UOL Notícias Internacional
 

27/03/2008

Empresa contratada pelos EUA fornece munição podre ao Afeganistão

The New York Times
C.J. Chivers
Desde 2006, quando a insurreição no Afeganistão se intensificou, o governo afegão tem dependido da logística americana e apoio militar na guerra contra a Al Qaeda e o Taleban.

Mas para armar as forças afegãs que esperam que liderarão esta batalha, as forças armadas americanas contam desde o início do ano passado com uma nova empresa comandada por um homem de 22 anos e cujo vice-presidente é um massagista licenciado.

Com a concessão de um contrato federal em janeiro do ano passado no valor de quase US$ 300 milhões, a empresa, a AEY Inc., que opera em um escritório sem identificação em Miami Beach, Flórida, se tornou a principal fornecedora de munições para o exército e forças policiais do Afeganistão.

Tyler Hicks/The New York Times 
Policial observa munição chinesa com mais de 40 anos enviada pela AEY ao Afeganistão

De lá para cá, a empresa forneceu munição com mais de 40 anos de idade e em embalagens em decomposição, segundo um exame das munições feito pelo "The New York Times" e entrevistas com autoridades e oficiais americanos e afegãos. Grande parte da munição vem de antigos estoques do antigo bloco comunista, incluindo estoques que o Departamento de Estado e a Otan determinaram como sendo não confiáveis e obsoletos e aos quais destinaram milhões de dólares para serem destruídos.

Na compra da munição, a empresa também trabalhou com intermediários e uma empresa fantasma que estão em uma lista federal de entidades suspeitas de tráfico ilegal de armas.

Além disso, dezenas de milhões de cartuchos para rifles e metralhadoras foram fabricados na China, o que torna sua aquisição uma possível violação da lei americana. O presidente da empresa, Efraim E. Diveroli, também foi secretamente gravado em uma conversa sugerindo corrupção na compra por sua empresa de mais de 100 milhões de cartuchos de munição velhos na Albânia, segundo gravações de áudio da conversa.

Nesta semana, após repetidos pedidos de informação pelo "Times" sobre o desempenho da AEY, o Exército suspendeu a empresa de quaisquer futuros contratos federais, citando o envio de munição chinesa e alegando que Diveroli enganou o Exército sobre a procedência da munição.

Diveroli, contatado por telefone, disse não estar ciente da ação. O Exército planejava notificar sua empresa por carta registrada na quinta-feira, segundo a correspondência interna fornecida por um oficial militar.

Mas problemas com a munição eram evidentes no último trimestre do ano passado em lugares como Nawa, Afeganistão, um posto avançado próximo da fronteira paquistanesa, onde um tenente-coronel afegão inspecionava a munição para rifle no chão sujo de sua delegacia de polícia. Logo após chegarem, as caixas de papelão cederam e seu conteúdo se espalhou, revelando munição fabricada na China em 1966.

"É isto o que eles nos dão para lutar", disse o coronel, Amanuddin, que como muitos afegãos possui apenas um nome. "Isto nos deixa preocupados, porque grande parte disso é lixo." À medida que envelhece ao longo de décadas, a munição freqüentemente se torna menos potente, confiável e precisa.

A AEY é uma das muitas empresas de defesa antes desconhecidas que prosperam desde 2003, quando o Pentágono começou a gastar bilhões de dólares no treinamento e fornecimento de equipamento para as forças locais no Afeganistão e Iraque. Sua ascensão da obscuridade antes parecia torná-la um exemplo do sucesso na promoção pelo governo Bush de fornecedores e prestadores de serviços privados como elementos integrais da estratégia de guerra. Mas um exame do retrospecto da AEY, por meio de entrevistas em vários países, análises de documentos confidenciais do governo e exame de parte da munição, sugere que os oficiais de aquisição do Exército, sob pressão para armar as tropas afegãs, permitiram que uma empresa imatura entrasse no mundo obscuro do comércio internacional de armas em nome do Pentágono -o fazendo com mínima supervisão e por meio de um contrato vago com poucas restrições.

Além da suspensão desta semana, a AEY está sob investigação do inspetor-geral do Departamento de Defesa e da Agência de Imigração e Alfândega, provocado por queixas sobre a qualidade e origem da munição que fornecia, assim como alegações de corrupção.

