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19/03/2008

Arthur C. Clarke, o autor que viu a ficção científica tornar-se real, morre aos 90 anos

The New York Times
Gerald Jonas
Arthur C. Clarke, um escritor cuja mistura harmônica de conhecimento científico e imaginação poética contribuiu para a criação da era espacial, morreu no início da terça-feira (18/03), em Colombo, Sri Lanka, onde ele morava desde 1956. Ele tinha 90 anos de idade.

Rohan de Silva, um assessor, confirmou a morte e disse que Clarke vinha enfrentando problemas respiratórios, segundo noticiou a Associated Press. Nas últimas duas décadas ele sofreu de síndrome pós-pólio.

Autor de quase 100 livros, Clarke foi um promotor ardente da idéia de que o destino da humanidade situa-se além dos limites do planeta Terra. Tal visão foi apresentada na sua forma mais vívida em "2001: A Space Odyssey" ("2001: Uma Odisséia no Espaço", EUA/Reino Unido, 1968), o filme clássico de ficção científica que ele criou com o diretor Stanley Kubrick e no livro do mesmo título que escreveu como parte do projeto.

Edward Keating/The New York Times 
Arthur C. Clarke escreveu mais de cem livros com tradução em cerca de 40 idiomas

O seu trabalho foi quase profético: a sua previsão detalhada dos satélites de telecomunicação em 1945 foram feitas mais de uma década antes de um foguete realizar o primeiro vôo orbital.

Outros defensores antigos de um programa espacial argumentavam que tal programa se pagaria com o tempo ao gerar novas tecnologias. Mas Clarke enxergava mais longe. Tomando emprestada uma frase de William James, ele sugeriu que a exploração do sistema solar poderia servir como o "equivalente moral da guerra", dando vazão a energias que de outra forma levariam a um holocausto nuclear.

A influência de Clarke sobre a percepção popular em relação ao espaço foi reconhecida por astronautas norte-americanos e cosmonautas russos, por cientistas como o astrônomo Carl Sagan e por produtores de filmes de cinema e programa de televisão. Gene Roddenberry afirmou que foi a obra de Clarke que lhe deu a coragem para realizar o seu projeto "Star Trek" ("Jornada nas Estrelas") face à indiferença, e até mesmo à zombaria, dos executivos da televisão.

Nos seus últimos anos, após estabelecer-se no Ceilão (o atual Sri Lanka), Clarke continuou a gozar de aclamação mundial, tanto como sábio científico quanto como o preeminente escritor de ficção científica do século 20. Em 1998, ele foi sagrado cavaleiro pela rainha Elizabeth 2ª.

Clarke minimizou o seu sucesso em prever a criação de uma rede global de satélites de comunicação. "Ninguém é capaz de prever o futuro", ele sempre afirmou. Mas como escritor de ficção científica ele não conseguia resistir ao desejo de traçar escalas de tempo para aquilo que chamava de "futuros possíveis".

Longe de revelar uma presciência misteriosa, essas conjecturas demonstravam principalmente um otimismo de toda uma vida (otimismo muitas vezes frustrado) quanto aos usos pacíficos da tecnologia - desde o seu cálculo, em 1945, de que o surgimento de foguetes movidos a combustível atômico não poderia demorar mais do que 20 anos, até a sua convicção, expressa em 1999, de que "energia limpa e segura" proveniente da "fusão nuclear fria" estaria comercialmente disponível nos primeiros anos do novo milênio.

Clarke tinha bastante consciência da importância do seu papel como porta-voz da ciência para a população em geral: "A maioria das realizações científicas foi precedida por pessoas que as imaginaram e escreveram sobre elas. Tenho certeza de que não teríamos seres humanos na Lua se não fosse por H.G. Wells e Julio Verne. Tenho muito orgulho do fato de conhecer vários astronautas que se tornaram astronautas devido à leitura dos meus livros".

