UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

China aumenta suas acusações contra o Dalai Lama

The New York Times
Jim Yardley e Somini Sengupta*

Em Pequim
A China pediu na terça-feira por uma investigação internacional do Dalai Lama, o acusando de ser o mentor dos violentos protestos tibetanos que se espalham pela China, mas o líder religioso tibetano negou as acusações e convidou observadores a realizarem uma busca em seu escritório.

O Dalai Lama disse que permanece comprometido apenas com manifestações não-violentas e condenou a violência resultante dos protestos tibetanos. Ele disse que a violência era "suicida" para a causa tibetana e ameaçou renunciar ao seu posto político de líder do governo no exílio do Tibete "se as coisas saírem de controle".

A linguagem mais dura da China contra o Dalai Lama ocorreu em um dia em que tanto o ministro das Relações Exteriores da França quanto o presidente do Parlamento Europeu levantaram a possibilidade de boicotarem a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em agosto, se não os jogos. Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional, disse que nenhum governo pediu um boicote.

Brian Sokol/The New York Times 
Tibetanos carregam retrato do Dalai Lama em campo de refugiados em Katmandu, Nepal

Enquanto isso, soldados chineses e a polícia militar continuavam ingressando no Tibete e nas regiões tibetanas em outras províncias do oeste da China. Testemunhas descreveram barreiras militares nas estradas, e tropas de choque patrulhavam as cidades onde ocorreram protestos ou violência nos últimos dias.

Em Lhasa, a capital tibetana, que explodiu em tumultos na sexta-feira, as agências de notícias informavam que a maioria das lojas e escolas no setor chinês da cidade reabriu, enquanto as autoridades mantinham o velho setor tibetano da cidade sob forte segurança.

Relatos continuaram surgindo de mais violência e protestos. Os simpatizantes tibetanos disseram que confrontos ocorreram em dois locais na província de Sichuan, onde quatro tibetanos morreram. Os relatos não puderam ser corroborados.

Por dias, as autoridades chinesas e defensores tibetanos oferecem estimativas altamente conflitantes do número de mortos nos protestos, sem fornecer provas. As autoridades chinesas disseram que os tibetanos mataram brutalmente 13 civis inocentes em Lhasa. O governador do Tibete também disse que a polícia paramilitar chinesa e outros agentes de segurança em Lhasa não estavam armados com armas letais e não mataram nenhum manifestante.

Mas na terça-feira, um porta-voz do governo no exílio do Tibete disse que confirmou 99 mortes, incluindo 80 em Lhasa, em confrontos com os agentes de segurança chineses.

Grupos de defesa pró-Tibete também divulgaram fotos de corpos nus e ensangüentados, que disseram ser de manifestantes tibetanos que foram mortos pelos agentes de segurança chineses no Condado de Aba, também conhecido como Ngawa, uma região tibetana da província de Sichuan. Estas alegações também não puderam ser corroboradas de forma independente.

Mas um morador de Aba, que foi entrevistado por telefone, confirmou que as autoridades locais queriam esconder algo. "Na última sexta-feira, nós recebemos um arquivo confidencial do governo que nos dizia, 'se qualquer um de fora perguntar o que aconteceu em Aba, você deve dizer que não há nada anormal; Aba agora está tranqüila'", disse o morador.

Enquanto isso, a revolta popular e o ressentimento corriam pela Internet chinesa. Muitas pessoas expressavam ultraje com o fato das simpatias ocidentais parecerem inclinadas em prol da causa tibetana, apesar da violência cometida contra os cidadãos chineses em Lhasa. Estes sentimentos também foram manifestados nos veículos de mídia estatais da China.

"Há fortes pedidos do exterior para que o governo chinês exerça 'moderação' ao lidar com a violência no Tibete", escreveu o "China Daily", o jornal oficial em língua inglesa. "Mas as vozes, de forma intencional ou não, permanecem quase silenciosas em relação aos atos violentos que atingiram partes de Lhasa."

Autoridades de propaganda estavam controlando rigidamente a cobertura doméstica da mídia, ao mesmo tempo que prosseguiam censurando o serviço de Internet e periodicamente bloqueando as transmissões da "CNN" ou da "BBC". A televisão estatal chinesa, a "CCTV", exibia reportagens em Lhasa enfatizando as vítimas chinesas da fúria tibetana.

O primeiro-ministro Wen Jiabao iniciou o dia atacando o Dalai Lama durante sua coletiva de imprensa anual ao término do Congresso Nacional do Povo. Ele disse que "amplos fatos e abundância de evidências" provam que os protestos foram "organizados, premeditados, planejados e incitados pelo grupo do Dalai".

Wen também defendeu a resposta da China em Lhasa, não oferecendo simpatia aos manifestantes tibetanos. "Eles fizeram uso de meios extremamente cruéis", ele disse. "Este incidente causou uma grande perda de vidas e de propriedades em Lhasa."

Mais tarde, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores endureceu a posição da China ao pedir por uma investigação sobre se o Dalai Lama incitou os protestos.

"O que a comunidade internacional deveria se perguntar é precisamente qual foi o papel e função que ele exerceu neste sério incidente de violência criminosa envolvendo combate, depredação, saques e incêndios", disse o porta-voz, Qin Gang. "Aquele que deveria ser julgado e investigado é o próprio Dalai Lama."

Em Dharamsala, Índia, o lar do governo no exílio do Tibete, o Dalai Lama tentou ocupar a posição moral superior e ao mesmo tempo alfinetar as aspirações mais importantes da China, quando cumprimentou Pequim por ter atingido três das quatro condições para ser uma "superpotência". Ele disse que a China conta com a maior população do mundo, com capacidade militar e uma economia que se desenvolve rapidamente.

"A quarta, a autoridade moral, esta deixa a desejar", ele disse aos repórteres, então pela segunda vez em dois dias acusou as autoridades chinesas de um "governo de terror" no Tibete.

Mas o Dalai Lama também fez gestos conciliatórios. Ele condenou a queima de bandeiras chinesas e os ataques contra propriedades chinesas por parte dos manifestantes tibetanos. Ele disse que planejava se encontrar na quarta-feira, na Índia, com um grupo de tibetanos que prometeu marchar 1.450 quilômetros, de Dharamsala até Lhasa. Ele disse que comunicaria suas "reservas" em relação ao esforço.

Esta não foi a primeira vez que o Dalai Lama ameaçou renunciar caso os tibetanos recorressem à violência. Seus assessores posteriormente esclareceram que mesmo se ele entregar sua posição como chefe do governo no exílio, seu posto como líder espiritual do budismo tibetano não seria alterado.

*Reportagem de Jim Yardley, em Pequim, e Somini Sengupta, em Dharamsala. David Lague, em Pequim, contribuiu com reportagem adicional. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,59
    3,276
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,54
    61.673,49
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host