Diveroli, em uma breve entrevista por telefone no final do ano passado, negou ter feito qualquer coisa errada. "Eu sei que minha empresa faz tudo 100% em ordem e é apenas com isso que me preocupo", ele disse.

Ele também sugeriu que suas atividades devem ser protegidas da atenção pública. "A AEY está trabalhando em um projeto moderadamente confidencial do Departamento de Defesa", ele disse. "Eu realmente não quero falar sobre detalhes."

O empresário encaminhou as perguntas ao seu advogado, Hy Shapiro, que ofereceu uma única declaração por e-mail. "Apesar da AEY continuar trabalhando arduamente para cumprir suas obrigações segundo seu contrato com o Exército dos Estados Unidos, seus representantes não estão preparados no momento a discutir os detalhes", ele escreveu.

Como parte da suspensão, nem Diveroli e nem sua empresa podem participar de qualquer licitação federal até que as alegações do Exército sejam resolvidas. Mas ele será autorizado a fornecer a munição já encomendada segundo o contrato afegão, de acordo com a correspondência interna das forças armadas.

Em janeiro, oficiais americanos em Cabul, preocupados com a munição da AEY, contataram o Arsenal de Rock Island do Exército, em Illinois, e levantaram a possibilidade de cancelamento do contrato. E os oficiais do Comando de Manutenção do Exército, a autoridade responsável pela emissão dos contratos no arsenal, após se reunirem com a AEY no final de fevereiro, disseram estar reforçando os padrões de embalagem das munições enviadas para a guerra.

Mas mesmo após esta reunião, a AEY enviou outra carga de quase 1 milhão de cartuchos de munição ao Afeganistão que o Comando Conjunto de Segurança considerou como sendo inadequados. O tenente-coronel David G. Johnson, o porta-voz do comando, disse que apesar de não haver relatos de falha na munição, algumas estavam em condição tão ruim que as forças armadas decidiram não utilizá-las. "Nossa resposta honesta é que a munição é de qualidade abaixo da desejável; a munição parece não atender aos padrões que muitos de nós estamos acostumados", disse Johnson. "Nós não estamos contentes com a forma como foi entregue."

Vários oficiais disseram que os problemas teriam sido evitados caso o Exército tivesse redigido os contratos e examinado os candidatos nas licitações mais cuidadosamente.

Registros públicos mostram que os contratos da AEY desde 2004 custaram mais de um terço de bilhão de dólares. Diveroli estabeleceu um valor mais alto: ele alegou ter realizado US$ 200 milhões em negócios por ano.

Vários oficiais militares e funcionários do governo, que falaram sob a condição de anonimato por causa das investigações, questionaram como Diveroli, e um pequeno grupo de homens principalmente na faixa dos 20 anos e sem ampla experiência militar ou em aquisição, conseguiram obter um contrato tão vital do governo.

"Muitos de nós estão fazendo a pergunta", disse um alto funcionário do Departamento de Estado. "Como este sujeito conseguiu todos estes contratos?'

Uma empresa ambiciosa
A intensidade da insurreição afegã alarmou o Pentágono em 2006, de forma que a unidade americana que treina e equipa as forças afegãs fez uma grande encomenda de munições por meio do comando logístico do Exército.

A encomenda era por 52 tipos de munição: cartuchos para rifle, pistola e metralhadora, granadas de mão, foguetes, morteiros, munição para tanques e mais. Ao todo, ela cobria centenas de milhões de cartuchos. As forças afegãs usariam basicamente as armas desenvolvidas na União Soviética. Isto significava que grande parte da munição na lista só poderia ser comprada no exterior.

A AEY foi uma das 10 empresas que participaram da licitação, encerrada em setembro de 2006.

Michael Diveroli, o pai de Efraim, abriu a empresa em 1999, quando Efraim tinha 13 anos. Por vários anos, um período em que a empresa parecia ter atividade limitada, Michael Diveroli, que atualmente opera uma empresa que fornece para a polícia na mesma rua em que fica o escritório da AEY, era listado como único executivo da empresa.

Em 2004, a AEY passou a listar Efraim Diveroli, na época com 18 anos, como um diretor com participação acionária de 1%.

A experiência do jovem Diveroli com munições parece limitada a um breve emprego em Los Angeles na Botach Tactical, uma empresa que fornece para a polícia e forças armadas e que é de propriedade de seu tio, Bar-Kochba Botach.

