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29/03/2008

Clube vegan usa striptease para tentar converter os carnívoros

The New York Times
Kara Jesella
Duas coisas que você pode encontrar em quantidade em Portland, Oregon, são vegetarianos e clubes de striptease.

Johnny Diablo decidiu abrir um negócio combinando os dois. Em sua Casa Diablo Gentlemen's Club, proteína de soja substitui a carne nos tacos e chimichangas; as dançarinas vestem "pleather" (imitação de couro feita de poliuretano), não couro. Muitas delas são vegetarianas ou vegans (vegetarianos que não fazem uso de nada de origem animal).

Mas Portland também é lar de muitas jovens feministas, e algumas não estão contentes com o empreendimento de Diablo. Desde que ele abriu o clube de striptease no mês passado, as queixas delas estão "por toda a Internet", ele disse. "Uma delas veio aqui certa vez. Deu para perceber pela postura dela logo que entrou. Era totalmente hostil."

Lisa Bauso/The New York Times 
Espelho reflete dançarina no camarim do Clube Diablo, em Portland

Diablo não está preocupado com as "feminazistas", como ele as chama. Na condição de vegan, ele diz que não come nem veste produtos de origem animal há 24 anos e que se preocupa com a crueldade contra os animais. "Meu único propósito neste universo é salvar toda criatura possível da dor e do sofrimento", ele disse.

A Casa Diablo é apenas o mais recente exemplo da venda do veganismo com uma estética "Girls Gone Wild" para atrair a ira dos vegans, que se queixam de que estas táticas podem fazer as pessoas prestarem atenção na crueldade contra os animais, mas pelos motivos errados. Em Los Angeles, alguns fazem carranca diante das seminuas Vegan Vixens -uma espécie de Pussycat Dolls protetoras dos animais- que tocam canções como "Real Men Don't Hunt" (homens de verdade não caçam) em eventos para arrecadação de fundos para grupos pelos direitos dos animais.

E muitos vegans que desejam divulgar a crueldade dentro da indústria de pele estão consternados com a nova campanha publicitária "Ink, Not Mink" (tinta, não vison) do peta2, o braço jovem da People for the Ethical Treatment of Animals (Peta, pessoas pelo tratamento ético dos animais). Ela exibe membros do site erótico Suicide Girls exibindo apenas pouco mais que suas tatuagens e piercings.

Esta não é a primeira vez que ativistas de direitos animais são acusados de sexismo. Muitos vegans há muito criticam o Peta por usar celebridades nuas em suas campanhas publicitárias e por promover protestos com pessoas nuas.

Isa Chandra Moskowitz, uma autora de livros de culinária, está entre aqueles que acreditam que estas imagens distorcem a mensagem vegan. "Como feminista, eu não gosto da idéia do uso do corpo das mulheres para vender o veganismo, assim como não gosto da idéia do uso do veganismo para vender os corpos das mulheres", ela disse.

Moskowitz mantém um fórum online, o Post Punk Kitchen (www.theppk.com), onde alguns dos membros estão debatendo o clube de striptease vegan de Diablo. (Na semana passada, Diablo colocou o clube à venda, apesar de não devido às críticas, ele disse. Ele pode ter superestimado o apelo do striptease aos vegans, ou da cozinha vegan para os fãs de striptease; um restaurante vegan que ele dirigia anteriormente também foi mal recebido.)

A questão do sexismo nos círculos vegan é "extremamente polarizante", disse Bob Torres, um autor de "Vegan Freak", um guia sobre como viver o estilo de vida vegan, que geralmente significa evitar o uso de animais para alimentação, vestuário e outros propósitos. Torres, como muitos vegans, desaprova a "idéia essencial no coração de certo ativismo de direitos dos animais de que os fins justificam quaisquer meios", ele disse. Certos ativistas, ele acrescentou, se importam apenas com o "sofrimento animal e ignoram o sofrimento dos seres humanos", uma categoria na qual ele colocaria as mulheres sendo exploradas.

Segundo uma pesquisa Harris de 2006, encomendada pelo Vegetarian Resource Group, que publica o "The Vegetarian Journal", apenas cerca de 2,3% da população adulta dos Estados Unidos é vegetariana. No máximo, metade desta é composta por vegans praticantes.

Mas a filosofia vegan atingiu uma proeminência maior do que estes números pequenos indicariam. Há muitos acólitos célebres, incluindo Natalie Portman, que recentemente apresentou uma linha de calçados não feitos de couro. O livro de dieta best seller "Skinny Bitch" (Magra e Poderosa) e o livro de receitas que o seguiu, "Skinny Bitch in the Kitch", promove o veganismo. Ambos são acusados de tons sexistas.

