UOL Notícias Internacional
 

20/03/2008

Tentando explicar a crise financeira

The New York Times
David Leonhardt
Quem não estiver entendendo bem toda esta crise financeira, levante a mão.

Ela já se desenrola há sete meses, e muitas pessoas provavelmente sentem que deveriam compreender o que se passa. Mas, na verdade, não estão entendendo. A parte relativa à crise imobiliária parece suficientemente simples. Com os bancos sussurrando palavras açucaradas de encorajamento, as pessoas compraram casas que não podiam pagar, e agora estão atrasando as prestações hipotecárias.

Mas a grande maioria dos proprietários de imóveis ainda está em boa situação. Sendo assim, por que uma bagunça centrada em uma parte do setor de hipotecas - os empréstimos subprime - congelou os mercados de crédito, deixou os mercados de ações desgovernados, causou o colapso do Bear Sterns, colocou a economia à beira da pior recessão em uma geração e obrigou o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) a tomar a sua medida mais drástica desde a Grande Depressão?

Não estou aqui para exigir que você sinta-se envergonhado da sua ignorância. Isso pode não ser inteiramente reconfortante, mas a sua confusão é compartilhada por muitas pessoas que se encontram em meio à crise.

"Estamos expondo setores dos mercados de capital sobre os quais muitos de nós jamais tinham ouvido falar", disse na semana passada Ethan Harris, economista do Lehman Brothers. Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro e atualmente executivo do Citigroup, admitiu que nunca ouvira falar de "liquidity puts", obscuros contratos financeiros, antes que eles começassem a causar grandes problemas ao Citigroup.

Passei grande parte dos últimos dias ligando para pessoas em Wall Street e no governo para fazer uma pergunta: "Você poderia tentar me explicar isso?" Quando eles terminavam, eu com freqüência tinha uma questão seguinte altamente sofisticada: "Dá para tentar me explicar de novo?"

Saí dessa experiência achando que toda essa incerteza criou um pânico que é só parcialmente racional. Dito isso, a crise não está próxima ao fim. Ben Bernake, o presidente do Fed, não será capaz de sacudir uma varinha de condão e fazer com que a situação toda melhore, não importando quantas vezes mais ele reduza as taxas de juros e encoraje Wall Street. Como sugeriu o próprio Bernanke, a única coisa que acabará com a crise será o fim da crise imobiliária.

Portanto, voltemos ao início do boom.

Ele na verdade começou em 1998, quando um grande número de pessoas decidiu que os imóveis, que ainda não haviam se recuperado da crise anterior do início da década de 1990, haviam se tornado uma pechincha. Ao mesmo tempo, Wall Street fez com que os compradores contassem com mais facilidades para conseguir empréstimos. Wall Street estava transformando o setor de hipotecas de um negócio local, centrado nos bancos, em uma atividade global, na qual investidores de quase todas as partes poderiam injetar dinheiro para empréstimos. A nova competição derrubou o valor das hipotecas e estimulou inovações, grande parte das quais inegavelmente boa. Por que, afinal, alguém que sabe que se mudará após apenas alguns anos não deveria dispor de outra opção a não ser a de um contrato hipotecário de 30 anos com taxa de juros fixa?

No entanto, como ocorre freqüentemente com as inovações, logo havia excesso de uma coisa positiva. Aqueles mesmos investidores globais, cheios de dinheiro oriundo do boom asiático ou do aumento do preço do petróleo, exigiram bons retornos para os seus investimentos. Wall Street tinha uma resposta para esta demanda: as hipotecas subprime.

Como esses empréstimos são destinados a pessoas que lutam para comprar uma casa, eles trazem taxas de juros mais elevadas - mesmo que estas sejam camufladas por baixas taxas iniciais - e proporcionam lucros mais elevados. Essas hipotecas eram então divididas em pedaços e empacotadas em investimentos, freqüentemente conhecidos como obrigações de dívidas colateralizadas, ou CDOs. Assim que eram empacotadas, diferentes tipos de hipotecas podiam ser vendidas a grupos distintos de investidores.

Os investidores a seguir aumentaram ainda mais os seus retornos por meio da alavancagem financeira, a mais antiga estratégia da área. Eles fizeram apostas de US$ 100 milhões com apenas US$ 1 milhão do seu próprio capital e os restantes US$ 99 milhões em dívidas. Se o valor do investimento aumentasse para apenas US$ 101 milhões, os investidores terminariam dobrando o seu capital. Os compradores de imóveis fizeram o mesmo, dando entradas pequenas nas novas casas, observa Mark Zandi, do Moody's Economic.com. Sob a presidência de Alan Greenspan, o Fed contribuiu para tornar isso tudo possível, reduzindo drasticamente as taxas de juros, a fim de prevenir uma recessão de duas frentes após a quebradeira do setor tecnológico de 2000, e a seguir mantendo-as reduzidas durante vários anos.