Diveroli interrompeu uma entrevista quando perguntado sobre a Botach Tactical. Botach, contatado por telefone, disse que tanto Michael quanto Efraim Diveroli trabalharam brevemente para ele, mas após verem a corrida por contratos federais após o início das guerras, resolveram se virar por conta própria.

"Eles me deixaram e levaram minha base de clientes com eles", ele disse. "Eles basicamente disseram: 'Por que temos que trabalhar para Botach? Vamos fazer isso sozinhos'."

Quando Efraim Diveroli chegou em Miami Beach, a AEY se transformou ao buscar agressivamente contratos ligados à segurança.

Ela conquistou um contrato de US$ 126 mil para fornecimento de munições para as Forças Especiais; a AEY também forneceu munição ou equipamento em 2004 ao Departamento de Energia, Agência de Proteção Ambiental, Administração de Segurança nos Transportes e ao Departamento de Estado.

Em 2005, quando Diveroli se tornou presidente da AEY aos 19 anos, a empresa estava participando de licitações em várias agências governamentais e fornecendo equipamento paramilitar -armas, capacetes, coletes à prova de balas, traje para bomba, baterias e carregadores para aparelhos de raio X- para ajuda americana ao Paquistão, Bolívia e outros lugares.

Também fornecia suprimentos para as forças armadas americanas no Iraque, onde seus negócios incluíam um contrato de US$ 5,7 milhões para rifles para as forças especiais.

Duas autoridades federais envolvidas em contratos em Bagdá, disseram que a AEY rapidamente desenvolveu uma má reputação. "Ela não era confiável, ou quando passava, conseguiam após muitas desculpas", disse um deles, que pediu para que seu nome não fosse mencionado por não estar autorizado a falar com os repórteres.

Àquela altura, as pressões estavam começando na vida de Efraim Diveroli. Em novembro de 2005, uma jovem buscou um pedido de proteção contra ele junto à divisão de violência doméstica do Tribunal de Dade County.

A mulher acabou não comparecendo em juízo e suas acusações nunca foram julgadas. Mas nos autos do processo, a mulher disse que após o término de seu relacionamento com Diveroli, ele a perseguia e deixava mensagens ameaçadoras.

Certa vez, segundo os autos, o comportamento de Diveroli incluiu "empurrá-la contra o chão e não permitir que partisse durante uma discussão". Em outras ocasiões, ela relatou, Diveroli chegava à casa dela sem avisar e embriagado, "circulando ao redor da casa, batendo em portas e janelas".

A mulher o temia, segundo os autos, porque o comportamento dele era assustador.

Diveroli adiou o processo com base na segurança nacional. "Eu sou o presidente e único representante oficial da minha empresa", ele escreveu ao juiz em 8 de dezembro de 2006. "Minha empresa atualmente é de grande importância ao país, na condição de Fornecedor Autorizado da Defesa para o Governo dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo no Iraque, e estou fazendo o melhor que poço para fornecer às nossas tropas todo o equipamento que precisam em contratos chave pendentes."

Enquanto a proposta da AEY para seu maior contrato com o governo era considerada, as dificuldades pessoais de Diveroli prosseguiam. Em 26 de novembro de 2006, a polícia de Miami Beach foi chamada ao condomínio dele durante uma discussão entre ele e outra namorada. Segundo o boletim de ocorrência, ele atirou as roupas dela no corredor e mandou que ela saísse.

Uma testemunha disse à polícia que Diveroli a arrastou de volta ao apartamento. A polícia encontrou a mulher chorando; ela disse que não tinha sido arrastada. Diveroli não foi processado.

Em 21 de dezembro de 2006, a polícia foi novamente chamada de volta ao condomínio. Diveroli e o vice-presidente da AEY, David M. Packouz, estavam brigando com um manobrista.

A briga começou, segundo a polícia, depois que o manobrista se recusou a dar a Diveroli suas chaves e Diveroli entrou na garagem para pegá-las ele mesmo. Uma testemunha disse que Diveroli e Packouz espancaram o homem; fotos policiais mostravam hematomas e arranhões em seu rosto e costas.

Quando os policiais revistaram Diveroli, eles encontraram uma carteira de motorista falsa, que o apontava como sendo quatro anos mais velho e com idade suficiente para comprar álcool apesar de ser menor de idade. Seu aniversário tinha sido no dia anterior.