Arthur Charles Clarke nasceu em 16 de dezembro de 1917 na pequena cidade costeira de Minehead, em Somerset, na Inglaterra. O seu pai era fazendeiro e a mãe telegrafista de uma agência de correio. O mais velho dos quatro filhos do casal, ele foi aluno com bolsa de estudos em uma escola secundária na cidade vizinha de Taunton. Ele recordava-se de várias passagens da sua infância que despertaram a sua imaginação científica: passeios exploratórios ao longo da costa de Somerset, com a sua "terra mágica de piscinas de pedra"; uma carteira de cigarros que o seu pai lhe mostrou, que trazia o desenho de um dinossauro; e um conjunto Meccano que ganhou de presente, um brinquedo de construção britânico similar ao American Erector.

Clarke disse que também dedicava seu tempo a "mapear a Lua" por meio de um telescópio construído por ele próprio com "um tubo de papelão e duas lentes". Mas o fato mais significativo da sua infância foi a descoberta, aos 13 anos de idade - no ano em que o seu pai morreu - de uma cópia de "Astounding Stories of Super-Science", à época a principal revista norte-americana de ficção científica. Ele achou essa mistura infantil de aventura e exagero científico (e às vezes farsas científicas) encantadora.

Enquanto estava ainda na escola, Clarke ingressou na recém-criada Sociedade Interplanetária Britânica, um pequeno grupo de entusiastas da ficção científica que defendiam a idéia controversa de que as viagens espaciais não só eram possíveis, como também seriam realizadas em um futuro não muito distante. Em 1937, um ano após mudar-se para Londres para assumir um emprego no serviço público, ele começou a escrever o seu primeiro livro de ficção científica, uma história passada no futuro muito distante, e que mais tarde foi publicada com o título "Against the Fall of Night" ("Contra a Sombra da Noite"), em 1953.

Clarke passou a Segunda Guerra Mundial como oficial da Royal Air Force (RAF). Em 1943 ele foi designado para trabalhar com uma equipe de cientistas e engenheiros norte-americanos que desenvolveu o primeiro sistema controlado por radar para a aterrissagem de aviões em mau tempo. Essa experiência levou Clarke a escrever o seu único livro de ficção não científica, "Glide Path" (1963).

E, mais importante, ela fez com que ele escrevesse um tratado técnico em 1945, publicado no periódico britânico "Wireless World", sobre a possibilidade de utilização de satélites artificiais como estações retransmissoras para comunicações na Terra.

A parte mais significativa do trabalho foi uma série de diagramas e equações demonstrando que "estações espaciais" estacionadas em uma órbita circular cerca de 35.780 quilômetros sobre o Equador acompanhariam exatamente o período de rotação da Terra, que é de 24 horas. Em tal órbita, um satélite permaneceria sobre o mesmo ponto em relação à Terra, transformando-se em um alvo "estacionário" para sinais transmitidos, que poderiam a seguir ser retransmitidos para vastos territórios do planeta. Esta órbita, chamada de geoestacionária, foi oficialmente denominada Órbita Clarke pela União Astronômica Internacional.

Décadas depois, Clarke disse a respeito do trabalho que escreveu para a "Wireless World": "Foi a coisa mais importante que escrevi na vida". Em artigo irônico intitulado "A Short Pre-History of Comsats, Or: How I Lost a Billion Dollars in My Spare Time" ("Uma Pequena Pré-história dos Satélites de Comunicação, ou: Como Perdi Um Bilhão de Dólares no Meu Tempo Vago"), ele alegou que um advogado o dissuadiu de tentar obter a patente da idéia. Segundo ele, o advogado achou que o conceito de transmissão de sinais a partir do espaço era muito ousado para ser levado a sério.

Mas Clarke também admitiu que nada no seu trabalho - da idéia dos satélites artificiais às fórmulas matemáticas da órbita geoestacionária - era novo. A sua maior contribuição foi esclarecer e publicar uma idéia cuja época estava quase chegando: foi um feito em termos de conscientização, um terreno no qual ele continuaria a brilhar no decorrer da sua carreira.

O ano de 1945 também foi aquele no qual teve início a carreira de Clarke como escritor de ficção. Ele vendeu um conto chamado "Rescue Party" ("Grupo de Resgate") para a mesma revista - cujo nome havia mudado para "Astounding Science Fiction" - que havia capturado a sua imaginação 15 anos antes.