É claro que todos esses investimentos eram extremamente arriscados. Altos retornos financeiros quase sempre estão conjugados a um risco maior. Mas as pessoas - e por "pessoas" estou me referindo aqui a Greenspan, Bernanke, os altos executivos de quase todas as firmas de Wall Street e a uma maioria dos proprietários norte-americanos de imóveis - decidiram que as regras usuais não se aplicavam porque os preços dos imóveis em toda a nação nunca haviam caído antes. Com base nesta idéia, os preços aumentaram cada vez mais, chegando a um patamar tão alto, diz Robert Barbera, do ITG, uma firma de investimentos, que estavam destinados a desabar. Foi uma profecia autodestrutiva.

E ela explica em grande parte por que a bagunça do setor hipotecário teve tantos efeitos colaterais. O setor imobiliário norte-americano parecia ser uma aposta tão segura que uma grande parcela do sistema financeiro global acabou sendo proprietária de uma parte dele. No verão passado, muitos elaboradores de políticas esperavam que a crise não se disseminasse para os bancos tradicionais, como o Citibank, porque estes haviam vendido todo o seu estoque de hipotecas primárias aos investidores. Mas o que se constatou foi que muitos bancos haviam também vendido complexos planos de seguro da dívida hipotecária. Isso os deixou em situação delicada quando os mutuários que haviam assinado contratos hipotecários baseados em uma esperança rósea não foram mais capazes de escapulir do acordo vendendo a casa para obter algum lucro.

Muitas dessas apostas não eram altas. Mas elas muitas vezes estavam tão alavancadas que qualquer prejuízo foi ampliado. Caso aqueles mesmos US$ 100 milhões que eu descrevi acima sofressem uma desvalorização de apenas US$ 1 milhão, o investidor que arriscou apenas US$ 1 milhão perderia tudo. Foi por isso que um fundo de hedge associado ao prestigioso Carlyle Group entrou em colapso na semana passada.

"Se algo sair errado, essa carreira de dominós despenca muito rapidamente", afirma Charles R. Morris, um ex-banqueiro que conta a história da crise no seu novo livro, "The Trillion Dollar Meltdown" (algo como "O Desastre de Um Trilhão de Dólares").

Esta combinação venenosa - a presença generalizada de maus investimentos e o potencial de disseminação desse tipo de aplicação - empurrou uma Wall Street surpresa para um estado de profundo conservadorismo. A sensatez de qualquer firma de investimento reside em grande parte na confiança por parte das outras firmas em que ela conta com bens reais para lastrear as suas apostas. Assim, agora as firmas estão acumulando dinheiro, em vez de emprestá-lo, até que entendam o quão grave se tornará a crise imobiliária, e até que ponto elas encontram-se expostas. Qualquer instituição que pareça ter uma carteira de valores de alto-risco, independentemente de contar ou não com ativos para lastrear essa carteira, enfrenta a pressão dupla de investidores exigindo o seu dinheiro de volta e de financiadores batendo-lhes a porta na cara. Adeus, Bear Stearns.

O conservadorismo foi tão longe que está afetando diversos potenciais e sólidos mutuários, o que, por sua vez, está prejudicando a economia maior e agravando os temores de Wall Street. Uma recessão poderia fazer com que os financiamentos para a compra de automóveis, os empréstimos de cartões de crédito e as hipotecas comerciais também começassem a entrar em crise.

Muitos economistas, à esquerda e à direita, afirmam agora que a única solução é uma intervenção do governo federal, comprando parte das dívidas indesejadas, assim como o Fed começou a fazer no final de semana passado. Isso se chama bailout (operação de salvamento de emergência), e não há dúvida de que fornecer ajuda aos financiadores de Wall Street e a mutuários tolos - em vez de, por exemplo, aos operários demitidos pelas suas fábricas - é algo profundamente desagradável. No entanto, neste momento a alternativa poderia ser na verdade pior.

Bolhas conduzem a estouros. Estouros levam a pânicos. E os pânicos podem gerar longas e profundas crises econômicas, e é por isso que o Fed vem adotando medidas sem precedentes para restaurar a confiança.

"Você pergunta, 'Meu Deus, como os empréstimos hipotecários subprime poderiam abalar todo o sistema financeiro global?", diz Zandi. "Eis como isso foi possível". UOL

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