As pessoas adotam uma dieta livre de produtos animais por vários motivos. Elas podem acreditar que é mais saudável e melhor para o meio ambiente. Elas podem apoiar os direitos dos animais. Além disso, o veganismo freqüentemente faz parte de uma agenda progressista mais ampla, o que deixa muitos particularmente sensíveis às acusações de sexismo.

Carol J. Adams, autora de "The Sexual Politics of Meat" (a política sexual da carne), uma bíblia da comunidade vegan, disse que os direitos das mulheres e os direitos dos animais freqüentemente estão alinhados. Ela traça o relacionamento anos 1890. "Muitas feministas sufragistas também se tornaram vegetarianas", disse Adams, que deixou de comer carne em 1974, enquanto vivia em uma comunidade feminista em Cambridge, Massachusetts.

Adams disse que as feministas foram algumas das primeiras pessoas a adotarem o vegetarianismo. "Nos anos 70, muitas mulheres diziam, 'eu não quero ser um pedaço de carne. Eu não vou comer um pedaço de carne'", ela disse.

Os vegans que usam a sexualidade para promover a causa dizem que é um bom modo para converter os carnívoros -em particular, os homens. Sky Valencia, fundadora das Vegan Vixens, disse que o grupo visa "as pessoas que compram 'Playboy' e 'Maxim' e assistem programas como o de Jerry Springer. Estas são as pessoas que queremos educar porque elas não sabem nada sobre meio ambiente, questões de direitos dos animais ou de saúde".

As Vixens estão preparando um livro de receitas e aparecerão em um novo programa de televisão, "30 Days" com Morgan Spurlock, em um episódio em que um caçador tem que viver com um grupo de ativistas do Peta por um mês. Valencia disse que já recebeu muitas críticas de "mulheres vegans mais rígidas -elas às vezes são reticentes em relação ao uso do apelo sexual para vender uma idéia, mas o apelo sexual está por toda parte".

E, ela disse, os homens lhe disseram que funciona. "Nós temos muitos homens adotando a dieta vegetariana, quando não vegan."

Em uma cultura onde hambúrgueres e filés são considerados emblemas de masculinidade, este não é um feito pequeno. A maioria dos homens nunca nem mesmo provou um prato vegetariano, disse Diablo, de Portland. "É como se fosse ameaçar a masculinidade deles." Ele disse que a apresentação do veganismo para eles em um clube de striptease torna a noção mais, digamos, palatável, mesmo que a fórmula aparentemente não tenha funcionado tão bem quanto ele esperava.

Elaine Vigneault, 32 anos, uma vegan e ex-especialista em estudos da mulher que vive em Nova York, não se incomoda com um clube de striptease vegan ou com o recente protesto do Peta em Londres, no qual uma mulher grávida entrou em uma jaula vestindo apenas roupa íntima para chamar a atenção ao tratamento dado às porcas prenhas. "Eu acho que é realmente importante o fato de, ao analisarmos as imagens das mulheres, levarmos em consideração o que estão tentando dizer", disse Vigneault.

Rory Freedman, uma autora dos livros "Skinny Bitch", que promove o veganismo disfarçado de dieta, disse que as mulheres que estão participando de manifestações e se despindo "estão optando por fazê-lo por sua livre vontade". As questões que estão expondo, ela disse, "são a tortura de animais que não têm livre vontade".

As colaboradoras do popular blog feminista "Feministing" criticaram a ênfase dos livros "Skinny Bitch" na perda de peso, notando que algumas mulheres com desordens alimentares usam dietas vegan para restringir sua ingestão de alimentos.

Freedman não aceita esta crítica. "Não é politicamente correto sugerir que as mulheres devam ser magras", ela disse. "Mas é mais saudável."

Missy Suicide, uma fundadora do Suicide Girls, um site onde centenas de pin-ups alternativas postam fotos eróticas de si mesmas, é vegetariana desde que tinha 6 anos. Ela considera a participação de seu grupo na campanha antipele "Ink, Not Mink" do peta2 como sendo tanto pró-animal quanto pró-mulher. "Nós estamos redefinindo beleza", ela disse. "Nós não somos o tipo de garota que você veria na mídia popular como sendo bonitas."

"Sexualidade é o que mais chama a atenção da sociedade", disse Ingrid Newkirk, a presidente do Peta, que acrescentou que as recentes campanhas são apenas uma das estratégias do grupo. "Nós tentamos atingir a todos de modos diferentes." Ela notou que o grupo também exibiu homens nus nos anúncios.

Além disso, ela disse, o uso da sexualidade feminina para chamar a atenção para o veganismo é apenas uma das muitas questões que estão sendo discutidas na franca comunidade vegan. "Não é uma guerra civil", ela disse. "É apenas uma diferença de opinião e as pessoas as expressam." George El Khouri Andolfato

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