UOL Notícias Internacional
 

23/03/2008

Após 5 anos, reconstruir o exército iraquiano ainda é uma difícil tarefa

The New York Times
Por Solomon Moore e Michael Kamber
Mosul, Iraque. Depois que o Exército iraquiano aumentou a patrulha na cidade de Mosul no norte do país no começo deste ano, o coronel Haji al-Zibari já se viu caçando dois rebeldes em um caminhão carregado de armas. O motorista e o passageiro desviaram o veículo, pularam para fora, deram alguns tiros e desapareceram na cidade.

Então al-Zibari, na época o segundo homem no comando da 2ª Brigada da 2ª Divisão do Exército iraquiano, dirigiu o caminhão para uma movimentada rotatória, no meio de um refúgio rebelde na populosa zona oeste da cidade, e encharcou o veículo com gasolina.

Depois colocou fogo num pedaço de pano embebido em gasolina, jogou-o no chão e deu um tiro com sua AK-47, explodindo o tecido em chamas na direção do caminhão, que pegou fogo.

"É isso que fazemos com as propriedades dos rebeldes!", gritou para os quatro ventos.

Michael Kamber/The New York Times 
Um veículo do exército americano patrulha as ruas de Mosul, no Iraque

Quando os militares americanos falam sobre "liderança iraquiana", al-Zibari é um exemplo do que eles querem dizer: iraquianos operando seus próprios "checkpoints", fazendo suas próprias patrulhas, usando sua própria inteligência. Os americanos admitem quem os métodos iraquianos freqüentemente se desviam da doutrina militar padrão, mas dizem que mesmo as táticas violentas são mais aceitáveis do que a perspectiva de manter uma força de ocupação mais profissional, porém por tempo indefinido.

O governo Bush diz que um exército iraquiano capaz de lutar por conta própria é um pré-requisito indispensável para a eventual retirada das tropas americanas. Mas desde a sua dissolução em 2003, decretada pela ordem de nº 2 da Autoridade Provisória de Coalizão, o exército iraquiano tem tido dificuldades para se recompor. Durante anos, as tropas iraquianas têm sido restritas por causa de mau treinamento, corrupção, falta de equipamentos e por causa dos movimentos rebeldes que mataram duas vezes mais soldados e policiais iraquianos do que americanos.

Agora, cinco anos depois, os comandantes americanos dizem que o exército, renascido, já é capaz de responder por si. E Mosul, uma cidade etnicamente misturada que estava sob o intenso domínio dos rebeldes e onde as unidades do exército iraquiano superam em muito o número de unidades americanas, oferece um possível vislumbre do futuro. Mas a performance do exército iraquiano em Mosul até agora sugere que enquanto as forças iraquianas estão assumindo mais responsabilidade e fizeram avanços, ainda há lacunas problemáticas.

Comandantes americanos disseram que as forças iraquianas em Mosul conduziram operações básicas, incluindo patrulhas, "cordões e buscas" e ataques com o mínimo de assistência. Diferentemente de muitas outras unidades militares iraquianas, os batalhões de Mosul têm relativamente poucas deserções. As tropas também são conhecidas por seus colegas americanos por serem excepcionalmente boas no uso de informantes para reunir inteligência.

No entanto problemas logísticos persistentes e a falta de equipamentos aleijaram muitas unidades enquanto os rebeldes se reagruparam a partir de antigos pontos de resistência desde Bagdá e Diyala, Anbar e Salahuddin, até a província de Nineveh. A comunicação falha entre as unidades militares iraquianas e o Ministério da Defesa continua sendo um problema, assim como a liderança desigual em campo. Conselheiros americanos reclamam que alguns comandantes em Mosul parecem não querer liderar seus homens em batalha.

Enquanto os militares americanos reenviaram tropas para apoiar um aumento nas tropas em Bagdá e na província de Diyala, Mosul foi relegada a uma enxuta operação de "economia de força". Apenas 750 americanos foram deixados em Mosul e cerca de 2 mil em Nineveh, uma província do tamanho de Maryland, na fronteira com a Síria.

