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29/03/2008

Preço em ascensão do arroz provoca temor de distúrbios na Ásia

The New York Times
Keith Bradsher

Em Hanói, Vietnã
O aumento dos preços e um crescente temor de escassez levaram alguns dos maiores produtores de arroz do mundo a anunciarem drásticas limitações, e até proibições, à quantidade de arroz que exportam.

O preço do arroz, a base da dieta de quase metade da população do mundo, quase dobrou nos mercados internacionais nos últimos três meses. Isto apertou o orçamento de milhões de pobres asiáticos e aumentou o temor de inquietação civil.

Escassez e altos preços de todos os tipos de alimentos causaram tensões e até mesmo violência ao redor do mundo nos últimos meses. Desde janeiro, milhares de soldados foram posicionados no Paquistão para proteger os caminhões que transportam trigo e farinha. Ocorreram protestos na Indonésia por causa da escassez de soja, e a China implantou controles de preços ao óleo de cozinha, cereais, carne, leite e ovos.

Tumultos por causa de alimentos ocorreram nos últimos meses em Guiné, Mauritânia, México, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iêmen. Mas as medidas adotadas pelos países exportadores de arroz nos últimos dois dias -visando assegurar que a oferta escassa atenderá a demanda doméstica- elevaram ainda mais os preços no mercado internacional nesta semana.


Isto alimentou a insegurança dos países importadores de arroz, já cada vez mais desesperados em assegurar o fornecimento. Na terça-feira, a presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, com medo de uma maior escassez de arroz, ordenou que investigadores do governo rastreassem estoques ilegais.

O aumento nos preços internacionais do arroz promete colocar mais pressão sobre os preços nos Estados Unidos, que importam mais de 30% do arroz que os americanos consomem, segundo a Associação dos Produtores de Arroz dos Estados Unidos. O preço que os consumidores pagam pelo arroz já subiu mais de 8% em relação ao ano passado.

Mas os Estados Unidos são felizardos por também exportarem arroz; países pobres que variam do Senegal, no Oeste da África, às Ilhas Salomão, no Sul do Pacífico, são altamente dependentes das importações e agora enfrentam contas mais altas.

O governo do Vietnã anunciou aqui, na sexta-feira, que reduziria a exportação de arroz em quase um quarto neste ano. O governo espera que ao manter mais arroz dentro do país, ele consiga segurar os preços e conter o descontentamento da população. No mesmo dia, a Índia basicamente proibiu a exportação de todos os tipos de arroz, exceto os mais caros. O Egito anunciou na quinta-feira que imporia uma proibição de seis meses na importação de arroz, a partir de 1º de abril, e na quarta-feira, o Camboja proibiu toda a exportação de arroz exceto pelas agências do governo.

Governos por toda a Ásia e em muitos países consumidores de arroz na África há muito se preocupam com a possibilidade de que os fortes aumentos dos preços possam provocar uma reação furiosa entre os cidadãos urbanos de baixa renda.

"Há definitivamente um potencial de inquietação, particularmente à medida que as pessoas mais afetadas são os pobres urbanos que estão concentrados, e portanto com mais facilidade de se organizarem do que os pobres rurais, por exemplo, para protestar contra os preços", disse Nicholas W. Minot, um pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, em Washington.

Vários fatores estão contribuindo para a alta nos preços do arroz. O maior poder aquisitivo na Índia e na China provocou um aumento do consumo. Ao mesmo tempo, seca e outros problemas meteorológicos reduziram a produção na Austrália e outras partes. Muitos produtores de arroz estão se voltando para produtos mais lucrativos, reduzindo a terra dedicada ao seu plantio. E a urbanização e a industrialização reduziram a terra dedicada ao cultivo do arroz.

No Vietnã, um vírus obscuro fez com que a produção anual começasse a estabilizar; ela vinha crescendo significativamente a cada ano nos últimos três anos.

Até poucos anos atrás, o potencial de grandes oscilações de preço era reduzido pela tendência de muitos governos de manter grandes estoques de arroz para assegurar a segurança do produto, disse Sushil Pandey, um economista agrícola do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, em Manila.

