UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

Metas compartilhadas: o Irã, os EUA e um Iraque estável

The New York Times
Selig S. Harrison*
Em Washington
Da perspectiva do Irã, a crise nuclear terminou, e o Iraque agora se tornou o ponto mais perigoso de potencial conflito com os EUA.

Em uma visita há duas semanas, encontrei Teerã revoltada com o que vê como uma nova estratégia americana de "dividir para governar", formulada para tornar o Iraque um protetorado americano permanente.

No papel, os EUA continuam a apoiar o governo xiita iraniano do primeiro-ministro Nuri Kamal Al Maliki, que foi democraticamente eleito no início de 2005. No entanto, aos olhos iranianos, o general David Petraeus está cercando cada vez mais Al Maliki, montando milícias sunitas sob controle americano.

Neste final de semana, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, viajará para Bagdá -na primeira visita de um presidente da República Islâmica. Assessores de alto nível do governo no Irã disseram que o principal propósito da visita de Ahmadinejad a Bagdá é discutir com Al Maliki e o presidente do Iraque, Jalal Talabani, uma resposta coordenada para mudar a estratégia americana pró-sunita.

A segurança de Ahmadinejad será fornecida por trinta guarda-costas iranianos e um contingente de polícia iraquiano. Ele insistiu que nenhum americano estivesse envolvido em sua proteção.

Até agora, o Irã tem ajudado ativamente os EUA a estabilizarem o Iraque, após o reforço das tropas americanas, reduzindo seu envio de armas para milícias xiitas, inclusive o exército Mahdi de Moktada Al Sadr, que determinou um cessar-fogo em agosto último sob pressão do Irã e o renovou por outros seis meses. A mensagem, entretanto, foi clara: a não ser que Petraeus corte drasticamente as milícias sunitas, Teerã vai liberar as milícias contra as forças americanas novamente e aumentar a ajuda ao serviço de inteligência de Al Maliki, o Ministério de Segurança Nacional. Os EUA criaram uma agência rival, o Serviço de Inteligência Nacional.

As milícias sunitas patrocinadas pelos EUA até agora têm 90.000 combatentes equipados que recebem US$ 300 (cerca de R$ 600) por mês. São chamadas de forma eufemística de "o despertar sunita". As milícias impõem um desafio crescente ao domínio do exército oficial de Al Maliki, com sua força autorizada de 186.000 homens. Abdul Aziz Al Hakim, principal líder xiita apoiando Al Maliki, reclamou repetidamente que "as armas devem estar nas mãos do governo apenas, e apenas o governo deve decidir quem as recebe. A alternativa será uma guerra civil perpétua".

Mahmood Vaezi, diretor do Centro de Pesquisa Estratégica do governo iraniano, chefiado pelo ex-presidente moderado Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, adverte que "será impossível para nós cooperar na estabilização do Iraque se isso continuar. Os EUA devem respeitar os resultados da eleição e deixar a maioria lidar com a minoria de seu jeito. Por favor, fiquem de fora. Se mudarem o poder para sunitas, então alguns grupos xiitas dirão: 'Se pudermos ter mais poder adotando táticas terroristas, por que não?'"

Será que o governo Bush é tão inocente quanto parece quando pede piedosamente para que Al Maliki inclua milícias sunitas em suas forças armadas e na polícia em nome de um Iraque etnicamente unificado, acima das divisões sectárias? Ou será que estava deliberadamente jogando o jogo duplo percebido por Teerã?

Há seis meses, depois de uma visita ao Iraque, o correspondente da "New Yorker" George Packer advertiu que "pode muito bem se tornar política americana manter os sunitas iraquianos fortes o suficiente para criar um impasse na guerra civil e assim combater a influência iraniana na região". Foi exatamente isso que aconteceu com a criação de milícias sunitas, e o Irã está reagindo de forma previsível.

O presidente Bush tenta justificar o prazo indefinido para a ocupação militar americana no Iraque como forma de combater a influência iraniana. "Um fracasso no Iraque", disse ele em seu discurso do Estado da União, "fortaleceria o Irã". A realidade é que o Irã terá influência dominante no Iraque com ou sem um governo estável em Bagdá ou com ou sem as forças americanas. A história e a aritmética étnica tornam esse o legado inescapável da invasão americana.

Os xiitas constituem 62% da população iraquiana. Ainda assim, por cinco séculos, os invasores otomanos e britânicos que precederam Saddam Hussein, usando a tática clássica de dividir para governar, estabeleceram governos sucessivos das minorias para conter a maioria xiita. Ao destruir o regime de Saddam dominado pelos sunitas, Bush deu aos xiitas do Iraque uma oportunidade sem precedentes de governar, que agora estão determinados a explorar. E, mais importante, em termos geopolíticos, ele colocou o Iraque de volta na esfera de influência iraniana pela primeira vez desde que Suleiman, o grande, tomou-o no Tratado de Qasr-i-Shirin em 1639.

O Irã e os EUA têm um interesse comum em um Iraque estável. Teerã não quer um rompimento no Iraque ao longo de linhas étnicas, que poderia fortalecer o movimento por um Curdistão independente, envolvendo suas próprias áreas curdas inquietas. Antes de cooperar para estabilizar o Iraque, entretanto, o Irã quer garantias dos EUA de que não o usarão como base para ações secretas e ataques militares contra a República Islâmica e vão gradualmente extinguir suas forças de combate. Os temores de um ataque contra as instalações nucleares iranianas diminuíram grandemente desde minha última visita em junho de 2007, primariamente como resultado do relatório da Estimativa da Inteligência Nacional americana sobre o término dos esforços iranianos para criar e desenvolver ogivas nucleares.

A cooperação com o Irã na estabilização do Iraque é um objetivo realista, mas apenas se o EUA se distanciarem da rivalidade entre sunitas e xiitas e deixarem os xiitas estabelecerem os termos para a nova equação étnica no Iraque. Acima de tudo, os EUA devem reconhecer o direito do Irã, por virtude geográfica histórica, de ter maior influência sobre o destino do Iraque que seus outros vizinhos imediatos, sem mencionar o distante EUA.

*Selig S. Harrison é diretor do programa asiático do Centro de Política Internacional e autor de um estudo sobre o nacionalismo Baluch "In Afghanistan's Shadow". Deborah Weinberg

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