New York Times
Eric Schmitt e Thom Shanker
Em Washington
Nos dias que se seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001, membros do gabinete de guerra do presidente Bush declararam que seria impossível impedir que os extremistas mais fervorosos consumassem missões terroristas ainda mais letais com armas biológicas, químicas ou nucleares.

No entanto, desde então funcionários do governo, membros das forças armadas e oficiais de inteligência encarregados da área de contra-terrorismo começaram a mudar os seus pontos de vista. Após montarem um retrato mais matizado das organizações terroristas, eles dizem que há motivos para acreditar que uma combinação de esforços poderia na verdade criar algo semelhante à atitude de dissuasão, a estratégia que ajudou a proteger os Estados Unidos de um ataque nuclear soviético durante a Guerra Fria.

Entrevistas com mais de vinte autoridades graduadas envolvidas na luta contra o terrorismo revelaram os contornos de missões até então não divulgadas cujo objetivo foi silenciar a mensagem da Al Qaeda, fazer com que as debilidades do movimento jihadista voltassem-se contra ele próprio e sempre que possível divulgar os erros cometidos pela organização de Osama Bin Laden.

Um primeiro foco foi o ciberespaço, que é o abrigo global das redes terroristas. Segundo as autoridades entrevistadas, para neutralizar as tentativas dos terroristas de maquinar ataques, arrecadar dinheiro e recrutar novos membros pela Internet, o governo criou uma campanha secreta para plantar mensagens falsas por e-mail e em websites, com o propósito de disseminar a confusão, a discórdia e a desconfiança em meio às organizações militantes. Ao mesmo tempo, diplomatas norte-americanos estão trabalhando discretamente por trás dos bastidores com parceiros do Oriente Médio para amplificar os discursos e escritos de clérigos muçulmanos proeminentes que estão renunciando à violência terrorista.

No nível local, as autoridades estão testando novas maneiras de manter os potenciais terroristas desprevenidos.

Na cidade de Nova York, até 100 policiais em radiopatrulhas de todos os bairros convergem duas vezes por dia, em horários escolhidos aleatoriamente, para locais selecionados também de forma aleatória, como Times Square ou o distrito financeiro da cidade, a fim de ensaiarem respostas a um ataque terrorista. As autoridades policiais da cidade dizem que essas operações são consideradas uma tática crucial para fazer com que os extremistas sejam obrigados a adivinhar quando e onde uma grande presença policial poderá se materializar a qualquer momento.

"O que desenvolvemos depois do 11 de setembro, em seis ou sete anos, foi uma melhor compreensão do apoio que é necessário para os terroristas, e da rede que fornece esse apoio, seja ele financeiro, material ou técnico", afirma Michael E. Leiter, diretor do Centro Nacional de Contra-Terrorismo.

"Nós agora começamos a desenvolver teorias mais sofisticadas sobre dissuasão para cada uma dessas áreas de apoio", disse Leiter em uma entrevista. "Os terroristas não atuam em um vácuo".

As autoridades governamentais admitem que sob certos aspectos esse esforço representa a segunda melhor solução para o problema. A maneira preferida de combater o terrorismo continua sendo capturar ou matar extremistas, e a nova ênfase na dissuasão equivale, de algumas maneiras, a afixar novos rótulos sobre antigas ferramentas. "Existe uma questão crucial que ninguém é capaz de responder: que grau de distúrbio aplicado contra as redes terroristas é necessário para que provoquemos o efeito da dissuasão?", diz Michael Levi, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores e autor de um novo estudo, "On Nuclear Terrorism" ("Sobre o Terrorismo Nuclear").

A nova dissuasão
A crença emergente de que os terroristas podem ser vulneráveis a uma nova forma de dissuasão reflete-se em dois dos documentos estratégicos centrais do país.

A Estratégia de Segurança Nacional de 2002, assinada pelo presidente um ano após os ataques de 11 de setembro, declara sem rodeios que "os conceitos tradicionais de dissuasão não funcionarão contra um inimigo terrorista cujas táticas declaradas são a destruição indiscriminada e o ataque a inocentes".

Entretanto, quatro anos depois, a Estratégia Nacional de Combate ao Terrorismo concluiu: "Um novo cálculo de dissuasão conjuga a necessidade de impedir que os terroristas e aqueles que os apóiam cogitem um ataque com armas de destruição em massa e, caso isso não surta efeito, a imprescindibilidade de dissuadi-los de concretizar um ataque".

Por motivos óbvios, é mais difícil impedir ataques terroristas do que um ataque soviético.

Os terroristas não contam com alvos óbvios para uma retaliação norte-americana como eram as cidades, as fábricas, as bases militares e os silos de mísseis da União Soviética, segundo a doutrina de dissuasão da Guerra Fria. E é bem mais difícil identificar com precisão a localização de líderes de um grupo terrorista do que era encontrar os escritórios no Kremlin dos chefões do Politburo, o que torna praticamente impossível impedir ataques terroristas por meio de ameaças verossímeis de um ataque retaliatório.

