UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

Guerra do Iraque prova que somos incapazes de resolver conflitos pelo diálogo

The New York Times
Jorge Ramos*
"Há forma de libertar os seres humanos do destino da guerra?"

Não, esta pergunta não foi feita por uma das milhões de pessoas que atualmente são contrárias à guerra no Iraque, que neste mês completará seu quinto aniversário.

Ela foi feita em uma carta de 1932 escrita por Albert Einstein, o físico americano nascido na Alemanha, para Sigmund Freud, o psiquiatra austríaco que fundou a psicanálise. A carta foi escrita enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda fermentava.

Freud respondeu que "seria apenas possível evitar as guerras com certeza se os seres humanos chegassem a um acordo para criar um poder central, ao qual seria dada a responsabilidade de solucionar todos os conflitos de interesse".

Mas nem a Liga das Nações, criada em 1919, nem sua sucessora, a Organização das Nações Unidas, que foi formada em 1945, foram capazes de impedir todas as guerras. Mais do que um "poder central", como Freud previa, a ONU reflete apenas a vontade de seus membros, e uma postura belicosa predomina em muitos deles.

Todavia, Freud também acreditava que para acabar com todas as guerras "uma postura cultural (antiguerra) e um temor bem fundamentado das conseqüências de uma futura guerra, seriam necessários".

Nós precisamos reconhecer o fato de que antes do início da Guerra no Iraque não havia uma postura cultural antiguerra. Pelo contrário, havia o desejo de atacar antes mesmo de descobrir se o adversário realmente possuía armas de destruição em massa. Não foi permitido aos inspetores internacionais que concluíssem seu trabalho. E apesar dos Estados Unidos não terem obtido o número necessário de votos no Conselho de Segurança da ONU, em 2003, para aprovação da guerra, o presidente George W. Bush foi em frente e deu a ordem para atacar. O que prevalecia na época era uma cultura de guerra.

Como então explicar para uma criança que não de deve bater em outro menino, quando ela vê na TV e na Internet que adultos usam de violência e guerra para resolver seus problemas? A guerra é aprendida em casa. Quando diálogo e tolerância são substituídos por um soco, uma surra ou um tapa na cara em casa, nós estamos criando futuros promotores da guerra e da agressão.

Mas se não é possível incutir uma postura antiguerra em uma geração, pelo menos é possível -como Freud sugeriu- gerar horror e medo da guerra. E é aí que entra o papel dos jornalistas.

A Guerra do Golfo Pérsico de 1991 foi a primeira a ser coberta ao vivo pela televisão. Eu ainda me lembro dos repórteres da "CNN" descrevendo as primeiras bombas americanas caindo em Bagdá. O exército iraquiano que invadiu o Kuwait foi forçado a se retirar e foi derrotado em meras 100 horas.

Mas o público na TV nunca viu os corpos mutilados ou o sangue. Em vez disso, ele viu alguns vídeos filmados de uma grande altitude de bombas explodindo a distância. As imagens lembravam videogames aos jovens. Foi a primeira guerra "asséptica". As pilhas de soldados e civis mortos em decomposição, que eu testemunhei como jornalista na cidade do Kuwait, não foram vistas pelos espectadores de TV ao redor do mundo.

Atualmente também estão tentando "limpar" a guerra no Iraque, apesar de quase 4 mil soldados americanos e mais de 81 mil civis iraquianos já terem morrido (segundo dados da www.iraqbodycount.org).

Nós quase nunca vemos mortos ou feridos na mídia. Vários governos proíbem que cadáveres ou caixões de soldados mortos na guerra sejam filmados. Isto em respeito às famílias dos mortos, insistem as autoridades, e para evitar uma queda do moral das tropas.

Mas isto mantém o público ignorante da brutalidade da Guerra no Iraque. Nós apenas vemos as notícias esterilizadas que permitem que a matança continue. Eu acho que se pudéssemos ver, um dia após o outro, como um corpo é despedaçado após um ataque suicida ou uma explosão de bomba de estrada, a guerra no Iraque teria acabado há muito tempo. Toda criança morta, todo inocente ferido, seria uma apunhalada na consciência daqueles que continuam obstruindo a possibilidade de um acordo de paz real e a retirada de nossas tropas do Iraque.

A guerra é brutal. Como deveria ser a cobertura da guerra pela imprensa. Ela deveria -se fôssemos seguir o conselho de Freud- deixar o espectador nauseado. Ela deveria revirar as entranhas do espectador até ele ser forçado a desligar a TV e ter os piores pesadelos. Ela deveria nos incomodar tanto a ponto de finalmente gritarmos: Basta!

Nós jornalistas somos duplamente culpados por permitir a evolução da guerra no Iraque. Primeiro, por não termos feito as perguntas difíceis, desconfortáveis, para aqueles que iniciaram a guerra contra um país que não atacou os Estados Unidos e nem esteve envolvido nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. E agora, por não mostrarmos ao público a selvageria monstruosa da guerra.

Todos os sinais são de que a guerra no Iraque continuará pelo menos até que Bush deixe o governo em 20 de janeiro de 2009. Depois disso, quem sabe? Mas o que está muito claro agora é que nossas preocupações em como colocar um fim aos conflitos armados são as mesmas que as de Einstein e Freud durante o período entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial.

Cerca de 76 anos após aquela troca de cartas, nós não aprendemos muito. A Guerra no Iraque é uma confirmação absoluta de que fomos reprovados, de que não somos capazes de resolver nossos conflitos por meio de diálogo e diplomacia. A guerra representa o fracasso total.

* Jorge Ramos, um jornalista ganhador do prêmio Emmy e autor, é o principal âncora de noticiário da Univision Network, o programa de notícias de língua espanhola mais assistido nos Estados Unidos. Ramos, nascido no México, é autor de seis livros best seller, incluindo "La Otra Cara de America", "Atravesando Fronteras", "La Ola Latina", "Morir en el Intento" e recentemente "El Regalo del Tiempo". Ele foi listado como um dos 25 latinos mais influentes nos Estados Unidos pela revista "Time". George El Khouri Andolfato

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