UOL Notícias Internacional
 

28/03/2008

As diferenças políticas entre os candidatos dos EUA sobre quem proteger em meio à crise

The New York Times
Edmund L. Andrews
Do The New York Times

Em Washington
Quando uma campanha eleitoral coincide tanto com uma crise em Wall Street quanto com o aumento das execuções hipotecárias de imóveis residenciais por todo o país, as batalhas ideológicas tradicionais sobre "mais governo" ou "menos governo" se tornam indistintas.

Os senadores Barack Obama e Hillary Rodham Clinton, os pré-candidatos democratas à presidência, alegam ter proposto um papel mais ativo para o governo do que o presidente Bush ou o provável candidato presidencial republicano, o senador John McCain, e a retórica democrata faz o contraste parecer ainda mais agudo.

Mas apesar de suas filosofias poderem parecer altamente diferentes, na verdade ambos os partidos chegaram à conclusão de que um grande envolvimento do governo é necessário para socorrer os mercados financeiro e imobiliário.

As disputas ideológicas envolvem menos se o governo deve intervir na economia, e mais sobre quem deve tentar socorrer.

"Os democratas são mais propensos a propor a proteção dos indivíduos, enquanto os republicanos são mais propensos a proteger os mercados", disse William A. Niskanen, presidente do Instituto Cato, um grupo de pesquisa libertário em Washington que apóia um governo menor.

Apesar das abordagens poderem ser diferentes, democratas e republicanos podem acabar em um lugar semelhante, porque será difícil proteger os indivíduos sem proteger os mercados, e os mercados permanecerão frágeis se os indivíduos sofrerem uma alta redução de sua riqueza pessoal.

Por ora, os partidos parecem estar em mundos distintos. Nesta semana, os dois pré-candidatos democratas abordaram a crise econômica que está se aprofundando e propuseram amplos programas governamentais de socorro para proprietários de imóveis, que custariam cerca de US$ 30 bilhões cada.

O governo Bush rejeitou essas idéias como um socorro financeiro e prometeu vetar até mesmo projetos de lei modestos dos democratas para ajudar os proprietários de imóveis. McCain afirmou nesta semana que "não é dever do governo socorrer e recompensar aqueles que agem de forma irresponsável".

Na prática, os democratas realmente não tiveram que confrontar a fúria e magnitude plena da crise. Medidas em dólares, suas maiores propostas são pequenas em comparação às centenas de bilhões de dólares que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) decidiu emprestar para os bancos e firmas de Wall Street destituídos de dinheiro e em comparação à magnitude das perdas com a desvalorização dos imóveis e hipotecas inadimplentes.

McCain e o governo Bush, enquanto isso, apóiam firmemente uma das maiores intervenções do governo no último século: a decisão do Fed de emprestar até US$ 400 bilhões a taxas insignificantes para os bancos e firmas de Wall Street.

A operação de socorro do Fed envolve muitas vezes mais dinheiro do que os democratas propuseram gastar na ajuda aos donos de imóveis, e se soma a uma série de outras injeções de dinheiro do governo na economia. Primeiro veio o pacote bipartidário de estímulo econômico, que apenas neste ano forneceu cerca de US$ 152 bilhões em restituições e reduções temporárias de impostos para ajudar e estimular o consumo. Então veio uma série de medidas para expandir os papéis do Fannie Mae e Freddie Mac, as empresas gigantes de financiamento hipotecário patrocinadas pelo governo.

E nesta semana, o Federal Home Loan Bank Board decidiu emprestar US$ 100 bilhões adicionais aos bancos membros para financiamento hipotecário.

Em um discurso nesta semana, Hillary comparou a abordagem de McCain à de Herbert Hoover e disse: "Eu não acho que podemos suportar mais quatro anos deste tipo de inação". Obama, deixando sua marca na quinta-feira, declarou que "livre mercado nunca visou ser uma licença de liberdade para tomar tudo o que puder levar".

Mas os dois democratas também propuseram várias mudanças -como um papel expandido para o Fannie e Freddie- que Bush também adotou recentemente.

Uma área em que os partidos parecem mais discordar é em torno da regulação, particularmente dos bancos de investimento.