Privados de boa parte de seu poder de combate, os comandantes americanos passaram a se apoiar nas forças de segurança iraquianas em Nineveh, especialmente da 2ª e 3ª divisões do exército iraquiano, duas unidades curdas que estariam entre as melhores do Iraque. Mas o Exército iraquiano também estava desfalcado, pois havia mandado dois batalhões para Badgá. As duas divisões atualmente têm cerca de 20 mil soldados, cerca de 8.700 de uma delas estão sob o comando de Mosul.

Surpreendidos por uma onda de ataques rebeldes no ano passado, o pequeno número de americanos não conseguiu apoiar de forma adequada seus colegas iraquianos desfalcados. Em muitos dos piores bairros de Mosul, soldados e policiais iraquianos cederam terreno para os rebeldes, disseram os comandantes americanos. Enquanto a violência diminuiu por todo o país, os ataques aumentaram em Nineveh.

Em fevereiro, havia cerca de 180 ataques por semana, de acordo com as estatísticas militares, um número alto e quase o dobro da taxa de 18 meses atrás.

Muitos dos obstáculos que as forças iraquianas enfrentaram em Mosul colocariam à prova até mesmo forças militares mais capazes.

Militares americanos dizem que os rebeldes de Mosul, especialmente os da margem ocidental do rio Tigre, estão entre os mais ativos e mais organizados.

A alta taxa de desemprego contribui com a insurgência em Nineveh, além das tensões étnicas e nacionalistas. Enquanto os curdos controlam o governo da província, os árabes sunitas compõem cerca de 60% da população. Alguns rebeldes apelam para o medo sunita de uma dominação curda, enquanto outros grupos simplesmente pagam a estudantes desempregados para colocar bombas na beira das estradas.

As tensões entre os curdos e árabes sunitas, assim como a excepcional diversidade populacional de Nineveh, que abriga cristãos, yazidis e várias outras tribos, impediram que fossem enviados para lá um grande número de grupos de guarda civil, como os Cidadãos Locais Interessados, ou o Despertar Sunita, que ajudaram a estancar a violência em outros lugares do Iraque.

E os rebeldes decidiram manter sua posição em Mosul. "Tem havido uma movimentação de homens de Diyala subindo o vale do rio Haditha através das montanhas Hamran até Baiji, Shargat e Mosul", disse o capitão Patrick Ryan, um oficial da inteligência do 1º Batalhão, 8ª infantaria, que chegou a Mosul em janeiro. "Há pressão em Diyala, e há notícias de que eles querem mais guerrilheiros em Mosul nesse momento."

Os rebeldes estão de tal forma entrincheirados no bairro de periferia de Zanjeli, no oeste de Mosul, que costumam pendurar corpos em uma ponte para intimidar os moradores.

Outro sinal da sofisticação do movimento rebelde em Mosul foi uma emboscada em janeiro que matou cinco soldados americanos. Um vídeo do ataque foi colocado na internet 21 minutos depois do ataque.

"Há quem diga que o exército iraquiano pode controlar o Iraque sem os americanos", diz o coronel Ali Omar Ali, um comandante de batalhão iraquiano no leste de Mosul. "Mas estão mentindo. Sem os americanos seria impossível para nós controlarmos o Iraque."

Mais ajuda americana
Em novembro, os militares implicitamente reconheceram a incapacidade do exército iraquiano em conter o movimento rebelde sem a ajuda americana ao enviarem o 3º Regimento de Cavalaria Armada de Fort Carson, Colorado, maior e bem mais equipado, para Mosul para substituir a Equipe de Combate da 4ª Brigada, 1ª Divisão de Cavalaria.

Sediado na Base de Operações de Marez, em Mosul, o novo regimento tem cerca de 3 mil soldados, quase 300 tanques veículos de guerra Bradley, além de diversos veículos de eixo alto resistentes a minas e à prova de emboscadas, conhecidos com MRAPs. Além disso, o 1º Batalhão da 8ª Infantaria está sendo usado para reforçar as tropas americanas e iraquianas no leste de Mosul.

A unidade tem cerca de 2 mil soldados em Mosul agora, cerca do dobro do número que a Equipe de Combate da 4ª Brigada tinha. Isso ainda é bem menos do que a divisão completa enviada para lá em 2003. Mas a recente infusão de tropas permitiu que a unidade aumentasse o número de patrulhas e varreduras.

