UOL Notícias Internacional
 

29/03/2008

Possibilidade de uma crise de fome volta a assombrar a Somália

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Mogadício, Somália
O problema começou quando os soldados do governo foram ao mercado e, armados, começaram a se servir de sacas de grãos.

Insurgentes islâmicos partiram para as ruas para defender os comerciantes. As tropas do governo foram massacradas, sofreram muitas baixas e retiraram-se até o palácio presidencial, supostamente o lugar mais seguro da cidade. Este também foi atacado a tiros.

Mohamed Abdizirak, alta autoridade do governo, abaixou-se no palácio, com as balas passando sobre sua cabeça. Ele acabara de desistir de uma vida confortável como consultor de desenvolvimento em Springfield, Virgínia. Sua mulher achou que estava louco. O suor pingava de sua testa. "Sinto que isso está degringolando", disse ele.

Jehad Nga/The New York Times 
Mulher observa campo de refugiados em Mogadício, na Somália

O governo federal de transição da Somália admitiu que está por um triz. Quando veio para a capital, há 15 meses, apoiado por milhares de soldados etíopes, foi amplamente aclamado como a melhor chance em anos para pôr fim aos ciclos de guerra, ao caos e ao sofrimento da Somália.

Agora, entretanto, seus líderes dizem que, a não ser que recebam mais ajuda -soldados de paz internacionais, armas, treinamento e dinheiro para pagar seus homens, entre outras coisas- este governo de transição cairá, assim como os 13 que o precederam.

Menos de um terço dos soldados prometidos pela União Africana de fato apareceram, a Organização das Nações Unidas esquivou-se de enviar tropas de paz tão cedo; até os etíopes estão dando um passo atrás, muitas vezes deixando que o governo se defenda com suas tropas de adolescentes somalis com pistolas velhas.

Os islâmicos vêm ganhando recrutas, controlando cidades e se tornando mais audaciosos. O novo primeiro-ministro, Nur Hassan Hussein, aclamado como a melhor -e talvez a última- esperança do governo, vem tentando fazer contato com eles, e alguns são receptivos. Entretanto, não está claro se Nur tem poder dentro de seu próprio governo dividido para fechar um acordo de paz significativo antes que seja tarde demais.

O fracasso iminente está fazendo muitas pessoas no país e no exterior questionarem a estratégia de instalar um governo de transição à força em dezembro de 2006. Tropas etíopes ajudadas pela inteligência americana derrubaram o governo islâmico que brevemente controlou Mogadício e levaram o governo de transição para a cidade pela primeira vez.

O governo Bush disse que temia que os terroristas usassem a Somália como santuário. A caçada contra terroristas continua. Um recente ataque americano com mísseis contra um suspeito de terrorismo no Sul da Somália errou o alvo, feriu diversos civis e incitou protestos.

Muitos somalis, diplomatas europeus e críticos no Congresso também questionaram a decisão do Departamento de Estado em março de rotular um grupo de resistência somali como organização terrorista, por temerem que isso apenas reforçasse sua fama entre a população cada vez mais desiludida.

"A política fracassou", disse o deputado Donald M. Payne, democrata de Nova Jersey, presidente do subcomitê de relações exteriores da Câmara para a África e para a saúde global. "Estamos fazendo de Mogadício e da Somália uma Bagdá. Estamos fazendo as pessoas se sentirem mal tratadas e as empurrando para posições mais radicais."

Nas últimas semanas, islâmicos expulsaram guerrilheiros que foram absorvidos pelas forças do governo, mas cujas práticas predatórias, como saquear alimentos, estão minando o pequeno progresso feito pelos líderes de transição. Depois de 17 anos de guerra civil, a violência na Somália parece ser movida não tanto pela ideologia, religiosidade ou o ódio entre os clãs, mas por algo muito mais simples: a sobrevivência.

"Não recebemos há oito meses", disse um soldado do governo chamado Hassan. "Roubamos as pessoas para comer."

O primeiro-ministro Nur não negou que as tropas do governo estivessem roubando civis. "Este é o maior problema que temos", disse ele em uma entrevista no final de março.

No entanto, o governo não tem dinheiro para pagá-los, disse Nur. A cada mês, mais da metade da receita do governo, na maior parte tarifas portuárias, desaparece -roubada por "nossos homens", disse o primeiro-ministro.

Isso deixa Nur com cerca de US$ 18 milhões (R$ 36 milhões) por ano para dirigir um Estado falido de 9 milhões de habitantes, dos mais necessitados e mais coletivamente traumatizados do mundo. "Estado falido" talvez seja uma descrição generosa. De muitas formas, a Somália não é um Estado, mas um espaço sem governo entre seus vizinhos e o mar.

Algumas vezes parece que, se há alguma coisa que une este país, são as cicatrizes.

Hassan Ali Elmi ficou cego com um tiro em 1992 e desde então vive em uma cela do antigo Ministério de Obras Públicas. Seu filho o arrasta para a cidade para mendigar alguns centavos por dia, que valem cada vez menos. À noite, ele se deita sobre um fino colchonete e espera que o tiroteio pare, mas isso não acontece. "Em toda a Somália, é tudo armas", diz ele.

Seus vizinhos são pessoas recentemente desabrigadas, morando em barracos de papelão que desmancham na chuva. Organizações assistenciais dizem que mais da metade da população de Mogadício, estimada em um milhão, está fugindo.

