UOL Notícias Internacional
 

28/03/2008

Cidade mexicana da bruxaria atrai corações partidos e turistas

The New York Times
James C. McKinley Jr.
Em Catemaco, no México
Segundo Alejandro Gallegos Garcia, tudo o que é necessário para se matar um homem é uma boneca de pano preto, um pouco de cordão, um osso humano e um sapo. Ah, e não se pode esquecer de pedir a permissão do demônio, em pessoa, em uma caverna nas montanhas na qual, segundo Gallegos, o diabo aparece.

"A pessoa morre em 30 dias", garante Gallegos tranqüilamente, como se estivesse falando sobre o conserto de um carburador com defeito (aliás, o sapo também morre).

"No mundo há o bem e o mal, o demônio e Deus", explica ele, enquanto manipula uma presa de serpente com os seus dedos ásperos. "Trabalho com magia branca e magia negra. Mas têm pessoas que se dedicam apenas ao mal".

Jennifer Szymaszek/The New York Times 
Maria Chima (esq.) faz um ritual de purificação em sua sobrinha em igreja de Catemaco

Gallegos, 48, é um feiticeiro tradicional, um entre os vários que atuam nesta pequena cidade idílica, próxima ao Golfo do México, às margens do Lago Catemaco, no Estado de Veracruz. Assim como muitas bruxas daqui, ele mistura tradições européias e nativas no seu trabalho, um tipo especial de ocultismo que aprendeu com o tio.

Na sua sala de trabalho apertada e feita de cimento, há uma imagem da Virgem Maria e um grande crucifixo com um Jesus ensangüentado. Uma estrela de seis pontas está pintada no assoalho, com uma ferradura de um lado e uma cruz de Santo André do outro. Velas dedicadas a vários santos entulham a sua mesa, muitas delas atadas a fotografias. Algumas são fotos de homens e mulheres cujo amor os clientes desejam conquistar. Outras são de mulheres inférteis que querem ter filhos. E há ainda fotografias de pessoas que padecem doenças diversas, desde asma até câncer.

Debaixo da mesa Gallego guarda caixas velhas cheias de ervas, cascas de árvores e raízes que já eram usadas nesta região para curandeirismo muito antes de os seus ancestrais avistarem Hernan Cortês.

Ele tem morcegos mortos, que são usados para certas poções de amor, e cascavéis secas, para a cura de doenças. Gallegos usa óleos extraídos de lagartos e tartarugas, línguas secas de certos peixes, pele de coiote, ovos, galinhas, água benta da igreja e água-nada-benta do lago. Ele conhece dezenas de plantas nativas e as suas propriedades. E o feiticeiro empunha o dente de uma cobra venenosa.

"Isto é coisa dos tempos antigos", diz Gallegos. "Havia bruxas aqui antes da chegada dos espanhóis. Aqui existe uma mistura de tudo, até mesmo de Deus".

Catemaco é conhecida em todo o México como um centro de bruxaria e, para a consternação de vários praticantes que levam esta arte a sério, a mágica transformou-se em uma grande atração turística. Nesta cidade é realizado na primeira sexta-feira de todo mês de março o Congresso Internacional de Bruxas.
SINCRETISMO MEXICANO
Jennifer Szymaszek/The New York Times
Motorista de táxi é preparado por bruxo em Catemaco
SANTO DOS TRAFICANTES


Durante o evento, uma missa negra é celebrada na entrada da caverna supostamente freqüentada pelo demônio. Uma estrela enorme de seis pontas - eles a chamam de Estrela de Davi - é incendiada, para a alegria dos fotógrafos. Políticos aparecem para receber amuletos de boa sorte nas urnas. Os crentes convergem para a cidade a fim de terem as suas auras purificadas.

Sandra Lucia Aguilar, uma operadora de caixa de 25 anos de idade, viajou 22 horas de Cancun até aqui para participar da missa negra. Poucos dias depois ela estava na sala de espera de um popular feiticeiro conhecido como "O Corvo", em busca de um pouco de magia negra para trazer de volta o ex-namorado.

"Morei com ele durante cinco anos, e, depois, da noite para o dia, ele foi embora com outra mulher", conta Sandra. "Quero-o de volta. Ele me humilhou muito, e também quero humilhá-lo".

