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20/03/2008

Cruz de Ferro: os esforços para restaurar o brilho de medalha manchada pelos nazistas

The New York Times
Nicholas Kulish

Em Berlim
O exército alemão atualmente não possui medalhas por coragem, apenas por presença. O debate doloroso aqui em torno da ressurreição da famosa Cruz de Ferro, para preencher essa lacuna, ressalta quão distante a Alemanha permanece da normalidade quando se trata de suas forças armadas.

Enquanto aliados, incluindo os Estados Unidos, pressionam a Alemanha a enviar mais soldados para as áreas mais perigosas do Afeganistão, o país está apenas começando a se reconectar aos paramentos das missões armadas. Não apenas a Bundeswehr alemã carece de medalhas de valor, como nem mesmo conta com algo comparável ao Coração Púrpura para soldados feridos.

Georg Martin, 83 anos, um soldado durante a Segunda Guerra Mundial, recebeu a abolida Wound Badge em prata pelas três vezes que foi gravemente ferido, e uma Cruz de Ferro por combater em uma unidade de artilharia pesada durante a Batalha de Kharkov, onde atualmente é a Ucrânia. Na verdade, ele tem duas de cada. Uma vez por ano, no Volkstrauertag, no dia memorial nacional, ele usa réplicas que comprou por alguns poucos marcos em 1959. Enquanto isso, em uma pasta com cópias de seu prontuário hospitalar militar se encontra as cruzes originais, ambas ostentando a suástica do Terceiro Reich.

Frank Boxler/The New York Times 
Georg Martin exibe a medalha Cruz de Ferro recebida durante a Segunda Guerra Mundial

A história da Cruz de Ferro, desenhada pelo famoso arquiteto e pintor alemão, Karl Friedrich Schinkel, data de 1813 e da Guerra de Libertação da Prússia contra Napoleão. Mas como freqüentemente é o caso aqui, é a história nazista que tem prioridade.

Como o governo de Hitler colocou a suástica no centro do desenho simples, preto e prateado, e entregou milhões de medalhas na Segunda Guerra Mundial, a honraria permanece fora dos limites do exército atual.

"O símbolo foi abusado pelos nazistas e, como resultado, se tornou também um símbolo dos crimes do Wehrmacht durante o Nacional Socialismo", disse Stephan J. Kramer, secretário-geral do Conselho Nacional dos Judeus na Alemanha. Kramer disse acreditar que soldados alemães merecem uma medalha por bravura, mas uma com novo desenho em vez da maculada.

"Eu não acho que ela voltará nesta forma", concordou Martin, que é ativo na Comissão de Cemitérios de Guerra Alemães local, em uma entrevista em sua casa na aldeia de Ingenried, na Baviera, nesta semana. "É claro que precisam ter algo", ele disse sobre os soldados que estão combatendo no Afeganistão. Mas ele acrescentou com um sorriso e um brilho nos olhos: "Eles poderiam ter algo mais bonito".

O ministro da Defesa da Alemanha, Franz Josef Jung, planeja pedir um novo grau da Cruz de Honra por bravura, segundo um porta-voz, uma citação que é concedida em bronze, prata e ouro por cinco, 10 ou 20 anos de serviço, respectivamente. Apesar de, em casos excepcionais, elas poderem ser concedidas antes por atos individuais, as Cruzes de Honra não são consideradas medalhas de valor.

Uma retomada da Cruz de Ferro não está sendo considerada, disse o porta-voz. Isto decepciona muitos, particularmente nas forças armadas, que gostariam de ver a Cruz de Ferro ser ressuscitada como símbolo da tradição militar pré-nazista.

"Os crimes do Nacional Socialismo ocorreram sob a suástica e não sob a Cruz de Ferro", disse Siegfried F. Storbeck, um general aposentado que vive em Hamburgo. Em uma entrevista por telefone, Storbeck disse que a Alemanha sempre terá que carregar o fardo dos crimes do nazismo, mas pediu por "compreensão pelo que veio antes do Nacional Socialismo".

O que frustra Storbeck e outros defensores da Cruz de Ferro é o fato deles a verem como fruto de uma era da qual acreditam que os alemães poderiam ter orgulho e deveriam aprender mais.

"Isto fez parte da famosa era do iluminismo prussiano, que incluiu, um ano antes em 1812, a emancipação judia, direitos legais para os cidadãos judeus", disse Michael Wolffsohn, um professor de história moderna da Universidade da Bundeswehr, em Munique.

Estranhamente, apesar de ser considerada uma impossibilidade política como medalha, a Cruz de Ferro continua sendo o símbolo do exército alemão, adornando de tudo, dos veículos militares ao site do ministério da defesa. Mas isto é diferente de um prêmio por heroísmo, um conceito que muitos ainda consideram incômodo em um país onde os últimos heróis militares reconhecidos lutaram por um regime nazista responsável pela morte de 6 milhões de judeus.

"Na cultura alemã simplesmente não é possível expressar estima pelos jovens soldados", disse Christoph Zuercher, um professor de política internacional da Universidade Livre em Berlim. O antimilitarismo é uma visão firmemente centrista no espectro político na Alemanha, ele disse.

Apenas em 1955, 10 anos depois da Segunda Guerra Mundial, é que o exército alemão foi reconstituído. Levaria mais 40 anos até que a Bundeswehr realizasse suas primeiras operações de combate estrangeiras, por caças Tornado na ex-Iugoslávia, em 1995.

O esforço para reviver a Cruz de Ferro surgiu muitas vezes nos últimos anos. Ele ganhou força no ano passado, quando um jovem aeronauta recolheu mais de 5 mil assinaturas em uma petição pela Internet para reinstituí-la. Em 4 de março, o líder da associação dos reservistas da Bundeswehr e um membro do Parlamento, Ernst-Reinhard Beck, pediu por uma medalha por bravura, acrescentando que não teria "nada contra a Cruz de Ferro".

Stefan Schroeter, um major da reserva, lembrou de um caso durante sua missão na Bósnia, em 2003, no qual os freios falharam em um veículo blindado de reconhecimento em uma estrada de montanha. O motorista do veículo atrás dele ultrapassou o veículo fora de controle e parou diante dele, arriscando sua vida e a de sua tripulação para salvar seus companheiros de despencarem da montanha.

Schroeter disse que em uma reunião, o comandante do soldado disse: "É uma vergonha que não haja uma condecoração por bravura, pois eu o indicaria para ela".

Em vez disso, o soldado recebeu dois dias adicionais de férias. George El Khouri Andolfato

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