"Fomos para áreas que estavam sem nenhuma presença da coalizão militar iraquiana em 15 ou 16 meses ou mais", disse o coronel Michael A. Bills, comandante do 3º Regimento Armado da Cavalaria.

Militares iraquianos dizem que estão dispostos, mas sem preparo ou equipamento, para lutar contra os rebeldes. Os comandantes iraquianos reclamam da falta de combustíveis, das armas baratas feitas na China que emperram depois de alguns tiros e da falta de botas de combate.

"Temos alguns batalhões com apenas oito ou dez veículos operacionais", disse o tenente-coronel Jeff Meeker, um conselheiro da Equipe de Transição Militar para a 2ª Brigada da 2ª Divisão do Exército Iraquiano no oeste de Mosul. "Isso é uma redução significativa de seu poder de combate."

Apesar dos problemas em Mosul, o exército iraquiano fez progresso no geral.

Em 2004, os rebeldes tomaram Mosul e destruíram as forças de segurança, mas o atual número de forças de segurança iraquianas em Nineveh passa de 40 mil. E algumas unidades do exército iraquiano fizeram algumas operações básicas no ano passado como "checkpoints" e algumas missões eventuais de cercamento e busca com uma ajuda mínima das equipes de consultoria americanas.

Além de treinar individualmente seus colegas iraquianos em funções específicas, os conselheiros americanos normalmente têm um papel importante em coordenar as operações entre várias unidades militares iraquianas para evitar acidentes de fogo cruzado entre elas ou então a repetição de tarefas. Os conselheiros também monitoram as unidades iraquianas contra os abusos aos direitos humanos, corrupção e outras infrações sérias à doutrina militar.

Fora isso os conselheiros freqüentemente atuam como multiplicadores de forças para o exército iraquiano, porque são capazes de coordenar a ação com unidades militares americanas e iraquianas, conseguir a interferência no Ministério da Defesa e pedir apoio aéreo.

O exército Americano também está treinando mais de mil tropas iraquianas. O tenente-general James M. Dubik, comandante da missão americana de treinamento de segurança e equipamento no Iraque, diz que os novos regimentos em treinamento estão menos focados em "marchar e cumprimentar" e mais em "habilidades de combate e tiro". Ele também atribui a coesão maior das tropas a um novo sistema que treina os soldados iraquianos dentro de suas próprias unidades. O exército iraquiano convocou 45 mil soldados entre junho e dezembro de 1007, aumentando o total de suas tropas para 170 mil.

O exército iraquiano também planeja criar vários centros de logística. No começo de 2007, apenas 30 a 40% dos batalhões tinham o número apropriado de oficiais, agora cerca de 70% têm seu quadro de líderes completo, diz Dubik.

Um relatório recente do Pentágono informou que 102 entre 168 batalhões iraquianos são "capazes de planejar, executar, e sustentar operações contra-insurgentes com ou sem o apoio do Iraque ou da coalizão", número bem maior do que os 24 batalhões de 2005. Ainda assim, os militares americanos dizem que mesmo as "operações independentes" do exército iraquiano normalmente incluem alguma ajuda americana, mesmo que seja apenas apoio aéreo, logístico ou de um grupo residente de conselheiros militares.

Os militares também venderam e deram milhares de Humvees, armas americanas e outros equipamentos essenciais para os iraquianos.

Mas a maior parte dos equipamentos militares recém adquiridos pelo Iraque ainda está em depósitos de armas. Enquanto isso, militares de Mosul reclamam da falta de sistemas de treinamento e manutenção para os veículos que foram entregues.

"Toda semana perdemos uma Humvee porque falta alguma peça", diz o major Mohammad Akram, um oficial iraquiano no leste de Mosul. "Não temos armas de mão suficientes. E não temos veículos suficientes."

Segurando seu rifle, falou: "peguei esse de um dos rebeldes".

Akram também enumerou algumas outras coisas que os iraquianos normalmente precisam dos americanos: "Munição. Rifles. Remédios. Comunicação."