O Corvo é um indivíduo de olhar astuto chamado Hector Betaza Dominguez, que usa camisa de estilo guayabera e senta-se em uma sala iluminada por velas em meio a gravuras de La Santa Muerte, um ícone mexicano cuja imagem - um esqueleto vestido - lembra a representação pictórica tradicional da morte.

Betaza diz que pessoas de todo o México e de importantes cidades dos Estados Unidos com grandes comunidades mexicanas vêm vê-lo. Muitos simplesmente desejam "una limpia", ou limpeza, para retirar espíritos ruins. Mas a maioria sofre mesmo é de dor-de-cotovelo.

Quando lhe perguntam onde foi que ele aprendeu a sua arte, Betaza, que se autodenomina um "mestre de ciências ocultas", torna-se evasivo, murmurando algo a respeito de a sua mãe ter praticado magia. "Isto é uma coisa que você não aprende", diz ele. "É algo que se traz no sangue".

Mas nem todos estão convencidos. O padre Tomas Alonso Martinez ocupa a posição nada invejável de chefe de paróquia em uma cidade mais conhecida como um nicho de demônios e bruxas. "Isso tudo é uma farsa, uma mentira, uma fraude", denuncia o sacerdote.

Durante os seus cinco anos em Catemaco, Martinez diz que viu as chamadas bruxas aplicarem todos os tipos de golpes, arrancando dinheiro de pessoas ingênuas e vulneráveis.

Um truque comum é dizer ao indivíduo que ele está enfeitiçado e, a seguir, remover o feitiço mediante o pagamento de uma determinada quantia. Um outro é dizer às pessoas que elas encontram-se doentes, e depois oferecer-lhes uma cura tradicional por um preço elevado.

"Eles atribuem a si próprios poderes que não possuem", garante o padre. "O problema fundamental em relação a essas pessoas é que há indivíduos que acreditam nelas. Qualquer um pode se passar por feiticeiro".

Porém, até mesmo Martinez admite que, misturadas às práticas questionáveis, há vestígios de um passado pré-hispânico. O uso dos santos católicos também revela um sincretismo de crenças, observa o padre.

Na sua igreja, uma imagem da Virgem Maria está colocada em um nicho que fica atrás do altar. Antes da missa, muitos vão até esse nicho e passam ervas sobre os corpos para purificarem-se. Alguns deixam fotos de entes queridos, amuletos e rezas.

Esse sincretismo também emergiu claramente quando Gallegos realizou um ritual de limpeza em uma tarde recente. O cliente era um motorista de táxi chamado Santos Luna Cruz, que buscava proteção contra os seus rivais invejosos.

Despido da cintura para cima, Luna ficou de pé sobre um pedaço de veludo colocado no centro de uma Estrela de Davi desenhada com giz no chão. Em cada ponta da estrela havia uma vela acesa. De um lado da estrela via-se uma ferradura e do outro uma cruz de Santo André. Dois copos de água, que, segundo os que acreditam no feitiço, absorvem espíritos malignos, foram colocados diante de Luna.

Gallegos espargiu água benta, alho e amônia sobre o cliente. Depois, entoando a reza católica comum dirigida "ao pai, ao filho e ao Espírito Santo", e invocando uma longa lista de santos, Gallegos segurou ovos de galinha sobre a cabeça do homem e esfregou-os pelo corpo dele.

Ele desenhou cruzes com arranhões feitos pelo seu dente de serpente na face, nos braços e no abdômen de Luna. A seguir Gallegos passou um fígado de galinha sobre a pele do cliente. O feiticeiro borrifou água que trazia na boca em um spray fino sobre o homem e o fustigou com um maço de ervas.

Quando o ritual terminou, Luna, 34, sorriu e passou a mão sobre o cabelo molhado. "No início fiquei nervoso, mas agora me sinto mais leve e melhor", disse ele. "Senti como se ele estivesse retirando as más vibrações do meu corpo".

Gallegos apontou para dois ovos que se quebraram durante o ritual. "Quando os ovos se quebraram, eles absorveram a dor que estava presa dentro deste jovem", explicou o bruxo. UOL

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