"Eu nem mais preciso disso", ele disse para os policiais, segundo o boletim. "Eu tenho 21 anos."

Diveroli foi acusado de agressão, uma contravenção, e de posse de documento roubado ou falsificado.

A segunda acusação colocava sua empresa em risco. Diveroli tinha licença federal para posse de arma de fogo, necessária para seu trabalho. Com uma condenação por crime sua licença seria cancelada.

(Packouz foi acusado pela agressão e a acusação foi posteriormente retirada; ele se recusou a ser entrevistado. Para evitar uma condenação em sua ficha, Diveroli entrou em um programa alternativo de seis meses para réus primários em maio de 2007, o que lhe poupou de um julgamento.)

Um parente pagou a fiança de US$ 1 mil para Diveroli enquanto seu contrato para o Afeganistão passava pela análise final.

Para ser aceita, a empresa tinha que ser, no jargão do Exército, "uma empresa responsável", o que exigia um exame de sua solidez financeira, capacidade de transporte, desempenho anterior e cumprimento da lei e das regulações para contratos públicos. Na semana seguinte ao parente ter pago sua fiança, o Bank of America Investment Services em Miami forneceu a Diveroli uma carta certificando que sua empresa dispunha de dinheiro suficiente para dar início à compra de munições em grande escala. Ele declarou que a AEY tinha US$ 5.469.668,95 em uma conta.

O contrato foi concedido à AEY em janeiro de 2007. Ao ser perguntado por que escolheu a AEY, o Comando de Manutenção do Exército respondeu por escrito: "A proposta da AEY apresentou o melhor valor ao governo".

Arsenais do bloco oriental
Tanto o Exército quanto a AEY tratavam as fontes das munições compradas pela empresa como assunto confidencial, se recusando a dizer como e onde a empresa as obteve, os preços pagos ou as quantidades entregues.

Mas registros fornecidos por um oficial preocupado com a atuação da empresa, um denunciante nos Bálcãs e pesquisadores de tráfico de armas na Europa, assim como entrevistas com várias pessoas que trabalham em arsenais de Estado na Europa, mostram que a AEY comprava de depósitos no velho bloco oriental, incluindo Albânia, República Tcheca, Hungria, Cazaquistão, Montenegro, Romênia e Eslováquia.

Estes depósitos variavam de bunkers com controle de temperatura a depósitos sem calefação, repletos de munição exposta, em deterioração. Alguns arsenais continham munição considerada como sendo de alta qualidade. Outras eram sucata de armas abandonadas da era soviética.

O contrato do Exército fazia pouco para distinguir entre as duas.

Quando os Estados Unidos ou a Otan compram munição para si mesmos, o processo é regulado por padrões de garantia de qualidade que cobrem a manufatura, embalagem, armazenamento, teste e transporte.

Os padrões existem em parte porque munições são perecíveis. À medida que envelhecem, o propelente e explosivos sofrem degradação, e as cápsulas são suscetíveis à exposição ao clima. As condições ambientais -umidade, vibração, mudanças de temperatura- aceleram a degradação, tornando as munições menos confiáveis.

As regras da Otan exigem que a munição seja testada metodicamente ao longo de sua vida; amostras são disparadas e as velocidades e precisão são registradas.

Para os cartuchos de rifles, os testes começam aos 10 anos, segundo Peter Courtney-Green, chefe do Escritório de Munição da Agência de Suprimento e Manutenção da Otan.

A União Soviética, que projetou a munição comprada pela AEY, desenvolveu testes semelhantes, que ainda são empregados. Mas quando o Exército redigiu seu contrato para os afegãos, ele não exigiu nem os padrões da Otan e nem os russos. Ele exigiu dos participantes da licitação apenas que as munições devem ser "úteis e que possam ser fornecidas a todas as unidades sem qualificação".

O que isto significava não foi definido. Um oficial do Comando de Manutenção do Exército disse que devido à munição ser para armas estrangeiras, portanto consideradas "não padrão", bastava que servissem para as armas às quais eram destinadas.

"Não há exigência de testes específicos e não há limite de idade", disse Michael Hutchison, vice-diretor de aquisições do comando. "Como a munição não é a padrão do estoque americano, o Exército não possui padrões de embalagem ou qualidade para essa munição."

Quando compra munições desse tipo, disse Hutchison, o Comando de Manutenção do Exército emprega os padrões do "cliente" -o que significa as unidades do Exército no Afeganistão. E o cliente, ele disse, não estabeleceu exigências de idade ou testes.

