UOL Notícias Internacional
 

21/03/2008

Só um hotel? Para alguns, é uma aventura

The New York Times
Sarah Kershaw e Michael Powell
Em Washington e Nova York
Os porteiros e carregadores, que vestem terno marrom-escuro e luvas brancas, do elegante Hotel Mayflower sabem reconhecer os sinais sutis: mulheres atraentes sem nenhuma bagagem, vestidas com bom gosto, mas que, por causa da lingerie rendada e do salto agulha, parecem sensuais demais para tomarem um drinque com um lobista gorducho da Comissão de Comércio do governo.

Algumas vezes elas se dirigem direto para os elevadores. Se isso acontece depois das 22h, elas correm o risco de serem paradas por um segurança, o que pode acabar em uma conversa constrangedora. Mas um discreto telefonema para um dos quartos freqüentemente acalma os ânimos.

Na maioria das vezes, essas mulheres, que ganham entre US$ 500 e US$ 5 mil por hora atendendo clientes, sentam-se numa banqueta do bar Town & Country Lounge, revestido de painéis de madeira, no saguão do hotel e pedem um club soda com limão; nada de drinques elaborados, porque o cliente chegará dentro de alguns minutos para escoltá-las para um quarto decorado com bom gosto.

Para os clientes assíduos e funcionários do Mayflower, as revelações feitas na semana passada sobre o "rendezvous" do governador Eliot Spitzer com uma prostituta de luxo no hotel não são novidade em décadas de história desses tipos de encontros. Alguns funcionários até inventaram um jogo: "Adivinhe a Garota de Programa".

"Nosso negócio é alugar quartos", disse um ex-gerente do Mayflower, que não quis ter seu nome publicado porque está procurando outro emprego no seleto clube dos hotéis de luxo. "E o negócio dos serviços de acompanhantes é manter nossos hóspedes felizes".

O Mayflower é uma das "madames" de Washington, cuja fachada curva, murais e decoração extensivamente folheada a ouro casam bem com o espírito ambicioso da cidade. O presidente Harry S. Truman chamava o hotel de "segundo melhor endereço de Washington". A Casa Branca fica a apenas cinco minutos à pé da porta do hotel.

Durante vinte anos, J. Edgar Hoover almoçou lá todos os dias, pedia uma insípida e previsível sopa de frango, queijo cottage e uma toranja. Charles Lindbergh comemorou o primeiro vôo transatlântico solo no salão de baile do Mayflower. Franklin Delano Roosevelt escreveu seu primeiro discurso inaugural no quarto 776.

Marion S. Barry Jr., ex-prefeito de Washington, foi flagrado fumando crack num quarto do Mayflower em 1989; depois foi preso por posse de drogas. Dez anos depois, membros do Congresso que defendiam o impeachment do presidente Bill Clinton entrevistaram Mônica Lewinsky na suíte presidencial do décimo andar do hotel.

E agora o Mayflower atingiu o ponto de exclamação definitivo com o fim da carreira política de Spitzer.

"Em março de 1933, outro ex-governador de Nova York, o presidente Roosevelt, ao escrever um discurso histórico aqui em seu quarto, chegou à conclusão de que a única coisa que se deve temer é o próprio medo", disse Dan Ruskin, que toca no piano bar do hotel desde o governo de Eisenhower, em uma mensagem de e-mail. "Agora, quase no mesmo dia, 75 anos depois, outro governador de Nova York está fazendo história. Em seu quarto, ele pensava que a única coisa que se deve temer é ser flagrado".

Ao ser questionado sobre a reputação do hotel, John Wolf, assessor de imprensa da Marriott International, que é dona do Mayflower, recusou-se a refutar os detalhes. "É parte da política de nossa companhia cumprir as leis locais, estaduais e federais", disse numa mensagem de e-mail. "Também respeitamos a privacidade de nossos hóspedes, que está sujeita à segurança das outras pessoas hospedadas e do público".

O hotel não iria, acrescentou Wolf, "corroborar com atividades contrárias a esse princípio ou que são obviamente ilegais".

Poucos questionam isso, mas entrevistas com duas dúzias de empregados e hóspedes freqüentes - e muitas outras pessoas com raízes profundas na sociedade de Washington - sugerem que o Mayflower e outros hotéis de US$ 400 por noite do centro da cidade assumem a política passiva do "não pergunte e não diga nada" em relação aos serviços de prostituição de luxo. Não divulgamos os nomes dos funcionários nessa matéria por medo de possíveis represálias contra eles.

Spitzer era um visitante familiar e falante no Mayflower, que divulga as fotos de hóspedes VIP por e-mail para que os funcionários possam atendê-los pelo nome. Os registros do hotel mostram que ele fez 13 reservas sob seu nome desde que se tornou governador, incluindo a de 13 de fevereiro, noite em que os policiais afirmam que ele teve um encontro de US$ 4.300 (em outro quarto) com uma garota de programa conhecida como Kristen.

Kristen, uma jovem de 22 anos cujo nome verdadeiro é Ashley Alexandra Dupre, que já havia feito companhia a um hóspede do Mayflower pelo menos uma vez, chegou trazendo quatro malas e dormiu no hotel, disse um funcionário. Ela saiu no dia seguinte - Dia dos Namorados - vestindo jeans e uma jaqueta camuflada do Exército, lembra-se o funcionário.

Spitzer havia passado a tarde do dia 13 de fevereiro no Lobby Court, um movimentado café que serve sanduíches gourmet e garrafas de vinho de US$ 500. Lá, um funcionário o ouviu dizer brincando que queria um pianista para tocar em seu quarto naquela noite. Ruskin e outras pessoas disseram ter visto o governador várias vezes no Town & Country, e um ex-funcionário disse que uma vez viu Spitzer sair do bar com uma mulher e dirigir-se para o elevador.

