UOL Notícias Internacional
 

19/03/2008

Repensando o Oriente Médio: o que os líderes americanos precisam saber

The New York Times
Michael B. Oren*
"Estava escrito no Alcorão que todas as nações que não reconhecessem a autoridade (dos muçulmanos) eram pecadoras (e) que era seu direito e seu dever fazer a guerra contra quem eles pudessem."

Essas palavras certamente parecem familiares para qualquer pessoa informada sobre a Al Qaeda hoje. Mas foram um choque para um dos primeiros americanos que as escutou: Thomas Jefferson.

Foi em 1785 e Jefferson estava negociando com um representante de Trípoli que, juntamente com o Marrocos, Tunísia e Argélia -os chamados Estados Bárbaros-, estava enviando piratas para saquear navios mercantis americanos e capturar suas tripulações. Muitos americanos insistiram para que o governo seguisse a prática européia de subornar os piratas, mas Jefferson acreditava que pagar aos piratas só os encorajaria. A paz no Oriente Médio só era atingível "por meio da guerra", ele concluiu.

A posição de Jefferson parece prefigurar a de George W. Bush, que, depois do 11 de Setembro, declarou sua determinação a enfrentar o terrorismo no Oriente Médio. Na verdade, Jefferson dificilmente teria se surpreendido ao ver tropas americanas modernas combatendo no Oriente Médio, protegendo interesses econômicos vitais e promovendo a democracia local. A América persegue objetivos semelhantes na região há bem mais de 200 anos.

Mas de certa forma as atuais políticas americanas representam um afastamento fundamental dessa tradição secular. Muitos interesses e objetivos americanos no Oriente Médio permaneceram consistentes desde a época de Jefferson, mas os meios para atingi-los mudaram, assim como a posição dos EUA na região.

Embora hoje esteja amplamente esquecido, a primeira guerra estrangeira dos EUA foi combatida no Oriente Médio. Depois de tentar e fracassar em formar uma coalizão internacional contra a Barbária, Jefferson enviou a marinha americana para combater os piratas em 1801. As forças americanas sofreram muitos reveses antes de 1805, quando os fuzileiros-navais marcharam até as "praias de Trípoli" e derrotaram o exército inimigo.

Mas Jefferson nunca ordenou que suas tropas ocupassem o território conquistado. E em vez de esmagar os Estados bárbaros ele usou a vitória dos fuzileiros como um trampolim para concluir uma paz negociada.

Presidentes posteriores seguiram o exemplo de intervenção militar de Jefferson. Por exemplo, em 1904, quando um bandido marroquino chamado Raisuli seqüestrou o empresário americano Ion Perdicaris, Theodore Roosevelt enviou navios de guerra para a região com as instruções: "Queremos Perdicaris vivo ou Raisuli morto". Quarenta anos depois Franklin Roosevelt despachou centenas de milhares de soldados americanos para combater as forças nazistas no Oriente Médio, e durante o governo Eisenhower em 1958 soldados americanos pousaram em Beirute para ajudar o governo libanês sitiado.

Ronald Reagan e Bill Clinton lançaram ações de retaliação contra os países que ajudavam o terrorismo no Oriente Médio, e George Bush pai expulsou os invasores iraquianos do Kuwait.

Em todos os casos, porém, a ação militar americana foi considerada um suplemento da diplomacia, e não um substituto. E em nenhum caso as tropas dos EUA permaneceram em solo do Oriente Médio por mais tempo do que suas missões exigiam.

Os interesses econômicos sempre tiveram um papel proeminente na interação americana com o Oriente Médio. Séculos antes de engenheiros da Califórnia terem encontrado petróleo na Arábia Saudita em 1938, a região era um mercado lucrativo para os americanos.

Na época de Jefferson, cerca de 20% das exportações dos EUA se destinavam a portos mediterrâneos, onde o trigo e o tabaco do Novo Mundo eram trocados por figos e tapetes do Oriente Médio. O comércio se expandiu rapidamente no século 19, com os EUA vendendo armamentos e produtos manufaturados para os países do Oriente Médio. E, ironicamente, os EUA também se tornaram o maior fornecedor de petróleo do Oriente Médio.

