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25/03/2008

Krugman: a ausência da crise financeira na campanha eleitoral dos EUA

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Nós agora estamos no meio de uma crise financeira épica, que deveria estar no centro de debate eleitoral deste ano. Mas não está.

Eu não espero que campanhas presidenciais tenham todas as respostas para nossa atual crise -até mesmo os especialistas financeiros estão lutando para conseguir acompanhar os eventos. Mas eu acho que deveríamos ter mais respostas, em particular um compromisso mais claro com a reforma financeira, do que recebemos até agora.

Na verdade, eu não espero muito de John McCain, que reconheceu não saber muito sobre economia e negou ter dito isso. De qualquer forma, ultimamente ele está bastante ocupado demonstrando que também não sabe muito sobre o Oriente Médio.

Mas o silêncio da campanha de McCain sobre a crise financeira decepcionou até mesmo minhas baixas expectativas.

E quando os assessores de economia de McCain falam sobre os problemas econômicos, eles não inspiram confiança. Por exemplo, na semana passada um conselheiro de economia de McCain -Kevin Hassett, co-autor de "Dow 36,000"- insistiu que tudo estaria bem se os governos locais e estaduais não tivessem tentado limitar o crescimento suburbano. Sério.

No lado democrata, é um tanto decepcionante o fato de que Barack Obama, cuja campanha compreensivelmente buscou contrastar sua oposição desde o início à guerra no Iraque com o apoio inicial de Hillary Clinton, tenha tentado conseguir um "dois pelo preço de um" ao sugerir que a guerra, além de todos os seus outros custos, é responsável por nossos problemas econômicos.

A guerra é de fato um desperdício grotesco de recursos, que colocará fardos imensos a longo prazo sobre a população americana. Mas é errado culpar a guerra pela encrenca econômica atual: a curto prazo, os gastos na guerra na verdade estimulam a economia. Lembre-se, o índice mais baixo de desemprego experimentado pelos Estados Unidos no último meio século ocorreu no auge da Guerra no Vietnã.

Hillary Clinton, até onde posso dizer, não fez qualquer declaração econômica problemática. Mas ela, como Obama, tem se mantido decepcionantemente quieta a respeito da questão chave: a necessidade de reformar nosso sistema financeiro fora de controle.

Permita-me explicar.

Os Estados Unidos saíram da Grande Depressão com uma rede de segurança financeira bastante eficaz, baseada em um quid pro quo fundamental: o governo se mantinha de prontidão para socorrer bancos caso se vissem em apuros, mas apenas sob a condição de que esses bancos aceitassem a regulação dos riscos que seriam autorizados a correr.

Com o tempo, muitos dos papéis tradicionalmente exercidos pelos bancos regulados foram assumidos por instituições desreguladas -"o sistema bancário nas sombras", que empregava arranjos financeiros complexos para contornar as regras de segurança.

Agora o sistema bancário nas sombras está enfrentando o equivalente do século 21 à onda de corrida aos bancos que varreu os Estados Unidos no início dos anos 30. E o governo está correndo para ajudar, com centenas de bilhões do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e centenas de bilhões adicionais de instituições apoiadas pelo governo, como Fannie Mae, Freddie Mac e Federal Home Loan Banks.

Dados os riscos à economia em caso de um colapso do sistema financeiro, esta missão de resgate é justificada. Mas não é preciso ser um radical econômico, ou mesmo um reformista ruidoso como o deputado Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, para ver que o que está acontecendo agora é o quid sem o quo.

Na semana passada, Robert Rubin, o ex-secretário do Tesouro, declarou que Frank está certo sobre a necessidade de uma maior regulação. Rubin colocou de forma clara: se as empresas de Wall Street podem contar em serem socorridas como bancos, então precisam ser reguladas como bancos.

Mas será que essa lógica prevalecerá politicamente?

Não se McCain chegar à Casa Branca. Seu principal conselheiro econômico é o ex-senador Phil Gramm, um defensor fervoroso da desregulação financeira. Na verdade, eu argumentaria que fora Alan Greenspan, ninguém fez mais que Gramm para tornar esta crise possível.

Por sua vez, ambos os democratas estão realizando campanhas mais ou menos populistas. Mas pelo menos até agora, nenhum democrata declarou um compromisso claro com a reforma financeira.

É simplesmente uma omissão? Ou é um mau sinal? A história recente oferece motivos para preocupação.

Olhando para trás, está claro que o governo de Bill Clinton acompanhou no embalo as ações para desregulação do setor financeiro. E é difícil evitar a suspeita de que grandes contribuições de campanha de Wall Street contribuíram para isso.

No ano passado, não havia dúvida de que as contribuições financeiras de Wall Street para a nova maioria democrata no Congresso ajudaram a preservar, pelo menos por ora, as brechas no código tributário que permitem aos administradores de fundos hedge pagarem alíquotas menores de impostos do que suas secretárias.

Agora, o setor de investimento e títulos mobiliários está despejando dinheiro tanto nos cofres de Obama quanto de Hillary Clinton. E estes doadores certamente acreditam que estão comprando algo em troca.

Vamos esperar que estejam errados. George El Khouri Andolfato

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