"Se algo dá errado, precisamos de apoio aéreo", disse ele, lembrando como os rebeldes encurralaram seus homens durante um batalha de duas horas. Um soldado iraquiano foi morto antes que os helicópteros americanos regatassem os demais.

"Se o apoio aéreo não tivesse chegado, não teria sido nada bom", disse.

Para cada comandante como al-Zibari, há forças de segurança iraquianas como as que o capitão David Sandoval enviou para a ação no mês passado.

Em fevereiro, o pelotão de Sandoval, parte do 1º Batalhão, 8ª Infantaria, atirou e feriu um rebelde que estava enterrando uma bomba na beira da estrada no bairro de Somer, no sudeste de Mosul. O homem fugiu, e Sandoval enviou uma mensagem de rádio para unidades da polícia iraquiana que estavam por perto pedindo que elas vasculhassem as casas da região.

A voz de um comandante de pelotão americano respondeu no rádio: "Os militares dizem que é tarefa da polícia, e a polícia diz que é tarefa dos militares. Ninguém vai".

"Isso acontece todo o tempo", diz Sandoval, exasperado. "Eles não entram lá a menos que estejamos junto."

"O exército iraquiano está sendo mutilado lá", diz o sargento James Luce enquanto os americanos se preparavam para uma missão conjunta com os iraquianos. "A Al-Qaida tem mais equipamentos e é melhor treinada do que eles. Sem nós por lá, eles não têm nenhuma chance."

Protegendo os bairros
Em Mosul, as tropas americanas estão trabalhando para estabelecer "checkpoints" fortificados e postos de combate em alguns dos bairros mais violentos da cidade.

A idéia, concebida a partir de prévias ações bem-sucedidas em Tal Afar e Bagdá, é usar os "checkpoints" para impedir a mobilidade dos rebeldes e o uso de carros-bomba. Os postos de combate formarão a espinha de uma nova infra-estrutura de segurança em Mosul que Bills espera seja capaz de retomar o território dos rebeldes e compensar a falta de mobilidade do exército iraquiano.

O primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki também enviou o tenente-general Jalal Tawfiq, o ex-comandante da 9ª Divisão do Exército Iraquiano no leste de Bagdá, para estabelecer o Comando Operacional Nineveh, com o objetivo de que os iraquianos possam controlar as tropas, os policiais e as forças de fronteira na província, que muitas vezes causam confusão.

Numa tentativa estimular o exército iraquiano e aumentar sua capacidade, disse Bills, a maior parte das operações agora são conduzidas em conjunto com "o exército, a polícia iraquiana e a coalizão, trabalhando juntos lado a lado."

"Basicamente nós estamos fazendo o cerco externo, e os iraquianos estão fazendo o cerco interno", disse. "Dessa forma, há um rosto iraquiano na operação, e o povo reconhece isso."

As tropas americanas já construíram uma dúzia de "checkpoints" no lado oeste da cidade e têm planos de construir muitos outros. Uma vez que os "checkpoints" e postos de combate estejam prontos e as forças de segurança iraquianas possam manter melhor sua posição na cidade, as tropas americanas têm a intenção de novamente dar mais responsabilidade a elas.

Todavia, inicialmente, as tropas americanas estão fazendo a maior parte do trabalho pesado. O tenente-coronel Chris Johnson, comandante do 1º Batalhão, 8ª Infantaria, decidiu construir o Posto de Combate Rocha próximo ao local de uma emboscada feita por rebeldes em 28 de janeiro. Em meados de fevereiro, enquanto engenheiros do exército movimentavam um guindaste e outros equipamentos no local, os rebeldes fizeram outras três emboscadas, incluindo um ataque à bomba que destruiu o mecanismo de movimentação do guindaste.

Alguns dias depois, unidades do exército iraquiano descobriram uma ambulância Red Crescent com 2,2 toneladas de explosivos caseiros, feitos com o fertilizante nitrato de amônia, similares à bomba que Timothy McVeigh usou para destruir o prédio em Oklahoma City em 1995. O veículo estava parado em frente a uma casa a menos de 500 metros do novo posto de combate.

