UOL Notícias Internacional
 

26/03/2008

Moderados podem ser a chave no combate aos terroristas no Paquistão

The New York Times
Carlotta Gall*

Em Peshawar, Paquistão
Um dos resultados mais significativos das eleições no Paquistão em fevereiro foi a derrota dos partidos religiosos que administraram esta província de fronteira nos últimos cinco anos. No lugar deles, os eleitores elegeram moderados de um pequeno partido regional que agora poderá exercer uma grande influência na estratégia do Paquistão em relação aos fundamentalistas paquistaneses.

A vitória do Partido Nacional Awani, ou ANP, foi saudada pelas autoridades ocidentais e pelos paquistaneses como uma clara rejeição ao Taleban e aos partidos religiosos que o apóia aqui na província da Fronteira Noroeste. O partido agora fará parte da coalizão de governo no Parlamento nacional, assim como estará em uma posição chave para iniciar um diálogo com os militantes, algo que o governo Bush vê com cautela.

A província não apenas foi a que mais sofreu com os militantes, que estão baseados nas áreas tribais adjacentes, mas a maioria dos militantes vem do mesmo grupo étnico pashtun que o ANP. Os pashtuns habitam esta região, em ambos os lados da fronteira afegã. O ANP, um partido nacionalista pashtun, e os militantes paquistaneses falam a mesma língua.

Max Becherer/Polaris/The New York Times 
Homem bebe chá em Peshawar, região onde se concentram grupos terrotistas

As conversas entre eles já começaram discretamente, com alguns grupos militantes e seus simpatizantes enviando mensagens e emissários às autoridades recém-eleitas, disse Afrasiab Khattak, o secretário-geral do ANP aqui. "Eles viram um governo chegando com um novo paradigma, com um plano que não se restringe a apenas bombardear", ele disse.

Apesar do partido também ter uma história de não-violência na tradição de Gandhi, Khattak foi rápido em afastar quaisquer sugestões, por membros do governo Bush, de que apaziguaria os militantes em troca de paz.

Khattak disse que conversas com a Al Qaeda e outros militantes estrangeiros, muitos deles de terras árabes e da Ásia Central, estão fora de questão. "Nós não temos uma língua comum com eles", ele disse.

O ANP diz que sua prioridade é colocar um fim à violência. Como seus aliados no governo nacional -o Partido do Povo Paquistanês e a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz- ele apóia um menor uso das forças armadas para reduzir as mortes de civis, o que voltou os paquistaneses contra a guerra. Para isso, ele propõe o desenvolvimento nas áreas tribais e um diálogo sustentado que, ele espera, responderá a muitas das queixas com o governo que levaram os grupos étnicos a penderem para os militantes.

Ele deseja mudanças constitucionais para dar às províncias uma maior autonomia e mais consulta na escolha do governador da província, que é nomeado pelo governo em Islamabad, a capital, e tem influência direta sobre as áreas tribais. Uma meta de longo prazo adicional é permitir que os partidos políticos trabalhem nas áreas tribais e tragam a região para o centro da política paquistanesa.

Os líderes do ANP dizem que sua força vem da tradição tribal pashtun da hujra: tradicionalmente, a sala de recepção de um proprietário de terras, onde os convidados são recebidos, disputas solucionadas e decisões são tomadas pelos anciãos.

Elevar esta tradição reverteria a política do Estado por décadas. Desde a independência do Paquistão há 60 anos, o governo suprimiu as tendências nacionalistas entre as minorias étnicas, temendo desintegração, e encorajou o Islã como força unificadora.

Muitos aqui vêem o retorno do ANP como uma reafirmação da cultura tribal sobre a militância islâmica propagada pelos mulás e líderes de partidos religiosos que formaram o último governo. Os líderes do ANP dizem que trabalharão segundo o código tribal dos pashtuns. "Nós gostaríamos de confrontar os militantes em nosso próprio terreno", disse Khattak.