Foi só na Segunda Guerra Mundial que a relação se inverteu e os americanos começaram a consumir vastas quantidades de petróleo do Golfo Pérsico. Essa dependência se aprofundou até 1973, quando um embargo do petróleo árabe virtualmente paralisou a economia americana. Desde então a compra pelos EUA de petróleo do Oriente Médio diminuiu constantemente. No entanto, a região continua sendo vital para a economia global e, através dela, para o bem-estar financeiro dos EUA.

Mas o campo mais vasto de interação americana com o Oriente Médio não foi militar nem comercial, e sim ideológico. Os americanos há muito tempo sonham em libertar o Oriente Médio.

Jefferson esperou que os déspotas da região fossem um dia substituídos por agricultores amantes da liberdade como ele. Os milhares de missionários americanos que se mudaram para o Oriente Médio nos anos 1800, construindo suas primeiras universidades modernas, pregaram o "Evangelho americano" de patriotismo, direitos humanos e democracia.

A liberdade dos povos do Oriente Médio foi uma peça central das políticas de Woodrow Wilson depois da Primeira Guerra Mundial e das de Roosevelt na Segunda Guerra Mundial, com os EUA investindo milhões de dólares no desenvolvimento da região. Os americanos passaram a ter um papel central na conquista da independência de muitos Estados do Oriente Médio, incluindo Síria, Líbia e Irã.

Enquanto defendiam a autodeterminação das nações do Oriente Médio, os EUA também afirmavam o direito do povo judeu a ter um Estado em sua terra natal bíblica. Em 1948, Harry Truman fez dos EUA o primeiro país a reconhecer o recriado Estado de Israel. Desde então, porém, todo governo americano trabalhou para restaurar a paz na Terra Santa. Combater a pirataria e o despotismo, construir escolas e defender direitos nacionais -estes têm sido os marcos do envolvimento da América no Oriente Médio. Mas hoje os EUA são vistos na maior parte da região como um campeão do interesse próprio.

Desesperados para manter o fluxo de petróleo, os EUA violaram seus próprios princípios democráticos ao reforçar autocratas amigos no Oriente Médio e minar os líderes que se opunham aos interesses americanos. Denunciados por seu apoio a Israel e a invasão do Iraque, os EUA são amplamente vistos como tendo abandonado os palestinos enquanto introduziam a democracia à força. De fato, a guerra no Iraque e a guerra do Golfo de 1991 são vistas por muitos levantinos não como cruzadas contra a tirania, e sim como corridas atrás de dinheiro.

Os EUA estão hoje em uma encruzilhada em seu relacionamento com o Oriente Médio. Mesmo que as tropas americanas deixem o Iraque um dia, a persistência do terrorismo vai exigir uma constante vigilância americana, senão uma intervenção ativa na região. Os financistas americanos permanecerão ligados aos mercados do Oriente Médio e seus estadistas lutarão para livrar a região da opressão e dos choques étnicos. Alcançar esses objetivos, enquanto se recupera a boa vontade das populações, é o maior desafio que enfrentam os líderes americanos.

A tarefa é gigantesca. Para realizá-la, os americanos devem retornar às tradições estabelecidas por seus antecessores. Usar o poderio militar para defender interesses básicos mas saber quando parar de lutar e negociar. Trabalhar para introduzir idéias americanas na região através de meios educacionais e não à ponta de fuzil. Restaurar a independência econômica americana do Oriente Médio desenvolvendo fontes de energia alternativas. Apoiar Israel mas não poupar esforços para forjar acordos de paz entre ele e o mundo árabe.

Mais importante, ouvir o conselho de George McClellan, ex-general da União e viajante no Oriente Médio em 1874. Os americanos devem aprender a "pesar (o Oriente Médio) por suas próprias regras", advertiu McClellan, e não tentar transformar a região em um espelho dos EUA. Pois "enquanto a julgarmos pelas regras que aplicamos a nós mesmos", os americanos estarão condenados a entender mal a região.

*Michael Oren é professor sênior no Shalem Center em Jerusalém, autor do premiado "Six Days of War: June 1967 and The Makings of the Modern Middle East" e, mais recentemente, de "Power, Faith and Fantasy: America in the Middle East, 1776 to the Present." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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