Mas no decorrer dos seis anos e meio desde os ataques do 11 de setembro, muitos líderes terroristas, incluindo Osama Bin Laden e o seu vice, Ayman al-Zawahri, conseguiram evitar a captura, e as autoridades norte-americanas afirmam que agora reconhecem que as ameaças de matar os líderes terroristas podem jamais vir a ser suficientes para manter os Estados Unidos seguros.

Assim, essas autoridades passaram os últimos anos procurando identificar outros tipos de "territórios" que os extremistas prezam. Elas dizem acreditar que um fator importante pode ser a reputação e a credibilidade dos terroristas junto aos muçulmanos.

De acordo essa nova teoria, caso fosse possível plantar nas mentes da liderança estratégica da Al Qaeda as sementes da dúvida, fazendo com que imaginassem que um ataque pudesse ser visto como um vergonhoso assassinato de inocentes - ou, ainda mais efetivamente, de que isso seria um fracasso embaraçoso -, a ordem poderia não ser dada.

Autoridades graduadas admitem que é difícil comprovar que papel essas novas táticas e estratégias desempenharam para frustrar complôs ou impedir que a Al Qaeda atacasse. Elas dizem que houve vários sucessos com o uso das novas abordagens, mas muitas delas envolvem programas técnicos altamente sigilosos, incluindo as chamadas "ciberoperações", de forma que se recusaram a fornecer maiores detalhes.

Porém, elas citaram alguns exemplos mais antigos, agora divulgados, que sugerem que os seus esforços seguem na direção certa. George J. Tenet, o ex-diretor da Agência Central de Inteligência, escreveu na sua autobiografia que as autoridades estavam preocupadas com a possibilidade de que agentes operacionais da Al Qaeda planejassem atacar o metrô da cidade de Nova York em 2003 usando artefatos à base de cianeto.

Zawahri teria cancelado o plano porque temia que ele "não fosse suficientemente inspirador para atender às ambições da Al Qaeda", e que fosse visto como um complemento fraco, e até mesmo humilhante, dos ataques do 11 de setembro.

E em 2002, Lyman Faris, nascido na Caxemira e cidadão norte-americano naturalizado, passou a espreitar a Ponte do Brooklyn a fim de planejar um ataque. Ele comunicou-se com líderes da Al Qaeda no Paquistão por meio de mensagens codificadas, mencionando a possibilidade de usar maçaricos para cortar os cabos que sustentam a estrutura.

Mas, no início de 2003, Faris enviou uma mensagem aos seus comparsas afirmando: "O tempo está muito quente". As autoridades norte-americanas dizem que isso significava que Faris considerava improvável que o plano tivesse sucesso - aparentemente devido ao aumento das medidas de segurança.

"Nós tornamos a nossa presença no local bastante visível, e isso pode ter contribuído para que o plano fosse abortado", diz Paul J. Browne, porta-voz do Departamento de Política da Cidade de Nova York. "A dissuasão é uma parte integrante de todos os nossos esforços".

Atrapalhando os ciberprojetos
Os terroristas detêm pouco ou nenhum território, exceto na Web. "O centro de gravidade da Al Qaeda e de outros terroristas está no campo da informação, e é neste campo que devemos atacá-los", afirma Dell L. Dailey, chefe de contra-terrorismo do Departamento de Estado.

Algumas das iniciativas governamentais de contra-terrorismo mais secretas envolvem atrapalhar as ciberoperações dos terroristas. No Iraque, no Afeganistão e no Paquistão, equipes especialmente treinadas capturaram discos rígidos de computadores usados pelos terroristas e estão utilizando as ferramentas destes contra eles próprios.

"Se formos capazes de descobrir algo sobre qualquer coisa que esteja armazenada nesses discos rígidos, qualquer que possa ser a informação, podemos semear a dúvida entre eles. Para isso basta apenas enviar uma contra-mensagem referente ao que quer que eles digam que desejam ou planejam fazer", explica o general Mark O. Schissler, diretor de ciberoperações da Força Aérea dos Estados Unidos e ex-vice-diretor do departamento de antiterrorismo do Estado Maior Conjunto.

"Como os terroristas sentem-se seguros ao utilizarem a Internet para disseminar ideologia e obter recrutas, podemos ser capazes de interferir ou interromper algumas dessas operações", acrescenta Schissler.

Outros esforços norte-americanos têm como objetivo desacreditar as operações da Al Qaeda, incluindo a decisão de divulgar videoteipes apreendidos mostrando os membros da Al Qaeda da Mesopotâmia, basicamente um grupo iraquiano com alguns líderes estrangeiros, treinando crianças para seqüestrar e matar, bem como a de tornar públicos trechos de uma carta de 49 páginas, supostamente escrita por um dos líderes do grupo, que descreve a organização como sendo frágil e padecendo de moral baixa.

