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28/03/2008

Krugman: a crise hipotecária e o tipo de presidente que cada candidato poderá ser

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Quando George W. Bush concorreu ao seu primeiro mandato na Casa Branca, os jornalistas políticos nos asseguraram que ele era um sujeito sensato, moderado.

Mas aqueles entre nós que olharam para suas propostas -grandes reduções de impostos para os ricos e privatização do Seguro Social- tinham uma impressão muito diferente. E estávamos certos.

A moral é que é importante olhar atentamente para o que os candidatos dizem sobre políticas. É verdade que antigas promessas não são garantia de um futuro desempenho. Mas as propostas oferecem uma janela para a alma política do candidato -uma janela muito melhor, na minha opinião, do que um punhado de casos supostamente reveladores e citações fora de contexto.

O que me traz ao mais recente grande debate: como devemos responder à crise hipotecária? Nos últimos dias, John McCain, Hillary Clinton e Barack Obama falaram a respeito. E suas propostas dizem muito sobre o tipo de presidente que cada um poderá ser.

McCain é freqüentemente tratado como um "dissidente" e um "moderado", avaliações baseadas principalmente em seu modo de engajar. Mas seu discurso sobre a economia foi o de um direitista ortodoxo, linha-dura.

É verdade que o discurso foi mais sobre o que McCain não faria do que sobre o que faria. Sua principal proposta de ação, até onde posso dizer, foi uma convocação de um encontro nacional de auditores. Mas todo o tom do discurso indicou que McCain se purgou de quaisquer tendências dissidentes que antes podia ter.

Muitas reportagens apontaram que McCain mais ou menos se posicionou contra a ajuda aos proprietários de imóveis em dificuldades: a ajuda do governo "deve se basear apenas em impedir o risco ao sistema", o que significa que grandes bancos de investimento se qualificam, mas os cidadãos comuns não.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a declaração de McCain de que "nossa abordagem ao mercado financeiro deve incluir o encorajamento de um maior ingresso de capital nas instituições financeiras, com a remoção dos obstáculos regulatórios, contábeis e tributários ao levantamento de capital".

Atualmente, até mesmo os entusiastas do livre mercado estão falando sobre uma maior regulação das empresas de valores mobiliários, agora que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) mostrou que correrá em seu socorro quando enfrentarem problemas. Mas McCain está vendendo o mesmo antigo óleo de cobra, alegando que a desregulamentação e redução de impostos curarão todos os males.

O discurso de Hillary Clinton não poderia ser mais diferente.

É verdade, a sugestão de Hillary de que poderia reunir uma comissão de alto nível, incluindo Alan Greenspan -que tem muita responsabilidade por esta crise- exibiu um eco do relacionamento excessivamente confortável que o governo de seu marido desenvolveu com o setor de investimento. Mas o conteúdo de suas propostas para hipotecas, como o de seu plano para a saúde, sugere uma forte sensibilidade progressista.

Talvez o contraste mais notável entre McCain e Hillary envolva o problema do refinanciamento das hipotecas. McCain pediu por uma ação voluntária por parte dos financiadores hipotecários -isto é, ele propôs não fazer nada. Hillary deseja uma versão moderna da Corporação de Empréstimos para Proprietários de Imóveis (Holc, na sigla em inglês), a instituição da época do New Deal que adquiria as hipotecas das pessoas cujos lares valiam menos do que suas dívidas, então reduzia os pagamentos a um nível que os proprietários podiam pagar.

Finalmente, o discurso de Barack Obama na quinta-feira sobre a economia seguiu o padrão cauteloso de suas declarações anteriores sobre questões econômicas.

Eu fiquei satisfeito com o fato de Obama ter defendido fortemente uma maior regulação financeira, o que poderia ajudar a evitar futuras crises. Mas suas propostas para ajudar as vítimas da atual crise, apesar de significativas, são menos abrangentes do que as de Clinton: ele deseja pressionar os mutuantes privados a refinanciarem as hipotecas em vez de promover uma intervenção do governo para que o trabalho seja feito.

Obama também continua a defender reduções permanentes de impostos -para a classe média- um ponto central de seu plano econômico. Não está claro como ele pagaria as reduções de impostos e iniciativas de reforma da saúde, de forma que suas promessas levantam a dúvida sobre quão determinado ele realmente está em seguir uma agenda fortemente progressista.

No geral, as posições dos candidatos sobre a crise hipotecária contam a mesma história de suas posições sobre a saúde: uma história que está seriamente em desacordo com a forma como costumam ser retratados.

McCain, nos é dito, é um dissidente que fala de forma franca e sem rodeios. Mas em política doméstica, ele nem fala de forma franca e sem rodeios e nem de forma original; em vez disso, ele busca despudoradamente agradar aos ideólogos de direita.

Hillary, nos é assegurado por fontes na direita e na esquerda, tortura cachorrinhos e come bebês. Mas suas propostas continuam sendo surpreendentemente ousadas e progressistas.

Finalmente, Obama é amplamente retratado, inclusive por ele mesmo, como uma figura transformadora que promoverá uma nova era. Mas suas propostas políticas de fato, apesar de liberais, tendem a ser cautelosas e relativamente ortodoxas.

Estas comparações entre políticas realmente nos dizem como cada candidato será como presidente? Não necessariamente, mas são o melhor guia que dispomos. George El Khouri Andolfato

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