Dois soldados americanos suando de nervoso dirigiram a ambulância por quase dez quilômetros deserto adentro onde poderia ser detonada em segurança. "Na cidade ainda estão a portas e janelas fechadas", disse Ryan, oficial de inteligência do batalhão.

Os comandantes americanos, ansiosos para dar aos iraquianos o crédito pela missão de construir postos de combate pela cidade, freqüentemente encontram com soldados iraquianos para encorajar sua participação.

Um desses encontros aconteceu em fevereiro na base Al Kindi, o quartel general aos frangalhos da 2ª Divisão do Exército Iraquiano no alto de um morro. Os comandantes americanos viram a reunião como sendo tanto um meio para o que o exército iraquiano coloque sua marca no plano de construção dos postos de combate quanto uma forma de aconselhar os comandantes iraquianos sobre seu processo de decisão.

Antes do encontro, Johnson e vários outros oficiais americanos falaram com o brigadeiro-general iraquiano Mutaa al-Khazraji sobre o papel de seus homens. Os americanos pareciam estar mais entusiasmados do que al-Khazraji.

Detrás da mesa de seu escritório, o general reclamou da falta de combustível, uniformes e veículos funcionando. Seus homens têm armas suficientes, disse, mas são um amontoado de AK-47 de várias ex-repúblicas soviéticas e da China. Al-Khazraji disse que os iraquianos estão começando a se responsabilizar mais por sua própria logística, mas freqüentemente com muito atraso.

Johnson simpatizou com o general, dizendo: "Para nós é a mesma coisa. Se temos uma Humvee destruída, às vezes leva muito tempo para substituí-la e passar pelo sistema no Kuwait."

"Desculpe-me, coronel", respondeu o general. "Mas não se esqueça. Você têm veículos suficientes e além disso recebe as peças que encomenda. Às vezes nós recebemos peças velhas, principalmente para os veículos construídos em 2000 ou antes dessa data. Muitas vezes elas não servem, e os veículos permanecem sem conserto."

Um líder da Equipe Militar de Transição, coronel David Brown, o principal conselheiro americano de al-Khazraji, também tentou enfatizar o lado positivo. "Seu sistema é um pouco menos maduro. Mas acho que o exército iraquiano está bem melhor do que muitos dizem. Os batalhões iraquianos estão lutando num nível tático, e já faz um ano."

"Nós formamos novos batalhões, mas eles não tiveram nenhum apoio", interrompeu al-Khazraji. "Não recebemos nada do MoD até agora", disse referindo-se ao Ministério da Defesa.

O general disse que 56 veículos de suas unidades foram destruídos, e um terço dos 178 que sobraram estão quebrados.

Cerca de duas dúzias de oficiais militares sênior se abarrotaram para a sessão de planejamento. Apenas uns poucos eram conselheiros americanos. Um projetor mostrava um mapa em PowerPoint com as áreas movimentadas salpicadas de bombas numa área residencial. Equipes iraquianas de desarmamento de explosivos foram incumbidas de limpar as ruas.

Pequenos pontos nas esquinas designavam os futuros checkpoints no sudeste de Mosul. Estes serão construídos pelos americanos.

Outro slide mostrava o distrito em formato de capacete de Somer, dividido em três áreas. A solução foi importada diretamente de Bagdá, onde os militares americanos dividiram os enclaves dos feudos sectários com quilômetros de barricadas de concreto.

Então a discussão saiu do curso. Bem longe da rotina a ponta de bala das reuniões militares americanas, os iraquianos, muitos deles vestidos com uniformes camuflados que não combinavam entre si, falavam uns mais alto que os outros sem se importando muito com a hierarquia. O ruído das discussões em inglês e árabe encheu a sala.

Brown, um homem delicado, de óculos, cabelos broncos e conduta profissional, tentou dirigir a discussão de maneira socrática.

"O que é que estamos tentando fazer?" perguntou aos comandantes iraquianos. "Qual é o resultado final que vocês querem nesse bairro?"

Al-Khazraji sugeriu que eles construíssem um muro de concreto em volta de Somer.

"Onde você irá encontrar 12 quilômetros de material para fazer uma barreira?" perguntou Brown, mais incrédulo do que socrático.

"Não é tão difícil", respondeu o general. "Os Estados Unidos têm um bom dinheiro."