Mas as conversações não incluiriam qualquer um. As negociações, ele disse, seriam provavelmente insustentáveis com militantes paquistaneses calejados como Baitullah Mehsud, o homem acusado de ser o mentor da maioria dos atentados suicidas recentes no Paquistão, incluindo aquele no qual a líder de oposição Benazir Bhutto foi morta.

O ANP é um dos mais fortes críticos da forma como o governo do presidente Pervez Musharraf lidou com os militantes, em particular das negociações de paz com eles nos últimos anos no Waziristão do Sul e do Norte, que o partido acusou de ter sido uma conciliação que permitiu que os militantes se reagrupassem e se tornassem mais fortes. Ele há muito acusa os serviços de inteligência do Paquistão de apoiarem os grupos militantes islâmicos, para que pudessem conduzir insurreições no Afeganistão e na Caxemira.

Apesar das forças armadas e serviços de inteligência paquistaneses atualmente estarem sob ataque dos militantes, o ANP mantém que o establishment militar e de inteligência há anos ignora a necessidade de conter as atividades dos militantes ou fechar seus santuários nas áreas tribais, até mesmo permitindo aos militantes permanecerem ativos para futuro uso estratégico.

O ANP diz que a política de laissez-faire do último governo em relação aos militantes foi na prática uma de conivência. Outro alto membro do partido, que falou sob a condição de anonimato para poder comentar sobre as conversações confidenciais, disse ter dito às autoridades americanas que a melhor coisa que poderiam fazer para combater o terrorismo era alertar a inteligência paquistanesa a parar de apoiar os militantes.

"Vocês precisam dizer mais uma vez, 'ou estão conosco ou contra nós'", disse o alto membro, se referindo ao seu alerta.

Khattak era cético em relação ao cessar-fogo do governo com Mehsud, em fevereiro, que ele chamou de outro exemplo dos dois pesos e duas medidas do governo, que permite que os militantes sobrevivam.

Um alto membro do ANP, que pediu para que seu nome não fosse citado por motivos de segurança, disse que o partido soube de um campo de treinamento de militantes no distrito tribal de Mohmand, no ano passado, que foi a fonte dos ataques na área vizinha de Charsadda contra membros do partido e duas vezes contra Aftab Ahmed Khan Sherpao, o ex-ministro do Interior. Apesar de seus alertas, o governo não fez nada por cinco meses e agiu apenas após a morte de Bhutto, ele disse.

O partido também acusou o governo de Musharraf de duplicidade em relação ao Afeganistão, ao professar cooperação, ao mesmo tempo em que não faz nada para impedir que o Taleban afegão opere no Paquistão.

Um governo liderado pelo ANP na fronteira melhoraria os laços com o Afeganistão e com o presidente Hamid Karzai, que tem ligação estreita com os líderes do ANP, disse um diplomata ocidental que pediu que seu nome não fosse citado segundo o protocolo. O líder do partido, Asfandyar Wali Khan, já pediu por uma política coesa para a fronteira por parte do Paquistão, Afeganistão e das forças da coalizão, disse o diplomata.

Mas apesar de sua desconfiança do establishment militar e de inteligência, o ANP e o Partido do Povo Paquistanês ainda vêem um papel para o exército na luta contra o terrorismo, mas eles querem que se restrinja a operações controladas para impedir a morte de civis.

"Os militares devem ser usados apenas em operações cirúrgicas baseadas em boa inteligência", disse Khattak.

As autoridades de cada partido defendem uma retirada do exército das operações diárias nas áreas tribais e um maior uso da polícia e das milícias tribais nas operações de contra-insurreição, um plano que os Estados Unidos já auxiliam.

As forças armadas devem trabalhar com as novas forças políticas no governo e com os Estados Unidos, Otan e outros participantes internacionais, disse Khattak.

"Apenas se houver um triângulo formado por nós, o exército e a comunidade internacional é que funcionará", ele disse. "Se funcionar, então ainda há alguma esperança."

*Ismail Kahn contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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