O Town & Country é um dos lugares favoritos de uma coleção eclética de tipos de Washington: lobistas, jornalistas, agentes do FBI, diplomatas e vez ou outra um deputado ou agente da inteligência. O bartender, Sambonn Lek, faz 101 tipos diferentes de martínis, incluindo o Eletric Lady e o Naughty Lady (ele diz que tirou o drinque Ted Kennedy do menu para "deixá-lo em paz").

Uma acompanhante de luxo ou duas podem se misturar sem serem notadas. "Se você não souber de nada, pode achar que elas são namoradas ou esposas", diz um ex-funcionário. "Não ficamos observando as atitudes dos hóspedes; normalmente só percebemos o que está acontecendo depois do fato consumado, 'Ah, OK, foi isso que ele veio fazer aqui.'"

Um trabalho como esse não deve ser romantizado, mas tem seus luxos; algumas das garotas de programa mais bem sucedidas estacionam seus lustrosos carros vintage num estacionamento do outro lado da rua, próximo ao restaurante Morton's. "Lembro de uma mulher que parava no estacionamento do hotel; ela tinha vários carrões, um Porsche, um Jaguar", lembra-se um dos funcionários. "Perguntei: 'O quê ela faz?' Me disseram que ela trabalhava no Mayflower. Então eu entendi."

Diana L. Bailey, que escreveu a história do hotel, acha essa fama trágica. "Seria de partir o coração ver a reputação do hotel tingida por isso", diz.

Talvez, mas os ocasionalmente os escândalos atingem muitos dos negócios que servem à poderosa elite da cidade. Um membro do governo Carter que se deu bem em Washington aponta que o número de lobistas subiu às alturas, de 3 mil, quando ele chegou, para cerca de 35 mil hoje.

"Todas as indústrias parasitas - lobistas, consultores políticos, advogados e prostitutas - cresceram e se tornaram mais sofisticadas", diz ele, que se recusou a ter seu nome divulgado pela reportagem. "Isso torna a cidade mais interessante".

Localizado na avenida Connecticut, o bar do Mayflower é tão institucional que chega a merecer uma classificação do Departamento de Serviços Gerais do governo. Há tempos ele serve como segundo lar para membros do Congresso e para os lobistas que vivem pagando drinques para os primeiros. No hotel, secretários de Estado já conversaram sobre assuntos mundiais com seus colegas de outros países e presidentes tomaram doses de Bourbon depois de um longo dia de trabalho

George Dasch, o espião alemão, entregou-se no hotel em 1942. Ele pediu para falar com Hoover, mas o presidente estava almoçando no hotel. (Em outra ocasião, o chefe do FBI reconheceu lá o terceiro homem mais procurado da lista da agência. Hoover decretou a prisão e voltou para sua sopa.)

A acompanhante de mafiosos que era amante de John F. Kennedy, Judith Exner, mantinha um quarto no Mayflower e ia secretamente para a Casa Branca quando a primeira-dama estava fora da cidade. (Uma biografia de Kennedy também descreve um encontro do presidente com a atriz Angie Dickinson no Mayflower.)

"No passado, os clientes da elite podiam confiar na discrição dos hoteleiros cinco estrelas", diz o historiador da presidência Robert Dallek. "Eram hotéis de cavalheiros. Ninguém era capaz de dedurar um Kennedy ou um membro do Senado". E acrescentou: "O fato de que os funcionários dizerem que Spitzer às vezes encontrava mulheres na área pública do hotel apenas demonstra a negligência do ex-governador."

Já se foi a época em que os hóspedes dos hotéis de luxo tinham de implorar ao recepcionista pelo nome de uma respeitada garota de programa ou pelo endereço de um bom bordel. Hoje os serviços de acompanhantes anunciam abertamente e os clientes sabem bem como eles funcionam.

Os hóspedes mais sofisticados reservam um quarto extra no fim do corredor especialmente para esse fim (policiais disseram que Spitzer registrou o seu sob o nome do amigo e doador de campanha George Fox). Esses hóspedes tendem a gravitar nos "andares clube" - 7º e 8º - onde os quartos são mais caros, os travesseiros mais fofos e os robes brancos mais macios (um depoimento oficial informou que Kristen encontrou o cliente número 9, mais tarde identificado como o governador, no quarto 871; os registros do hotel mostram que Spitzer estava hospedado no 772). Para entrar no bar e no lounge exclusivos é preciso uma chave especial, os VIPS gostam da atmosfera e da exclusividade.

Os funcionários, cuja maioria trabalha no Mayflower há muitos anos, sabem que um hóspede VIP satisfeito significa uma gorjeta maior.

Enquanto jornalistas e curiosos aglomeravam-se no hotel na semana passada, o pianista Rusnkin manteve seu senso de humor sobre o affair Spitzer, lembrando que sua mãe o avisou há muito tempo que se ele continuasse a tocar jazz sensual, "acabaria trabalhando em um bordel".

"Em qualquer lounge, quando vemos um casal se empolgando demais num sofá, pensamos, 'Ei, vá para o quarto!'", escreveu numa mensagem de e-mail. "Bem, isso é um hotel. Gosto de pensar que quando minha música fica muito romântica, alugamos um quarto. Isso significa que eu fiz o meu trabalho."

Ian Urbina colaborou com a reportagem em Washington. Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    14h39

    -0,96
    3,150
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h43

    0,55
    70.396,70
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host