Mas a manutenção dos estoques era cara. Então os governos começaram a fazer uso deles à medida que o consumo mundial de arroz passou a superar a produção em grande parte da última década.

As quantidades relativamente pequenas exportadas de fato, combinadas com os baixos estoques, agora significam que os preços podem subir rapidamente em resposta aos problemas na oferta.

Ao mesmo tempo, os preços estabelecidos no comércio internacional de arroz atualmente têm um peso cada vez mais importante sobre os preços dentro dos países. Isto é particularmente verdadeiro em uma era de comunicações por celular e Internet, quando até mesmo os produtores rurais em áreas remotas podem tomar conhecimento dos preços distantes e decidir se seus compradores estão lhes pagando um preço justo.

Mesmo antes dos governos imporem restrições nesta semana, as empresas de comércio nos países exportadores estavam cada vez mais relutantes em assinar contratos para futura entrega, já que aguardavam para ver quão alto os preços subiriam.

"O mercado praticamente parou nas últimas duas semanas", disse Ben Savage, diretor administrativo para arroz da Jackson Son & Co., uma empresa de comércio de commodities em Londres. A alta dos preços já está causando dificuldades por todo o mundo em desenvolvimento.

Em um velho mercado coberto em um antigo bairro de Hanói, Cao Minh Huong, uma vendedora de cerâmica, disse que a alta dos preços dos alimentos, especialmente do arroz, a forçou a mudar sua dieta. "Eu estou gastando o mesmo em alimentos, mas estou levando menos para casa", ela disse.

Juntamente com o aumento dos preços de outros alimentos, como trigo, soja, carne de porco e óleo de cozinha, os preços mais altos do arroz também estão contribuindo para a inflação em muitos países em desenvolvimento. Os preços de varejo do arroz já subiram até 60% nos últimos meses no Vietnã, ainda atrás dos aumentos no atacado mas provocando uma maior aceleração da inflação. O primeiro-ministro do Vietnã, Nguyen Tan Dung, anunciou na quarta-feira que a prioridade do governo agora é combater a inflação. Os preços ao consumidor estão 19% mais altos do que em março do ano passado. A taxa de inflação quase triplicou nos últimos 12 meses.

O arroz é incomum entre os grandes commodities agrícolas já que a maioria dos países consumidores de arroz é auto-suficiente ou quase. Apenas 7% da produção mundial de arroz é exportada a cada ano, segundo números da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em Roma.

Nguyen Van Bo, o presidente da Academia das Ciências Agrícolas do Vietnã, que supervisiona os institutos de pesquisa agrícola do governo, disse em uma entrevista que o governo espera que a produção de arroz aumentará até 2010, apesar da rápida expansão de fábricas e imóveis residenciais em terras antes dedicadas ao plantio de arroz. Mas o governo precisa treinar os agricultores para alternar milho e arroz, para que possam derrotar pragas no arroz como o vírus, ele disse.

Vietnã, Egito e Índia já limitaram as exportações de arroz no ano passado, mas os limites eram muito menos drásticos e foram impostos mais à frente no ano, após muito mais arroz já ter sido exportado.

O governo da Tailândia, a maior exportadora de arroz do mundo depois do Vietnã, ainda não limitou as exportações. Mas um debate nacional teve início na Tailândia sobre se deve fazê-lo e os exportadores tailandeses praticamente já pararam de assinar contratos de entrega, disse Savage.

Os lances para os tipos de arroz normalmente comercializados como o de grão médio tailandês ou vietnamita quase dobraram, para US$ 700 a tonelada, com grande parte do aumento tendo ocorrido nas últimas quatro semanas e com os lances aumentando quase US$ 50 por tonelada na sexta-feira.

Os governos relutam em dizer aos produtores rurais para venderem seu arroz a preços baixos, fixados, por temerem que os produtores esconderão o arroz ou deixarão de cultivar o máximo que podem. Na sexta-feira, a China, que é virtualmente auto-suficiente em arroz, aumentou os preços mínimos para o arroz e trigo que garante aos agricultores. George El Khouri Andolfato

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