UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

Aos olhos do mundo, um Iraque reimaginado

The New York Times
Azar Nafisi*

Em Washington
O Iraque parece ter entrado na consciência do mundo principalmente graças à violência -seja dos golpes assassinos, da repressão brutal aos cidadãos iraquianos e, nas últimas três décadas, das guerras e invasões. Hoje, cinco anos após o início da invasão liderada pelos Estados Unidos, sempre que o Iraque aparece no noticiário, referências a atentados suicidas, número de mortos, aumento de tropas e terror geralmente o acompanham.

Para reverter a maré de violência no Iraque, o Ocidente precisa mudar não apenas suas posições políticas e táticas, mas sua própria percepção do Iraque e do povo iraquiano. E esta percepção não pode ser moldada pelas reivindicações dos tiranos que antes governavam o país ou pelos extremistas que atualmente tentam ganhar seu controle. Em vez disso, o Ocidente precisa olhar para as semelhanças entre suas próprias culturas e as do Iraque, e entender que os iraquianos desejam os mesmos direitos humanos básicos e liberdades que o Ocidente desfruta.

Por muitos anos outro Iraque, mais pacífico, existiu no mercado de livros na Rua Mutanabi, em Bagdá. Então, em 5 de março de 2007, o mercado de livros foi devastado por um carro-bomba. Salim Al Kushalli, que perdeu cinco irmãos na gráfica de sua família, não ficou surpreso com o ataque. "É claro que esperávamos que a Rua Mutanabi seria alvo algum dia", ele disse em uma entrevista na Rádio Pública Nacional, "porque qualquer um que atingisse a Rua Mutanabi estaria atingindo a civilização do Iraque".

Batizada em homenagem ao reverenciado poeta árabe do século 10, Abul Tayyeb, a Rua Mutanabi era um espaço democrático onde livros de aiatolás xiitas, teólogos sunitas, teóricos comunistas e escritores ocidentais conviviam lado a lado em uma espécie de república da imaginação, que transcendia as fronteiras de nacionalidade, religião e etnia. Aqui, pessoas de diferentes origens viviam em paz, e poetas, filósofos e até mesmo clérigos fundamentalistas, podiam expressar suas idéias nas páginas de livros sem retaliação. Com suas livrarias, gráficas e cafés, a Rua Mutanabi resistiu à idéia de invasão ou totalitarismo.

Se o filósofo búlgaro Tzevan Todorov estava correto ao dizer que, "apenas o esquecimento total exige desespero total", então são lugares como a Rua Mutanabi que protegem os iraquianos contra o desespero. Esses lugares também lembram ao restante do mundo que o Iraque não é representado nem por Saddam Hussein nem pelo líder xiita iraquiano e clérigo Muqtada Al Sadr, que o Iraque não pode ser definido seja por sua elite política ou por seus invasores. Outro Iraque existiu antes deles e continuará existindo na imaginação de seu povo, nos mesmos livros que foram destruídos naquele dia em março, quando uma bomba assassinou os vendedores de livros e seus clientes.

O país que atualmente chamamos de Iraque -que foi separado do Império Otomano pelos britânicos e franceses em 1921- antes fazia parte do Berço da Civilização, com uma história que remontava à antiga Mesopotâmia e Suméria. Era uma terra na qual etnias e religiões diferentes conviviam e o Islã que ostentava não era o de extremistas ideológicos, mas o da rica civilização que existiu durante os séculos 8 e 9, sob os califas Abássidas.

O passado de um país nos faz recordar que as coisas antes eram diferentes, e que há alguma promessa de que o futuro também pode ser diferente. Esta promessa antes prosperava na Rua Mutanabi.

Por que pessoas que vivem sob a ameaça de armas e bombas se importam com livros? Será que livros salvariam a mulher que caminhava pelas ruas sem o véu de ser estuprada ou morta? Será que eles salvariam seus filhos de bombas? Será que protegeriam as universidades onde estudantes e professores morreram? Salvariam as minorias étnicas e religiosas de serem assassinadas ou expulsas de seus lares?