Dissuadindo militantes
Enquanto forças de segurança e de inteligência procuram atrapalhar as operações terroristas, especialistas em contra-terrorismo estão examinando formas de dissuadir os insurgentes de sequer cogitarem um ataque com armas não convencionais. Eles estão analisando aspectos da cultura, das famílias e da religião dos militantes, a fim de solapar a retórica dos líderes terroristas.

Por exemplo, o governo busca formas de amplificar as vozes de líderes religiosos respeitados que advertem que os homens-bomba não desfrutarão dos prazeres celestes prometidos pela literatura terrorista, e que as suas famílias serão desonradas por tais ataques. Essas tentativas têm como objetivo minar a vontade dos terroristas.

"É preciso descobrir o que dissuade o indivíduo", afirma o general John F. Sattler, diretor de políticas e planos estratégicos do Estado Maior Conjunto. "Que centro de gravidade dessa pessoa pode ser visado por nós? O objetivo é fazer com que a meta dele não seja alcançada, ou que ele fique desacreditado e desmoralizado perante o resto do mundo muçulmano ou o extremismo radical que professa".

Estão em andamento iniciativas para persuadir os muçulmanos a não apoiarem terroristas. É uma campanha delicada que as autoridades norte-americanas procuram promover e amplificar - mas sem deixar impressões digitais ianques denunciadoras que poderiam prejudicar as iniciativas dos Estados Unidos no mundo muçulmano. Autoridades de alto escalão do governo Bush citam vários fatos promissores.

O principal clérigo da Arábia Saudita, o grande mufti e xeque Abdul Aziz al-Asheik, fez um discurso em outubro do ano passado alertando os sauditas para que não participassem das atividades jihadistas não autorizadas, uma declaração dirigida principalmente àqueles que cogitavam ir para o Iraque a fim de combater as forças de ocupação norte-americanas.

E Abdul-Aziz el-Sherif, um alto líder do movimento armado egípcio Jihad Islâmica e antigo aliado de Zawahri, o segundo elemento mais importante na hierarquia da Al Qaeda, acaba de concluir a redação de um livro no qual diz renunciar à jihad violenta por motivos legais e religiosos.

Segundo diplomatas ocidentais e do Oriente Médio, tais discórdias estão servindo para ampliar as divisões entre os líderes da Al Qaeda e alguns dos seus ex-apoiadores leais.

"Muitos terroristas prezam a percepção de que há legitimidade popular e teológica nas suas ações", diz Stephen J. Hadley, assessor de segurança nacional de Bush. "Ao encorajar o debate sobre a legitimidade moral do uso de armas de destruição em massa, podemos tentar afetar o cálculo estratégico dos terroristas".

Negação de apoio
Como principal elaborador de políticas de operações especiais do Pentágono, Michael G. Vickers cria estratégias para combater o terrorismo com forças militares especializadas, bem como para conter a proliferação de armas nucleares, biológicas ou químicas.

Grande parte do planejamento dele faz parte da velha escola: como as melhores equipes de combate de elite devem capturar e matar terroristas? Mas a cada dia que passa, uma parcela maior do tempo dele é dedicada ao novo mundo da teoria da dissuasão de terroristas, tentando descobrir como prevenir ataques persuadindo as redes terroristas de apoio - formadas por aqueles que possibilitam aos terroristas operar - a recusar qualquer tipo de assistência a agentes sem pátria do extremismo.

"Obviamente os terroristas mais dedicados são os mais difíceis de neutralizar", afirma Vickers. "Mas caso possamos neutralizar a rede de apoio - recrutadores, apoiadores financeiros, fornecedores de segurança local e Estados que proporcionam abrigo -, seremos capazes de começar a obter um efeito de dissuasão sobre toda a rede terrorista e a reduzir a capacidade operacional dos terroristas".

"Nós não dissuadimos os terroristas no que se refere à intenção deles de nos infligir grande estrago", afirma Vickers. "Porém, ao restringirmos os seus meios e eliminarmos diversas ferramentas, aproximamo-nos do efeito geral de dissuasão que desejamos".

Muito esforço está sendo dedicado ao aperfeiçoamento de sistemas capazes de identificar a fonte de armas não convencionais ou os seus componentes, independentemente de onde esses armamentos sejam encontrados - e a deixar que as nações de todo o mundo saibam que os Estados Unidos contam com tal capacidade.

Bush declarou que os Estados Unidos considerarão "totalmente culpada" qualquer nação que compartilhar armas nucleares com um outro Estado ou terroristas.

O almirante William P. Loeffler, vice-diretor do Centro para Combate a Armas de Destruição em Massa no Comando Estratégico das forças armadas dos Estados Unidos, diz que a declaração de Bush significa que aqueles que possam fornecer armas ou componentes bélicos a terroristas serão considerados tão responsáveis quanto os que ordenarem e desfecharem um ataque.

"É um sistema de 'atribuição como dissuasão'", explica o almirante. UOL

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