Durante os dois anos seguintes Clarke freqüentou o King's College, em Londres, contando com a equivalente britânica da bolsa de estudos GI Bill (bolsa de estudos concedida pelo governo dos Estados Unidos para os veteranos da Segunda Guerra Mundial), tendo se formado em 1948, com mérito, em física e matemática. Mas ele continuou escrevendo e vendendo histórias, e após um curto período como editor-assistente do periódico científico "Physics Abstracts", decidiu que era capaz de se sustentar como escritor freelance. O sucesso veio rapidamente. A sua estréia na área dos vôos espaciais, o livro "The Exploration of Space" ("A Exploração do Espaço"), foi selecionado em 1951 como um dos ganhadores do prêmio American Book-of-the-Month Club.

No decorrer das duas décadas seguintes, ele escreveu uma série de best sellers de não ficção, bem como os seus livros mais conhecidos, incluindo "Childhood's End" ("O Fim da Infância"), em 1953, e "2001: A Space Odyssey" ("2001: Uma Odisséia no Espaço"), em 1968. Para um escritor com formação científica cujo otimismo em relação à tecnologia parecia ilimitado, Clarke adorava fazer com que os seus personagens confrontassem-se com obstáculos impossíveis de serem superados sem o auxílio de forças que estavam além da compreensão deles.

Em "Childhood's End", uma raça de alienígenas que por acaso lembravam demônios, impôs a paz em uma Terra dividida pelas tensões da Guerra Fria. Em um final que é ao mesmo tempo dolorosamente pungente e literalmente demolidor, Clarke sugere que a humanidade só pode escapar das suas tendências suicidas deixando de ser humana.

"Nada restou da Terra", escreveu ele. "Ela os tinha nutrido, durante os momentos ferozes da inconcebível metamorfose dos humanos, assim como o alimento armazenado em um grão de trigo alimenta a planta recém-nascida enquanto esta se ergue em direção ao Sol".

A Guerra Fria também compõe o pano de fundo de "2001". A sua gênese foi um conto chamado "The Sentinel" ("A Sentinela"), publicado pela primeira vez em uma revista de ficção científica em 1951. Ele fala de um artefato alienígena encontrado na Lua, uma pequena pirâmide cristalina que os exploradores da Terra destroem ao tentarem abri-la. Um dos exploradores percebe que o artefato era uma espécie de sinalizador para a eventualidade de mau funcionamento. Ao silenciá-lo, os seres humanos indicaram a sua existência aos distantes criadores da máquina.

Na primavera de 1964, Stanley Kubrick, que acabava de triunfar com o seu filme "Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb", ("Doutor Fantástico", Reino Unido, 1964), conheceu Clarke em Nova York, e os dois concordarem em fazer o "proverbial filme de ficção científica verdadeiramente bom", baseado em "The Sentinel". Isso levou a uma colaboração de quatro anos. Clarke escreveu o livro e Kubrick produziu e dirigiu o filme. Ele conta com crédito conjunto no roteiro.

Muitos críticos ficaram desconcertados com o filme, especialmente com a cena final na qual um astronauta que foi transformado por alienígenas retorna à Terra como uma "Criança-Estrela". No livro o astronauta demonstra os seus novos poderes detonando do espaço todo o arsenal de armas nucleares soviéticas e norte-americanas. Assim como em grande parte do roteiro, esta conclusão não ficou clara no filme, do qual Kubrick cortou a maior parte do material explicativo.

Como escritor de ficção, Clarke foi muitas vezes criticado por não ter criado personagens integralmente concretizados. HAL, o amotinado computador em "2001", é provavelmente a sua criação mais "humana": um ser satisfeito consigo mesmo e que sabe tudo, com um toque de fé equivocada na sua própria infalibilidade.

Se os heróis de Clarke não são exatamente memoráveis, também é verdade que não existem vilões totais na sua obra. Os seus personagens estão geralmente demasiadamente ocupados lutando para encontrar um sentido em um universo implacável para que possam se meter em esquemas mesquinhos de dominação ou vingança.

O relacionamento do próprio Clarke com as máquinas era meio ambivalente. Embora tivesse tirado uma carteira de habilitação quando jovem, ele jamais dirigiu um carro. Mas Clarke mantinha contato com o resto do mundo da sua casa no Sri Lanka por meio de uma coleção cada vez maior de computadores atualizados e acessórios de comunicação. E até a sua saúde declinar, ele foi um expert em mergulho autônomo nas águas do Sri Lanka.