O que a Rua Mutanabi oferecia era um senso de segurança que era tão importante quanto a segurança nacional: ela devolvia ao povo iraquiano uma dignidade que não estava impregnada em violência. Afinal, o arsenal mais importante que as democracias possuem não é militar, mas cultural. Os tiranos têm medo do tipo de percepção que permite a cada indivíduo considerar o direito à vida, liberdade e felicidade como um direito de nascença.

Eu era contrária à guerra antes de seu começo, mas isto não me impediu de sentir responsabilidade pelo que aconteceu e está acontecendo lá. Havia pessoas que apoiavam a guerra não por causa de suas afinidades com o governo americano, mas por estarem frustradas com o silêncio do mundo diante dos crimes monstruosos cometidos por Saddam Hussein: a perseguição implacável e execução de cidadãos iraquianos, o uso de armas químicas contra os curdos. Estas atrocidades ocorreram enquanto os líderes do mundo desviavam seu olhar, realizavam os negócios de costume com Saddam e o encorajavam em sua guerra contra o Irã. Apenas alguns poucos grupos de direitos humanos, ativistas, dissidentes iraquianos e jornalistas mostravam empatia para com o povo iraquiano.

Não estamos pagando agora por aquele silêncio? Esta foi a guerra errada, no momento errado e no local errado, mas a preocupação com os direitos do povo iraquiano e da minoria curda não era errada e continua válida hoje -especialmente quando eleições em um país sem instituições democráticas são celebradas como um sinal de democracia, e guerras faccionárias entre xiitas e sunitas são definidas como parte da herança cultural do povo iraquiano.

Independente de sermos contrários à guerra ou a favor dela, da retirada ou permanência das tropas americanas, nós sabemos que em uma democracia não são apenas os governos os responsáveis. Nós, o povo, também estamos envolvidos. Nosso silêncio nos implica e não nos protege da violência que acontece em outras partes do mundo. Um Iraque seguro e democrático tornará o resto do mundo um lugar mais livre e seguro.

Nós podemos ajudar os civis sitiados no Iraque ingressando em organizações que apóiem os direitos das mulheres e minorias iraquianas, fazendo lobby junto aos governos americano e iraquiano para ajudar e deslocar os refugiados iraquianos. Nós podemos ajudar reconstruindo universidades, restaurando os museus e bibliotecas, apoiando a nova instituição que foi construída quase que imediatamente após a destruição da Rua Mutanabi, a Biblioteca e Arquivo Nacional do Iraque. Por meio de nosso apoio e empatia, se tornará mais fácil responder à pergunta: para onde irá o povo iraquiano para restaurar sua dignidade confiscada, da qual ele necessita para resistir à violência que é imposta tanto pelo terror doméstico quanto pela invasão estrangeira?

Talvez para uma rua batizada segundo um poeta que viveu há mais de 1.000 anos, cujo apelido, Al Mutanabi, significava "o homem que quer ser um profeta", e que escreveu poesia tão próxima da linguagem original que se tornou intraduzível. É para onde você vai para recuperar seu orgulho; para onde você vai para se recordar e para lembrar ao mundo de que matar mulheres por não vestirem véu, assassinar uns aos outros em nome de facções islâmicas e explodir civis e ruas que levam nomes de poetas não são as únicas coisas pelas quais o mundo deve se lembrar do Iraque.

*Azar Nafisi, autora do best seller "Lendo Lolita em Teerã" e do futuro "Things I've Been Silent About", é uma professora da Universidade Johns Hopkins. Ela obteve uma bolsa de Oxford e lecionou literatura inglesa em Teerã até que a Universidade de Teerã a expulsou por se recusar a usar véu. Nafisi trocou o Irã pelos Estados Unidos em 1997 e atualmente vive em Washington, D.C. Ele escreve para o "New York Times", "The Washington Post", "The Wall Street Journal" e "The New Republic". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host