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18/03/2008

Fidelidade é uma fantasia na maioria das espécies

The New York Times
Natalie Angier
Serge Bloch/The New York Times 

Pode-se acusar o difamado ex-governador Eliot Spitzer de muitas coisas por ter feito pouco caso da lei solicitando os serviços de uma prostituta de luxo: hipocrisia, egocentrismo, imaturidade impulsiva, auto-indulgência, fantasia imprópria e estupidez. Mas uma característica que definitivamente ficou de fora da atitude desastrosa de Spitzer, capaz de arruinar uma vida inteira, é a originalidade.

Tudo isso não é nenhuma novidade, cada detalhe risível dessa história já foi repetido não somente por poderosos homens "alfa" que gostam de correr riscos, independentemente do seu nível de testosterona. Mas isso não é privilégio dos humanos, representantes machos e fêmeas de dez mil outras espécies de todos os ramos taxonômicos da imensa árvore da vida também traem. A promiscuidade sexual corre solta na natureza, e a verdadeira fidelidade é uma fantasia ingênua. Ah, existem muitas espécies animais em que os machos e as fêmeas se unem para cuidar dos filhotes, assim como nós, e formam "casamentos" de duração impressionante e aparente afeição mútua em que passam horas reafirmando sua parceria trocando carinhos como os ratos silvestres, silvando e balbuciando canções de amor como os gibões, ou ainda dançando desajeitadamente como os atobás de pés azuis.

Mas conforme os biólogos descobriram em testes de DNA para verificar a paternidade das crias desses casais, a monogamia social é muito raramente acompanhada pela monogamia sexual ou genética. Analise os filhotes de qualquer ninhada, seja de pássaros, ratos, pequenos primatas, raposas ou qualquer outra espécie que forme casais, e os testes irão provar que entre 10 a 70% dos filhotes foram concebidos por outros pais que não o macho residente.

David P. Barash, professor de psicologia da Universidade de Washington em Seattle, resume isso em um estilo Cole Porter: os infantes têm a infância, os adultos, o adultério. Barash, que escreveu "O Mito da Monogamia" junto com sua esposa psiquiatra, Judith Eve Lipton, cita uma cena do filme "A Difícil Arte de Amar" em que o personagem de Nora Ephronesque reclama para o pai sobre os casos de seu marido, ao que o pai responde sarcasticamente que se ela quisesse fidelidade, deveria ter se casado com um cisne. Isso não teria resolvido seu problema, diz Barash: já se sabe que os cisnes também traem. Em vez disso, a heroína deveria considerar a união com um Diplozoon paradoxum, um nudibrânquio que vive nas guelras de peixes de água doce. "Machos e fêmeas se conhecem na adolescência e seus corpos literalmente se fundem, o que significa que eles permanecem fiéis até a morte", diz Barash. "É a única espécie que conheço que parece ser 100% monogâmica." Nesse caso, os únicos corações que sofrem são os dos infelizes peixes hospedeiros.

Até mesmo a "profissão mais antiga do mundo", a principal protagonista da demissão de Spitzer, é uma notícia velha entre os animais. Já foi constatado que outros seres vivos também pagam por sexo. Em um artigo para a revista Animal Behaviour (Comportamento Animal), pesquisadores da Universidade Adam Mickiewicz e da Universidade South Bohemia descreveram as relações entre os grandes picanços cinza, elegantes aves predatórias com uma capa prateada, barriga branca e rabo preto que, como 90% das espécies de pássaros, formam casais para procriar. O macho dá à sua companheira alguns presentes de noivado: roedores, lagartos, pequenos pássaros e grandes insetos que ele espeta em gravetos. Mas quando quer saciar seu desejo ardente com o sexo extracurricular, oferece à candidata a amante um lanche bem maior do que o da esposa - quanto mais rica a oferenda, descobriram os pesquisadores, maior a chance de que a fêmea aceite um caso sem compromisso.

Em outro relatório recente dos picantes anais da Animal Behaviour intitulado "Pagamento por sexo no mercado dos macacos fascicularis", Michael D. Gumert do Hiram College descreveu sua pesquisa de dois anos sobre um grupo de macacos fascicularis de rabo comprido que vive perto da pousada de ecoturismo Rimba no Parque Nacional Tanjung Puting, na Indonésia. Gumert descobriu que os machos pagam por sexo com a moeda mais importante e que compra quase tudo no mundo dos macacos: o cafuné. Ele percebeu que, enquanto as fêmeas fazem cafuné nos machos e em outras fêmeas por razões sociais e políticas - para declarar amizade ou agradar um indivíduo dominante - e as mães acariciam seus filhotes para confortá-los e limpá-los, o macho adulto só passa algum tempo catando os parasitas escondidos em uma fêmea quando espera ser recompensado com o acasalamento, ou pelo menos com uma detalhada inspeção genital. Cerca de 89% dos episódios observados de macacos-alisando-macacas "foram direcionados para fêmeas sexualmente ativas" com as quais os machos tinham a chance de cruzar, disse Gumert em uma entrevista por telefone desde Cingapura, onde trabalha na Universidade Tecnológica de Nanyang.

Sugestivamente, os machos ajustam suas carícias de uma forma nitidamente econômica, pagando um preço mais alto ou mais baixo dependendo da oferta, da qualidade da mercadoria e da competição com outros compradores. "O que me levou a pensar no cafuné como uma forma de pagamento foi ver como ele mudava de acordo com as diferentes condições do mercado", diz Gumert. "Quando havia menos fêmeas por perto, o macho acariciava por mais tempo, e quando havia muitas fêmeas, o tempo de carícias era mais curto". Os machos também acariciavam as fêmeas mais poderosas por muito mais tempo do que as fêmeas menos poderosas.

Apesar de o adultério ser lugar comum, e de os animais o praticarem avidamente quando têm oportunidade, ninguém parece aprovar esse comportamento no parceiro, e os humanos não são a única espécie que se revolta contra a traição real ou pressentida. A maioria das fêmeas dos babuínos já perdeu metade de uma orelha aqui, ou um pedaço de pele acolá, para a fúria ciumenta dos machos de tamanho e dentes bem maiores que elas. Entre os besouros, machos e fêmeas normalmente se juntam para formar uma família. Juntos eles catam esterco, rolam e moldam as preciosas bolas nas quais a fêmea deposita seus ovos fertilizados. Às vezes o macho pode tentar atrair alguma outra fêmea - mas faz isso por sua própria conta e risco. Em um experimento com besouros depois do acasalamento, a fêmea foi mantida presa nas imediações do macho, que rapidamente aproveitou a oportunidade para lançar seus feromônios para novas fêmeas. Depois de ser solta, a fêmea atacou violentamente e derrubou o macho de costas no chão. "Ela enrolou ele dentro da bola de estrume", disse Barash, "o que pareceu de fato apropriado".

No caso das territoriais salamandras de dorso vermelho, machos e fêmeas têm fortes inclinações para policiar rigidamente seus parceiros e punem os companheiros que eles acreditam terem dado uma escapadinha com ameaças de ataque, mordidas de arrancar pedaço, ou então, a sangue frio, ignoram o parceiro e recusam o compromisso. Os grandes lagartos de sofá que se cuidem: isso também pode acontecer com vocês. Eloise De Vylder

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