Diante de padrões vagos, a AEY saiu à procura. Uma parada foi a Albânia, um Estado fechado durante os tempos soviéticos que agora tenta ingressar na Otan. A Albânia conta com estoques imensos de armamentos, em grande parte fornecidos pela China nos anos 60 e 70.

A qualidade destes estoques varia muito, disse William D.G. Hunt, um oficial britânico, técnico em munição e aposentado que avaliou todo o estoque para o Ministério da Defesa da Albânia de 1998 a 2002. Ele disse que uma força que planejasse usar as munições tinha motivos para se preocupar: pelo menos 90% dos estoques tinham mais de 40 anos.

"Se houver qualquer necessidade de uso destes estoques para fins de combate, eu teria muitas dúvidas a respeito", ele disse. "Eu não estou sugerindo que toda a munição vá falhar. Mas seu desempenho cairia de forma drástica. Está abaixo do padrão, certamente."

Os problemas com a degradação das munições da Albânia ficaram evidentes no início deste mês, quando um depósito nos arredores de Tirana, a capital da Albânia, sofreu uma série de explosões, matando pelo menos 22 pessoas, ferindo pelo menos 300 outras e destruindo centenas de casas.

Antes dos fornecedores do Exército começarem a comprar destes depósitos, a avaliação das munições albanesas pelo Ocidente era clara devido aos programas que patrocinava para destruí-las. Até 2007, os Estados Unidos contribuíram com US$ 2 milhões para destruir o excesso de armas de pequeno porte e 2 mil toneladas de munição na Albânia, segundo o Departamento de Estado.

Um programa da Otan, que foi encerrado no ano passado, envolveu 16 países ocidentais, que contribuíram com cerca de US$ 10 milhões para destruição de 8.700 toneladas de munição obsoleta. Os Estados Unidos contribuíram com US$ 500 mil. Entre os itens destruídos estavam 104 milhões de cartuchos de 7,62 mm -exatamente a munição que a AEY obteve junto à agência estatal de exportação de armas albanesa.

A Albânia ofereceu vender dezenas de milhões de cartuchos produzidos desde os anos 50. Para testes, um representante da AEY de 25 anos recebeu 1.000 cartuchos para disparar, segundo Ylli Pinari, o diretor da agência de exportação de armas na época da venda.

Nenhum desempenho balístico foi registrado, ele disse. Os cartuchos foram disparados manualmente.

Nesta base, a AEY comprou mais de 100 milhões de cartuchos para atender a encomenda do Pentágono. Os cartuchos, segundo as listas de embalagem, datavam dos anos 1960.

A empresa também contratou um empresário local, Kosta Trebicka, para remover a munição de seus engradados de madeira e caixas metálicas hermeticamente seladas -a embalagem militar padrão que protege a munição de sujeira e umidade, e ajuda a assegurar sua confiabilidade e facilidade de transporte em campo.

Trebicka, em entrevistas, disse que Diveroli queria descartar os engradados e caixas metálicas para reduzir o peso e custo do transporte aéreo e maximizar os lucros. Vários oficiais americanos disseram suspeitar que a embalagem tenha sido removida por apresentar identificação chinesa e a idade da munição.

A conexão tcheca
Enquanto os cartuchos na Albânia estavam sendo preparados para envio ao Afeganistão, Diveroli começou a procurar por munição na República Tcheca para atender à encomenda do Ministério do Interior do Iraque.

Em maio de 2007, segundo dois funcionários americanos, o governo tcheco contatou a embaixada americana em Praga com uma preocupação: a AEY estava comprando 9 milhões de cartuchos de Petr Bernatik, um cidadão tcheco acusado pelas autoridades tchecas de tráfico ilegal de armas.

As acusações incluíam venda de granadas propelidas por foguete em violação ao embargo internacional ao Congo, assim como vendas ilegais de armas para a Eslováquia.

Bernatik negou publicamente ambas as acusações. Mas foram consideradas críveis o bastante em Washington para ele ser colocado na lista de vigilância do Controle de Comércio da Defesa, segundo um dos funcionários americanos.

A lista, mantida pelo Departamento de Defesa, é usada para impedir que mercadores americanos negociem com mercadores suspeitos, em parte para impedir que empresas legais de armas enriqueçam ou legitimem as redes do mercado negro.