Ele interessou-se pela primeira vez pelo mergulho no início da década de 1950, quando descobriu que no ambiente subaquático era capaz de encontrar algo muito próximo à imponderabilidade do espaço sideral. Clarke estabeleceu-se permanentemente em Colombo, a capital daquele que à época era o Ceilão, em 1956. Com um parceiro, ele criou um serviço de mergulhos com guias para turistas e escreveu vividamente a respeito das suas experiências subaquáticas em diversos livros, começando com "The Coast of Coral" ("A Costa de Coral"), de 1956.

Ao todo, ele escreveu sozinho ou como colaborador quase 100 livros, alguns dos quais, como "Childhood's End", nunca saíram de edição. Os seus trabalhos foram traduzidos para cerca de 40 idiomas, e as vendas em todo o mundo totalizaram um valor estimado em mais de US$ 25 milhões.

Em 1962 ele sofreu um ataque grave de poliomielite. A sua recuperação aparentemente total foi marcada por um retorno à melhor forma no seu esporte favorito, o tênis de mesa. Mas em 1984 ele desenvolveu a síndrome pós-pólio, uma doença que piora gradualmente, caracterizada pela fraqueza muscular e extrema fadiga. Clarke passou os seus últimos anos de vida em uma cadeira de rodas.

Entre os seus legados estão as Três Leis de Clarke, observações provocantes a respeito da ciência, da ficção científica e da sociedade, que foram publicadas em "Profiles of the Future" ("Perfil do Futuro"), em 1962:

- Quando um cientista ilustre, mas idoso, afirma que algo é possível, é praticamente certo que ele tenha razão. Quando ele afirma que algo é impossível, ele provavelmente está errado".

- "A única maneira de descobrir os limites do possível é aventurar-se um pouco além desses limites, adentrando no impossível".

- "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica".

Assim como Verne e Wells, Clarke afirmou que as suas maiores influências como escritor foram Lord Dunsany, um autor de obras de fantasia conhecido pela sua prosa lírica, e às vezes talvez exagerada; Otto Stapledon, um filósofo britânico que escreveu narrativas altamente especulativas que projetavam a evolução humana para os limites mais distantes do espaço e do tempo; e "Moby Dick", de Herman Melville.

Embora compartilhasse as suas paixões pelo espaço e pelo oceano com os seus leitores de todo o mundo, Clarke mantinha a sua vida emocional em caráter privado. Ele foi casado brevemente em 1953 com uma norte-americana entusiasta do mergulho chamada Marilyn Mayfield. Eles separam-se poucos meses depois de casados, e divorciaram-se em 1964, sem que tivessem filhos.

Um dos seus relacionamentos mais próximos foi com Leslie Ekanayake, um companheiro de mergulhos no Sri Lanka, que morreu em um acidente de motocicleta em 1977. Clarke dividia a sua casa em Colombo com o amigo Hector, o seu parceiro na firma de mergulho, com a mulher de Hector, Valerie, e com as três filhas do casal.

Clarke divertia-se com a fama. Um aposento inteiro da sua casa - ao qual ele se referia como a Câmara do Ego - era cheio de fotografias e outras lembranças da sua carreira, incluindo fotos dele com Yuri Gagarin, o primeiro homem a ir ao espaço, e Neil Armstrong, o primeiro a caminhar na Lua.

A reputação de Clarke como um profeta da era espacial se baseia em mais coisas do que simplesmente em umas poucas previsões acuradas. As suas idéias ajudaram a criar o futuro que ele ansiava por ver. As suas contribuições para o programa espacial foram elogiadas por Charles Kohlhase, que planejou a missão Cassini da Nasa a Saturno, e que disse a respeito de Clarke: "Quando um indivíduo sonha com aquilo que é possível, e acrescenta a isso um conhecimento de física, ele faz a coisa acontecer".

Na época da sua morte ele estava trabalhando em mais um livro, "The Last Theorem" ("O Último Teorema"), segundo anunciou a Agence France-Presse. "'The Last Theorem' tem demorado mais do que eu esperava. Este pode muito bem ser o meu último livro, mas eu já disse isso antes", afirmou Clarke, segundo a agência de notícias. UOL

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