UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

Índia busca o equilíbrio entre o atendimento aos refugiados e as relações com a China

The New York Times
Somini Sengupta

Em Dharamsala, Índia
O Dalai Lama pediu na terça-feira aos seus jovens e impacientes seguidores daqui que evitassem incomodar seus anfitriões indianos e disse que pediria aos organizadores de uma marcha proposta daqui até Lhasa, a capital tibetana, que reconsiderassem seus esforços.

Ele criticou: "Na fronteira, alguns entrarem em choque com os soldados chineses, de que adianta isso?"

Alguns dos grupos de exilados mais jovens defendem a independência do Tibete, se desviando abertamente do "caminho do meio" do Dalai Lama de maior autonomia, mas não de secessão da China. Na terça-feira, em meio aos muitos protestos ao longo do dia, alguns deles queimaram bandeiras chinesas.

Money Sharma/EFE - 18.mar.2008 
Ativista tibetano grita do interior de ônibus após ser detido em Nova Déli, na Índia

A dissidência dentro da comunidade de refugiados tibetanos reflete sua posição desajeitada como hóspedes da Índia, um país que há muito tenta encontrar o equilíbrio delicado entre manter boas relações com a China, sua poderosa vizinha, e permitir que o Dalai Lama e seus seguidores, que estão baseados aqui, mantenham sua causa viva. A explosão da crise tibetana tornou este ato de equilibrismo ainda mais difícil de manter.

A Índia abriga a maior população de refugiados tibetanos no mundo, atualmente cerca de 100 mil pessoas, mas condicionou a permanência dos refugiados à promessa de que não realizariam atividades antichinesas em solo indiano. As duas potências mundiais em ascensão buscam melhorar suas relações após décadas de desconfiança provocada por uma breve guerra na fronteira, em 1962.

Mas as prioridades conflitantes da Índia resultaram em respostas aparentemente contraditórias à crise atual.

Na semana passada, centenas de refugiados tibetanos iniciaram uma marcha de seis meses daqui até o Tibete para protestar contra a realização dos Jogos Olímpicos na China, em agosto. A polícia indiana prendeu um grupo de participantes da marcha, mas permitiu que uma segunda prosseguisse, a cerca de 145 quilômetros daqui; não se sabe quão mais serão autorizados a prosseguir.

Uma autoridade indiana disse que o governo expressou preocupação junto ao Dalai Lama sobre a perspectiva dos refugiados tibetanos violarem a lei indiana. A pedido de Pequim, o governo indiano aumentou a segurança do lado de fora das missões chinesas.

A Índia, que enfrenta uma série de movimentos separatistas próprios, incluindo um na disputada província da Caxemira, nunca apoiou a independência tibetana. Quando o primeiro-ministro Manmohan Singh visitou Pequim em janeiro, o Tibete nem mesmo foi mencionado na declaração conjunta emitida pelos dois países.

Mas em uma concessão à importância do Dalai Lama, a mais alta autoridade diplomática da Índia o procurou para informá-lo sobre a viagem de Singh.

A Índia também forneceu segurança ao Dalai Lama, como um convidado do governo, e permitiu que a comunidade de exilados destacasse os abusos chineses no Tibete. Não distante da residência do Dalai Lama aqui se encontra um museu da luta tibetana, com fotos de combatentes tibetanos nos anos 50 e depoimentos daqueles que foram torturados pelas forças chinesas nos anos 80.

"A posição da Índia sempre foi a de não permitir que a posição dos refugiados se tornasse uma questão entre Nova Déli e Pequim", disse Salman Haidar, um ex-emissário indiano para a China. "As relações entre a Índia e a China podem ser boas ou ruins, mas não são determinadas pelo Tibete."

A questão do Tibete já está fervendo na política doméstica. Políticos de oposição do Partido Bharatiya Janata, ou BJP, se retiraram do Parlamento nesta semana, dizendo que o governo fracassou em condenar a repressão chinesa no Tibete. O Ministério das Relações Exteriores disse apenas estar "incomodado" com a violência e pediu para ambos os lados "removerem as causas de tamanho problema".

Ram Jethmalani, um advogado e ministro da Justiça em um antigo governo do BJP, chamou a posição do atual governo de "vergonhosa".

"Nós deveríamos ser a consciência do mundo", ele disse. "Mas aqui não temos a coragem moral de falar a verdade."

O Dalai Lama disse no domingo que a Índia fez os "máximos" esforços como anfitriã, mas que enfrenta certas limitações ao permitir a atividade política dos tibetanos.

Tão logo ele terminou de falar, os manifestantes do lado de fora do portão de sua residência incendiaram as primeiras bandeiras chinesas, gritando "Morte a Hu Jintao", o presidente chinês. Foi um dos vários protestos quase ininterruptos ao longo do dia.

O Dalai Lama também reconheceu que seu "caminho do meio" não conseguiu nenhum ganho concreto dentro do Tibete, mas desdenhou a conversa sobre qualquer outro caminho como não sendo prático. O pedido por independência, ele argumentou, representaria a perda do apoio de países como a Índia e os Estados Unidos. Ele chamou a violência de "suicida".

"Nos últimos dias eu tive uma sensação, um tigre, de um jovem cervo nas mãos de um tigre", ele disse. "O cervo pode realmente combater o tigre? Ele pode se expressar. Mas realmente lutar? Nossa única arma, única força, é a justiça, a verdade. Mas o efeito da verdade, da justiça, às vezes leva mais tempo." George El Khouri Andolfato

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