A AEY nunca foi implicada em vendas no mercado negro. Mas o governo tcheco, que tinha conhecimento da venda, perguntou à embaixada americana se queria Bernatik envolvido nos negócios da AEY, segundo os dois funcionários americanos, que pediram anonimato por não estarem autorizados a compartilhar o conteúdo de discussões diplomáticas.

Os Estados Unidos não tentaram bloquear a transação, disse um dos funcionários americanos, em parte porque equipar o Iraque era do interesse dos Estados Unidos e também porque Bernatik tinha sido acusado, mas não condenado.

Em 7 de maio de 2007, o governo tcheco emitiu uma licença de exportação. Bernatik, em uma entrevista por telefone, disse que arranjou sete vôos para o Iraque para a AEY no ano passado. "Nós tínhamos uma colaboração normal de negócios", ele disse.

Um intermediário misterioso
O comércio internacional de armas opera em parte às claras e em parte nas sombras, assim como está repleto de empresas fantasmas de vida curta, intermediários e corrupção oficial. Os governos há anos tentam regulá-lo, com sucesso limitado.

Quando Diveroli começou a atender os imensos pedidos do Exército, ele entrou em um mundo obscuro, e em sua breve entrevista ele sugeriu que estava ciente de que corrupção poderia se intrometer em seus negócios na Albânia. "O que acontece no Ministério da Defesa da Albânia?", ele disse. "Quem é limpo? Quem é sujo? Não queira saber a respeito."

Na forma como os negócios da AEY foram estruturados, Diveroli, pelo menos oficialmente, não lidava diretamente com as autoridades albanesas. Em vez disso, uma empresa intermediária registrada em Chipre, a Evdin Ltd., comprava primeiro a munição e então a revendia para a empresa de Diveroli.

Um embalador local envolvido no negócio, Trebicka, disse que suspeitava que a finalidade da Evdin era desviar dinheiro para as autoridades albanesas.

As compras, disse Trebicka, geravam lucro fácil: a Albânia vendia munição para a Evdin por US$ 22 por 1.000 cartuchos, ele disse, e a Evdin as vendia para a AEY por muito mais. A diferença, ele disse suspeitar, era dividida entre as autoridades albanesas, incluindo Pinari, na época o chefe da agência de exportação de armas, e o ministro da Defesa na época, Fatmir Mediu.

(Mediu renunciou na semana passada após as explosões no depósito de munições; Pinari foi preso.)

O governo albanês está enfurecido com as alegações de Trebicka. Sali Berisha, o primeiro-ministro, Mediu e Pinari negaram qualquer envolvimento nos negócios. Mas Trebicka disse que após expor suas preocupações com a Evdin ao Ministério da Defesa, sua empresa foi forçada a abandonar o contrato de mudança de embalagem.

Em 11 de junho de 2007, Trebicka e Diveroli se condoeram por telefone sobre os problemas em fazer negócios na Albânia. Trebicka gravou sigilosamente a conversa e posteriormente entrou as gravações aos investigadores americanos.

A conversa, disse Trebicka, mostrava que a empresa americana estava ciente da corrupção em seus negócios na Albânia e que Heinrich Thomet, um mercador de armas suíço, estava por trás da Evdin.

Nas gravações, que Trebicka compartilhou com o "Times", Diveroli sugere que Thomet, chamado de "Henri", estava atuando como intermediário.

"Pinari precisava de alguém como Henri no meio para cuidar dele e de seus amigos, o que não é da minha conta", disse Diveroli. "Eu não quero saber sobre estes negócios. Eu quero saber sobre os negócios legítimos."

Diveroli recomendou que Trebicka tentasse recuperar seu contrato enviando "uma de suas garotas" para fazer sexo com Pinari. Ele sugeriu que dinheiro também poderia ajudar.

"Vamos deixá-lo feliz; talvez ele lhe dê mais uma chance", ele disse. "Se ele obtiver $ 20 mil de você..."

No final, Diveroli pareceu lamentar seus negócios com a Albânia. "Eu cheguei até o primeiro-ministro e seu filho", ele disse. "Não dá para combater essa máfia. Ela ficou grande demais. Os animais simplesmente saíram de controle."

Em trocas de e-mail, Thomet negou um papel oficial na Evdin. Seu envolvimento nos negócios na Albânia, ele disse, foi de apresentar Diveroli a parceiros potenciais e autoridades.