Os democratas no Congresso e em campanha estão pressionando por restrições mais duras ao empréstimo hipotecário de risco ou enganador, regras mais rígidas para empresas de cartão de crédito e novas regras que permitiriam aos juízes de falência reduzirem o tamanho das hipotecas. Os democratas também pediram por uma maior supervisão das firmas de Wall Street.

Os republicanos resistem a um retorno a uma maior regulação. Apesar de ser esperado que o governo Bush apresente na próxima semana um amplo mapa para reforma da regulação financeira, funcionários do governo deixaram claro que a principal meta deles é aprimorar as agências reguladoras.

A idéia mais radical que Obama e Hillary endossaram é uma intervenção do governo e o refinanciamento das hipotecas para até dois milhões de proprietários de imóveis, que correm o risco de inadimplência.

A idéia é baseada em projetos de lei que estão sendo elaborados pelo deputado Barney Frank, de Massachusetts, e pelo senador Christopher J. Dodd, de Connecticut, ambos democratas. A legislação permitiria que a Federal Housing Administration garantisse até US$ 300 bilhões em hipotecas caso os atuais financiadores hipotecários concordem em reduzir os valores dos empréstimos a níveis que os mutuários possam realisticamente pagar.

Na prática, o governo assumiria as hipotecas que estão caminhando para a execução. Os financiadores teriam que engolir um prejuízo significativo, mas o governo lhes ofereceria uma chance de recuperar parte de suas perdas caso os imóveis sejam eventualmente revendidos por um preço mais alto.

As medidas forneceriam cerca de US$ 10 bilhões para financiar cerca de US$ 300 bilhões em garantias de empréstimos federais, e mais US$ 10 bilhões para os Estados e municípios ajudarem a financiar programas de habitação a preços acessíveis.

Bush e seus principais conselheiros são contrários à idéia, argumentando que seria um socorro financeiro tanto para mutuantes irresponsáveis quanto mutuários irresponsáveis. Henry M. Paulson Jr., o secretário do Tesouro, ridicularizou as propostas como "ainda não prontas para o portão de largada".

Mas os republicanos ainda estão à procura de novas formas do governo abrandar a crise.

O governo Bush deu início a um novo programa chamado FHA Secure em meados do ano passado, que visa ajudar as pessoas a refinanciarem hipotecas subprime (de alto risco) de alto valor. Executivos da indústria e grupos de defesa do consumidor dizem que as regras para qualificação são restritas demais para ajudar significativamente nas execuções hipotecárias, e funcionários do governo estão procurando modos de expandir o programa.

O outro grande esforço do governo é um programa voluntário chamado Hope Now, segundo o qual os financiadores hipotecários concordam em congelar a taxa de juro do mutuário no ponto mais baixo. Mas analistas do setor estimam que apenas 3% dos mutuários subprime provavelmente se beneficiarão com o programa. Mais de 20% das hipotecas subprime já estão inadimplentes.

McCain e outros republicanos argumentam que os proprietários de imóveis e financiadores precisam passar pela correção da alta desenfreada nos preços dos imóveis nos últimos anos, assim como das hipotecas insensatas e freqüentemente fraudulentas.

"Alguns americanos compraram casas além de seu poder aquisitivo, apostando que o aumento dos preços os ajudaria a refinanciarem depois", disse McCain nesta semana. "Nosso sistema de controles de mercado não corrigiu isso antes que a bolha estourasse."

Bush e os legisladores republicanos estão ocupados em outras frentes. Por anos, eles buscaram reduzir o papel do Fannie Mae e Freddie Mac, que levantam dinheiro a juros mais baixos do que os bancos privados por contarem com a garantia implícita de ajuda do governo caso tenham problemas.

Nas últimas várias semanas, o Congresso e o governo afrouxaram várias restrições às duas empresas, que analistas estimam que lhes permitirá financiar US$ 200 bilhões adicionais em hipotecas neste ano.

Mas há riscos para os contribuintes. Alguns analistas prevêem que ambas as empresas enfrentarão até US$ 12 bilhões em perdas neste ano, em grande parte devido à desvalorização dos imóveis que deverá levar a um aumento da inadimplência, o que afetará até mesmo as hipotecas conservadoras garantidas pelo Fannie e Freddie.

Apesar do governo não ser tecnicamente obrigado a socorrê-las, líderes políticos estariam sob intensa pressão para fazê-lo caso as empresas corram risco de insolvência. George El Khouri Andolfato

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