UOL Notícias Internacional
 

24/03/2008

A guerra continua, mas onde estão os meios de comunicação?

The New York Times
Richard Perez-Pena
Cinco anos depois, os Estados Unidos continuam em guerra no Iraque, mas existem dias em que seria difícil dizer isso, a partir de uma rápida observação das notícias da televisão, dos jornais e da internet. A atenção dos meios de comunicação no Iraque começou a minguar depois dos primeiros meses de combate, mas até há pouco tempo, como meados do ano passado, ainda era o tópico mais abordado. Desde então, a cobertura sobre o Iraque, pelas mais importantes fontes de notícias norte-americanas despencou para um quinto do que foi no verão (junho/setembro) passado, segundo o Projeto pela Excelência no Jornalismo (Project for Excellence in Journalism).

A queda na cobertura se equipara - e pode ser explicada por ele - ao declínio no interesse público. Pesquisas do Pew Research Center mostram que mais de 50% dos americanos disseram que acompanharam os acontecimentos no Iraque "muito atentamente" nos meses anteriores e posteriores ao início da guerra, mas que isso diminuiu para uma média de 40% em 2006, e tem ficado abaixo de 30% desde o último outono (setembro/dezembro).

Os especialistas apresentam muitas outras explicações para o declínio no foco da mídia, tais como o perigo e os gastos na cobertura no Iraque, e a diminuição dos orçamentos para as redações. No ano passado, as dificuldades na economia e a mais competitiva campanha presidencial de que se tem memória desviaram a atenção e os recursos.

"O Vietnã teve muito mais atenção da mídia porque era uma guerra com um recrutamento que atingia a muito mais pessoas; as pessoas eram mandadas para lá contra sua vontade e muito mais americanos foram mortos," disse Alex S. Jones, diretor do Joan Shorenstein Center on the Press, Politics and Public Policy (Centro sobre Imprensa, Política e Políticas Públicas) de Harvard.

"Em uma guerra convencional, como a Segunda Guerra Mundial, existem mudanças radicais, uma linha de frente que muda de posição, uma narrativa eloqüente," ele disse. Mas depois dos primeiros meses triunfais, o Iraque tornou-se uma guerra de insurgentes versus contra-insurgentes, mais difícil de se compreender, "com mais das mesmas notícias sinistras, um dia após o outro."

As transmissões dos jornais noturnos das três redes de TV aberta dedicaram mais de 4.100 minutos para o Iraque em 2003 e 3.000 em 2004, antes de estacionar em torno dos 2.000 anuais, segundo Andrew Tyndall, que monitora as transmissões e registra análises detalhadas no site tyndallreport.com. E nos últimos meses de 2007, ele informou, as emissoras estavam dedicando metade do tempo que deram ao Iraque no início daquele ano.

Desde o começo do ano passado, o Projeto pela Excelência no Jornalismo, parte do Pew Research Center, uma instituição sem fins lucrativos, acompanhou as reportagens de dezenas dos principais jornais, estações de TV a cabo, redes de TV aberta, sites da Web e programas de rádio. O Iraque representou 18% de suas coberturas mais importantes de notícias nos primeiros nove meses de 2007, mas apenas 9% nos três meses seguintes, e 3% até agora este ano.

O debate político em Washington que dominou a cobertura sobre o Iraque no ano passado quase desapareceu das notícias. E as reportagens sobre acontecimentos no Iraque caíram em mais de dois terços em relação ao ano anterior.

A queda se acelerou com um acentuado declínio da violência no Iraque que começou no final do verão (junho/setembro) passado. Os seis últimos meses foram mais seguros para os soldados americanos do que qualquer outro período comparável, desde que a guerra começou, com 33 mortos por mês, em comparação com 91 por mês durante o ano anterior.

"O total de notícias disponíveis ficou muito menor porque as eleições e as notícias sobre a economia captaram grande parte do espaço," disse Andrew Kohut, diretor do Pew Center.

Não existem dados oficiais para a maior parte da cobertura da mídia antes de 2007. Mas uma checagem nos arquivos de vários jornais de grande e médio porte mostra um declínio ano a ano, nos artigos a respeito do Iraque e um aumento na proporção de informações fornecidas pelas agências noticiosas. Especialistas que acompanham a cobertura dizem que não existe a menor dúvida quanto a essa tendência.

"Eu recebia em média de três a cinco telefonemas por dia para entrevistas a respeito da guerra" nos primeiros anos, disse Michael E. O' Hanlon, pesquisador sênior sobre segurança nacional no Brookings Institution. "Agora recebo menos de um por dia."

Ele afirma que os americanos que apóiam a guerra podem ter deixado de acompanhar as notícias quando as coisas começaram a ir mal, e que os americanos contra a guerra estão menos interessados agora que as notícias são melhores. E os candidatos à presidência, ele disse, mostraram "uma surpreendente falta de interesse em discutir a questão em seus detalhes."

Muitas instituições noticiosas têm menos pessoas no Iraque do que antes, embora não existam números definitivos à disposição. Funcionários da coalizão disseram que embora existissem várias centenas de jornalistas integrados às unidades militares no início da guerra, o número tem sido medido em dezenas, nos últimos meses.

A violência contra jornalistas tornou as reportagens sobre o Iraque caras e difíceis; os executivos do The New York Times disseram que o jornal gasta mais de US$ 3 milhões por ano para cobrir o Iraque. Os riscos forçaram as organizações noticiosas a contratar forças privadas de segurança e empregados iraquianos que pudessem ir aos locais que os ocidentais não podem explorar com segurança. Desde o início da guerra até 2005, os jornalistas e seus funcionários de apoio foram mortos no Iraque numa média de um a cada 12 dias, segundo a contagem mantida pelo Comitê pela Proteção dos Jornalistas, uma entidade sem fins lucrativos. Em 2006 e 2007, a média foi de um a cada oito dias. A maior parte dos mortos era iraquiana.

"O perigo e os gastos são fatores gigantescos," disse Jones. "Os meios noticiosos precisam revisar constantemente o quanto de dinheiro e de risco estão querendo gastar..." Claudia Dall'Antonia

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