Bogdan Choopryna, o gerente-geral da Evdin, também disse que as alegações de Diveroli não eram verdadeiras. "Nós escutamos as palavras do sr. Diveroli e então passo a ser responsável pelo que ele está dizendo?", ele disse. Além de ser um executivo da Evdin, Choopryna, 27 anos, comercializa produtos para uma empresa suíça dirigida por Thomet.

A disputa em torno do papel da Evdin e quem é dono dela permanece não resolvida. A Evdin foi aberta em 26 de setembro de 2006 -na semana seguinte à proposta de Diveroli pelo contrato afegão, segundo o cartório em Chipre. A empresa registrou sua sede em Larnaca, Chipre, e seu diretor geral como sendo Pambos Fellas.

Uma visita de um repórter ao endereço encontrou um escritório de contabilidade em cima de um clube noturno. A Evdin não tem escritório ou funcionários aqui. E Fellas, que estava lá, disse que não era diretor geral da Evdin, mas um "diretor nomeado", cujo único propósito era registrar a empresa.

Ele já registrou centenas de empresas semelhantes por uma taxa e disse que desconhece os negócios da Evdin.

Alguns indícios apontam de volta para a Suíça. Pinari disse inicialmente a dois repórteres que trabalhava com a Evdin por intermédio de Thomet. (Após um repórter ter dito isto a Thomet, Pinari mudou sua história, encaminhando o repórter para Fellas e o escritório da Evdin em Chipre.) Diveroli também disse que a empresa em Chipre era dirigida por um "indivíduo suíço".

Thomet já foi acusado no passado por organizações privadas, incluindo a Anistia Internacional, de arranjar vendas ilegais de armas sob um portfólio em constante mutação de nomes de empresas. Suas atividades também causaram preocupação em Washington, onde, como Bernatik, ele e a Evdin estão na lista de vigilância do Controle de Comércio da Defesa, segundo um funcionário americano.

Segundo Thomet, as alegações anteriores de que esteve envolvido em comércio ilegal de armas foram causadas por "falsas declarações de ex-concorrentes".

Hugh Griffiths, diretor de operações da Arms Transfer Profile Initiative, uma organização privada que pesquisa o comércio ilícito de armas, descreveu Thomet como um intermediário com contatos nos países do antigo bloco oriental que possuem estoques e fábricas de armas. Sua proximidade das compras da AEY, disse Griffiths, levanta dúvidas sobre se o Pentágono está supervisionando adequadamente os negócios feitos em seu nome.

"Colocando de forma simples, muitas das pessoas envolvidas no contrabando de armas para a África são as mesmas envolvidas nestes negócios apoiados pelo Pentágono, como os suprimentos da AEY para o Afeganistão e Iraque", ele disse.

Sob a suspensão ordenada na quarta-feira, o Exército planejava continuar aceitando a munição que já encomendou à AEY. Até 21 de março, ele tinha encomendado US$ 155 milhões em munições, segundo o Comando de Manutenção do Exército.

No Afeganistão, os oficiais de munição americanos estão examinando toda a munição para armas leves fornecida pela AEY. A carga final, que chegou em engradados de madeira, incluía cartuchos soltos e corroídos, segundo três oficiais. No Arsenal de Rock Island, a autoridade responsável pelos contratos disse estar cooperando com os investigadores, que também visitaram a Albânia e o Afeganistão.

E em Miami Beach, antes mesmo da suspensão, a AEY tinha perdido membros de seu quadro. Michael Diveroli, o fundador da empresa, disse a um repórter que não tinham mais nenhuma ligação com a empresa. Packouz, que era o vice-presidente da AEY, e Levi Meyer, 25 anos, que foi listado brevemente como gerente geral, também deixaram a empresa.

Meyer ofereceu uma declaração: "Eu não estou mais envolvido naquela confusão".

*Reportagem de C.J. Chivers, em Nawa, Afeganistão, Rússia e Ucrânia; Eric Schmitt, em Washington e Miami Beach; Nicholas Wood, em Tirana, Albânia, e escrita por Chivers. Alain Delaqueriere e Margot Williams, em Nova York; James Glanz, em Bagdá, Iraque; e Stefanos Evripidou, em Chipre, contribuíram com reportagem adicional. George El Khouri Andolfato

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