UOL Notícias Internacional
 

18/03/2008

Krugman: a operação de salvamento do sistema financeiro

The New York Times
Paul Krugman
Está bem, aí vai: o impensável está prestes a se tornar inevitável.

Na semana passada, Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro, e John Lipsky, autoridade do Fundo Monetário Internacional, sugeriram que os fundos públicos talvez fossem necessários para resgatar o sistema financeiro dos EUA. Lipsky insistiu que não estava falando em comprar uma saída. Mas estava.

É verdade que Henry Paulson, atual secretário do Tesouro, ainda diz que qualquer proposta de usar o dinheiro dos contribuintes para ajudar a resolver a crise é impensável. Mas isso é tão crível quanto todos os seus pronunciamentos anteriores sobre a situação financeira.

Então, esta é a questão que realmente deveríamos estar fazendo: quando os federais de fato comprarem uma saída para o sistema financeiro, o que farão para assegurar que não estarão livrando as pessoas que nos deixaram nesta bagunça?

Vamos explicar por que a operação de salvamento é inevitável.

Entre 2002 e 2007, falsas crenças do setor privado -a crença que os preços dos imóveis somente subiriam, que a inovação financeira tinha extinguido o risco, que a classificação AAA de fato significava que o investimento era seguro- levaram a uma epidemia de empréstimos podres. Enquanto isso, falsas crenças na arena política -a crença de Alan Greenspan e de seus amigos do governo Bush que o mercado está sempre certo e que a regulamentação é uma coisa sempre ruim- levaram Washington a ignorar os sinais de advertência.

Aliás, Greenspan ainda pensa assim: sem aceitar a culpa, ele continua a insistir que "a flexibilidade do mercado e a competição aberta" são "as garantias mais confiáveis contra o fracasso econômico cumulativo".

O resultado de tudo isso é que os empréstimos de risco foram uma farra financeira profana, que causaram perdas de trilhões de dólares. Grande parte dessas perdas recairá sobre instituições financeiras: bancos comerciais, bancos de investimento, fundos alavancados e assim por diante.

Muitas pessoas dizem que o governo deveria deixar as fichas caírem -que aqueles que fizeram empréstimos de risco devem simplesmente sofrer as conseqüências. Mas não vai acontecer. Quando chegar a conta, as autoridades financeiras -corretamente- não estarão dispostas a correr o risco de que as perdas nos empréstimos podres prejudiquem o sistema financeiro e levem a verdadeira economia para baixo com eles.

Considere o que aconteceu na última sexta-feira (14/3), quando o Federal Reserve correu para ajudar o Bear Stearns.

Ninguém espera que um banco de investimentos seja uma instituição de caridade, mas o Bear tem uma reputação particularmente cruel. Como nos lembra Gretchen Morgenson, do New York Times, o Bear "freqüentemente operou nas áreas cinzentas de Wall Street e com uma abordagem muito agressiva".

O Bear foi forte promotor dos empréstimos de risco mais questionáveis. Atraiu clientes para dois de seus fundos alavancados que estavam entre os primeiros a caírem na atual crise. E é um mau cidadão financeiro: a última vez que o Fed tentou conter uma crise financeira, depois do colapso do "Long Term Capital Management", em 1998, o Bear recusou-se a participar da operação de resgate.

O Bear, em outras palavras, merecia ser deixado falir -tanto pelo mérito quanto para ensinar a Wall Street a não esperar que alguém limpe sua bagunça.

O Fed, entretanto, saiu em resgate do Bear mesmo assim, temendo que o colapso de um importante banco de investimento levasse pânico aos mercados e criasse um caos na economia mais ampla. O Fed sabia que está fazendo uma coisa ruim, mas acreditava que a alternativa seria ainda pior.

Como aconteceu com o Bear, acontecerá com o resto do sistema financeiro. E se a história servir de guia, a operação de salvamento financiada pelo contribuinte terminará custando muito dinheiro.

A crise de empréstimos e poupança dos EUA dos anos 80 terminou custando aos contribuintes 3,2% do PIB, o equivalente a US$ 450 bilhões (em torno de R$ 900 bilhões) hoje. Algumas estimativas colocam o custo fiscal da limpeza pós-bolha do Japão em mais de 20% do PIB -o equivalente a US$ 3 trilhões (cerca de R$ 6 trilhões) para os EUA.

Se esses números lhe causarem um choque, realmente devem. O grande resgate está chegando. A única questão é o quão bem administrado será.

Como eu disse, a coisa importante é salvar o sistema, não as pessoas que nos deixaram nessa confusão. Isso significa retirar os acionistas das empresas falidas, fazer os detentores de bônus perderem os cabelos e tirar as "stock options" de executivos que ficaram ricos fazendo apostas.

De acordo com os últimos relatórios do domingo, o JPMorgan Chase vai comprar o Bear por uma ninharia. Essa é uma solução aceitável para este caso -mas não é um modelo para a operação de resgate muito maior que virá. Provavelmente precisaremos de algo similar ao Resolution Trust Corp., que assumiu poupanças e instituições de empréstimos falidas e vendeu os bens delas para reembolsar os contribuintes.

E precisamos disso rapidamente: as coisas estão desmoronando enquanto você lê isto. Deborah Weinberg

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