Muitos dos mesmos elementos que se uniram nos anos 90 para criar uma crise de fome estão novamente se alinhando -guerra, seca, deslocamento populacional, inflação dos preços de alimentos e obras assistenciais em retirada. O Programa de Alimento Mundial da ONU disse na quinta-feira (27/3), em uma advertência intitulada "A Somália se afunda cada vez mais no abismo do sofrimento", que o país é o mais perigoso do mundo para os trabalhadores assistenciais.

A maior parte dos somalis não nega isso. Eles dizem que Mogadício está mais caprichosamente violenta do que jamais foi, com bombas nas estradas, tiroteios de milícias nos bairros, médicos morrendo com tiros na cabeça e meninos de 10 anos usando granadas. Policiais dizem que muitos insurgentes de fato são crianças esfomeadas que recebem alguns dólares por seu trabalho.

Na área cada vez mais reduzida controlada pelo governo no sul de Mogadício, dois prédios receberam uma mão de tinta. Nos aeroportos, há novos formulários perguntando aos viajantes seu nome, o propósito de viagem e o calibre da arma. Meninas com cabelos presos jogam basquete em um ginásio. Homens vendem peixes na praia. Há um batimento cardíaco de vida.

Entretanto, a história é outra no norte de Mogadício. "Aqui é como 'Mad Max'", disse Abdi Awaleh Jama, apontando ao norte do palácio presidencial, para a expansão de barracos e ruínas.

No ressoar das metralhadoras, as pessoas estão começando a ouvir maus presságios para o governo. Muitos moradores têm sentimentos confusos sobre isso. Eles alegam que o governo fortaleceu os senhores de guerra. Eles dizem, quase sem exceção, que as coisas eram melhores com os islâmicos. Mas temem o futuro.

"Estamos nos viciando na anarquia", disse o vendedor de combustível Dahabo Abdulleh.

Nur, ex-membro da Crescente Vermelha que se tornou primeiro-ministro em novembro, está tentando separar os islâmicos moderados dos militantes e fazê-los negociar. Ele está fazendo concessões para empresários, suspeitos de financiar os islâmicos por lealdade aos clãs, e permitindo que formem sua própria força de proteção. Membros da ONU estão tentando melhorar as perspectivas de Nur fornecendo US$ 14 milhões (cerca de R$ 28 milhões) para pagar importantes salários do governo e consertar os ministérios.

"Isto é urgente", disse William Paton, coordenador interino da ONU para a Somália. "Eles estão sobre gelo fino".

Membros do governo dizem que grande parte da resistência são pessoas profundamente investidas nessa situação de caos, como traficantes de armas, malfeitores e importadores de leite expirado.

No entanto, alguns destes fazem parte do governo. Para conseguir o apoio dos clãs e -igualmente crucial- mais guerrilheiros, os líderes da transição fecharam acordos com senhores de guerra como Mohammed Dheere, hoje prefeito de Mogadício, e Abdi Qeybdid, hoje chefe de polícia. Esses são os mesmos homens que a CIA pagou em 2006 para combater os islâmicos, contra os quais a população se voltou, na maior parte por causa de seu legado em aterrorizar civis.

Hassan, soldado do governo, diz que participa de milícias desde os 8 anos de idade. Ele carregou seu primeiro Kalashnikov aos 10 anos. Ele não sabe ler ou escrever. Ele tem pulsos finos, rosto delicado, olhar vazio e uma esposa e dois filhos para alimentar, razão pela qual ele diz assaltar as pessoas rotineiramente. "Estamos perdendo", disse ele.

Ele disse que muitos de seus amigos estão desertando para o lado dos islâmicos, porque esta é a única forma de sobreviver.

Os islâmicos capturaram brevemente várias cidades nas últimas semanas, liberando os prisioneiros, apreendendo armas e depois voltando para os campos. Já se foram as barbas e os lenços quadriculados. Muitos, como um jovem chamado Elmi, não têm barba e usam ternos bem passados.

Como Hassan, Elmi disse que não poderia revelar seu último nome. Segundo ele, os empresários vendem ouro, imóveis e carneiros para levantar fundos para os islâmicos. Elmi disse que participou da batalha no mercado no dia 20 de março, que começou com um saque, e que o governo perdeu três caminhões, o que foi corroborado por soldados do governo. "Estávamos lá porque estamos em toda parte", disse Elmi.

Abdirizak, autoridade do governo, enterrou algumas das vítimas daquela batalha, jovens soldados do governo que encontraram seus túmulos atrás do palácio presidencial à luz da lua.

Um desses soldados chamava-se Abdi Rashid. Ele tinha se ferido em outra batalha há cerca de um mês. De acordo com Abdirizak, "ele não deveria estar lá naquele dia. Acontece que não temos homens suficientes".

Abdi Rashid foi atingido no coração no mercado quando os islâmicos cercaram as tropas do governo. Suas últimas palavras para seus amigos, que queriam carregá-lo para a segurança, foram: "Fujam daqui, saiam daqui."

Abdirizak ficou em silêncio.

"Não tenho muita certeza quanto tempo ficarei", disse ele. "Eu quero ajudar. Mas não vim para cá para ser morto." Deborah Weinberg

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