Mas Johnson disse que os US$ 3 milhões que eles precisariam para esse tanto de concreto estavam além dos recursos de seu batalhão. Os americanos sugeriram que o general se aproximasse do prefeito de Mosul para angariar fundos para a construção da barreira. Mas então al-Khazraji pareceu perder o interesse pela idéia.

"Esse é o melhor plano para controlar os terroristas", disse. "Mas se fizermos esse plano e dividirmos a cidade, Mosul não é como Bagdá. A população vai enlouquecer e poderemos ter distúrbios."

Brown fechou a reunião com outra questão dialética para os comandantes pensaram até o próximo encontro. "Como podemos ganhar essa briga em Mosul, ou vocês querem continuar fazendo a mesma coisa pelos próximos dez anos?"

Al-Khazraji levantou um pouco os ombros, fechou os olhos e levou a mão à testa.

Johnson saiu da sala parecendo cansado. "Não foi exatamente como planejamos", disse, com um sorriso amarelo. "Mas pelo menos estamos fazendo um planejamento."

Operação conjunta
Na noite seguinte, Johnson enviou tropas americanas para o sudeste de Mosul para ajudar a proteger um cruzamento enquanto engenheiros construíam um "checkpoint" no bairro de Somer, na mesma área. Eles deveriam ser acompanhados por tropas iraquianas lideradas pelo comandante de batalhão coronel Ahmed Khouri.

O major Chad Arcand, conselheiro de Khouri, disse que o batalhão recebeu um "dois" na escala de quatro pontos de capacidade operacional que os militares americanos usam para medir o nível de treinamento. Isso significa que o batalhão é capaz de realizar operações do nível de uma companhia e de um batalhão.

Mas Arcand reconheceu que os iraquianos haviam feito poucas operações independentemente.

"Eles fizeram uma enquanto nós estávamos aqui", disse ele. "E estamos tentando fazer com que eles façam operações de inteligência, como quando você ataca um alvo. Fizemos uma operação noturna com cerca de 12 veículos de 80 homens, mas não conseguimos nada."

Arcand também está tentando encorajar Khouri a fazer operações conjuntas com a polícia iraquiana. Mas o coronel diz que os policiais, predominantemente árabes sunitas, têm laços com os rebeldes.

"Nós confiamos nos soldados iraquianos", disse ele. "Todos os meus homens são de Erbil. Mas não dá para confiar 100% na polícia iraquiana. Eles sempre vazam os nossos planos."

Quando o comboio conjunto chegou ao bairro Somer, o toque de recolher da cidade já havia esvaziado as ruas esburacadas de explosões. As tropas americanas definiram um perímetro com seus veículos armados e esperaram enquanto os iraquianos com seus conselheiros americanos conduziam uma série de rápidas buscas nas casas.

Um helicóptero americano viu um homem perambulando fora de casa e enviou uma mensagem via rádio informando sua localização para as unidades iraquianas. Mas de 30 soldados circularam o homem e o encheram de perguntas.

"O que você está fazendo? Quem é você?", perguntou Khouri. O homem parecia ao mesmo tempo aterrorizado e desorientado. "Estou checando o gerador", disse ele repetidamente. Ele morava numa casa próxima, e eventualmente foi solto pelos soldados.

"Esse é um dos principais exemplos da contribuição deles com a luta", disse o capitão Robert Mahoney, comandante da companhia americana, olhando os iraquianos com orgulho.

À distância, uma bomba explodiu com um som abafado. Um comboio da polícia havia sido atingido e um policial estava ferido.

Depois de passar uma hora no checkpoint, Khouri decidiu ir embora, deixando seus homens e a companhia de Mahoney para trás para terminar a missão.

O conselheiro do coronel, Arcand, foi obrigado a segui-lo, apesar de ter dito que estava um pouco surpreso com o fato de que o comandante estava deixando a missão tão cedo. O resto dos soldados ficariam em guarda até depois do amanhecer.

"Mas já é um progresso", disse o major em voz baixa. "Já fizemos cerca de 45 ou 46 missões e essa foi a primeira que ele concordou em participar." Eloise De Vylder

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