UOL Notícias Internacional
 

30/03/2008

Inimizade da China por Dalai Lama reduz esperança de diálogo no Tibete

The New York Times
Por Howard W. French

Em Xangai, China
Em quase todo o Ocidente, Dalai Lama é conhecido como o bem-aventurado líder espiritual de uma humilde comunidade de budistas, amado em Hollywood, no Congresso e na Casa Branca e vencedor do Prêmio Nobel da Paz.

Mas os líderes chineses o vêem sob um ângulo diferente. Eles o acusam de ser um separatista e um terrorista, inclinado a matar inocentes chineses Han e em "dividir a terra mãe" —um Osama bin Laden dos Himalaias.

Essa disparidade de percepção, que cresceu imensuravelmente nas duas semanas de violentas turbulências que balançaram o Tibete, está criando um certo pessimismo em relação à intenção —e até mesmo a possibilidade— por parte dos líderes chineses de empreenderem uma nova aproximação do Tibete, mesmo que isso ameace encobrir com uma vasta sombra seu papel de anfitriã dos Jogos Olímpicos nesse verão.

O presidente Hu Jintao, cuja ascensão à liderança do Partido Comunista Chinês foi construída em parte sobre sua posição como líder partidário no Tibete durante o período de agitação em 1989, até agora não mostrou sinais de realizar um histórica abertura pela paz na região. Em vez disso, ele parece apostar que a China é capaz de resistir e manter o poder no Tibete durante as Olimpíadas e esperar até a morte do Dalai Lama, que está com 72 anos, dizem os analistas.

"É óbvio que eu gostaria que houvesse um debate político, mas não vejo nenhuma indicação de que isso ocorra", diz Wang Lixiong, um especialista chinês em Tibete e signatário de uma petição recente feita por advogados e acadêmicos chineses instigando o governo a retomar o diálogo com o Dalai Lama. "Houve um grande erro, mas é pouco provável que o governo mude seu caminho e sua política às vésperas das Olimpíadas."

A inflexibilidade da posição de Pequim deixa os países ocidentais com um problema. O presidente Bush e uma série de outros líderes europeus e asiáticos pediram a Jintao para que abra o diálogo com o Dalai Lama como primeiro passo para reduzir as tensões no Tibete. Se Jintao se recusar a fazer isso, esses líderes provavelmente sofrerão a pressão de seus próprios eleitores para tomar medidas diplomáticas e políticas mais fortes contra Pequim no momento em que ela esperava se deleitar com a atenção internacional.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, já sugeriu que pode usar sua presidência na União Européia nesse verão para organizar um boicote das cerimônias de abertura das Olimpíadas.

Um protesto constrangedor durante a cerimônia para acender a tocha olímpica na Grécia e os gritos dos monges de Lhasa que impediram um tour programado pela imprensa da capital tibetana para os repórteres estrangeiros na quinta-feira pressagiam uma rajada de críticas contra a China.

Os apelos para que haja algum tipo de diálogo sino-tibetano continuam a crescer. Na sexta-feira, na Índia, o Dalai Lama fez seu comentário mais extenso sobre a violência no Tibete, acusando a mídia chinesa controlada pelo Estado de tentar "espalhar as sementes da tensão racial" no território e pedindo um "diálogo significativo" com Pequim para diminuir as tensões.

O presidente Bush, ao falar sobre a possibilidade de Jintao levar adiante as conversas diplomáticas com os exilados tibetanos, disse: "isso é do interesse do seu próprio país". Ao lado de Bush, Kevin Rudd, primeiro-ministro recém-eleito da Austrália, que fala chinês e estava em visita a Washington, disse: "está absolutamente claro que há abusos dos direitos Fmanos no Tibete."

Jintao disse a Bush, durante uma conversa telefônica na quarta-feira, que estava disposto a falar com o Dalai Lama, de acordo com a agência de notícias chinesa Xinhua. Mas o mais surpreendente em relação à conversa foi a consistência da linguagem de Pequim em relação ao Tibete, que, segundo os analistas, fornece poucos motivos para esperar novas iniciativas.

O discurso de Jintao, que têm sido usado quase que sem nenhuma modificação desde o tempo de Deng Xiaoping, diz que a China retomará o contato com o Dalai Lama desde que ele abandone a defesa da independência do Tibete, pare com as atividades que objetivam "dividir a terra mãe", e aceite que o Tibete e Taiwan são partes inalienáveis da China.

O problema com o discurso de Pequim é que mesmo quando o Dalai Lama insiste que não busca a independência, conforme ele e seus representantes declararam repetidas vezes, o governo chinês se limita a repetir a mesma fala, deixando pouco espaço para o progresso.

Os protestos tibetanos das duas últimas semanas parecem ter tomado Pequim de surpresa, espalhando-se rapidamente para fora da província oficialmente conhecida como Região Autônoma Tibetana até áreas de províncias vizinhas onde os tibetanos vivem em grandes grupos. A agitação é a maior desde os protestos contínuos e a repressão sangrenta de 1989.

Ainda assim, dentro da China, os protestos têm sido retratados como nada mais do que uma arruaça violenta contra os chineses Han, orquestrada pela "panelinha do Dalai" em sua base no exílio em Dharamsala, na Índia. A persistente propaganda anti-Dalai feita pelo partido do governo, de certa forma reminiscente da vilanização dos inimigos ao estilo da Revolução Cultural, colocou a liderança dentro de uma camisa de força auto-imposta.

Mesmo parecendo admitir que Pequim cometeu erros ao lidar com os protestos, Hu Yan, professor de ciências sociais na Escola do Comitê Central do partido, expressou confiança na habilidade deste para prevenir que haja mais problemas antes das Olimpíadas.

"Acho que podemos controlar a situação antes que ela se espalhe ainda mais", disse Yan. "Fomos muito brandos no começo, permitindo que eles destruíssem ambulâncias e roubassem bancos sem fazer nada a respeito. Deveríamos ter lançado mais gás lacrimogêneo, no mínimo."

Robert Barnett, diretor do departamento de Estudos Tibetanos Modernos na Universidade de Columbia rejeita o argumento chinês de que os protestos não chegaram a ser mais do que alguns atos criminosos, afirmando que a sua expansão por várias províncias é significativa. "Não aconteceu nada parecido nos últimos 40 anos, e nenhum líder chinês vai deixar de notar isso", disse Barnett. "Eles perderam o interior do país, e terão que trabalhar muito duro para ganhá-lo de novo."

Mas o professor Yan deu uma dica do que muitos acreditam ser a concepção pragmática de Pequim sobre o Tibete. "Esse assunto só pode ser resolvido a longo prazo", disse. "É uma batalha de longa, e nós provavelmente teremos de esperar que o Dalai Lama reencarne."

A etratégia de longo prazo de Pequim, que a violência recente pode ter apenas reforçado, tem sido esperar a morte do Dalai Lama, na hipótese de que então será capaz de escolher o sucessor do líder espiritual do Tibete. Um novo Dalai Lama provavelmente não teria todo o prestígio que tem o atual opositor de Pequim, dentro ou fora da China.

Em 1995, Pequim prendeu o Panchen Lama, o número 2 no budismo tibetano, um menino de 6 anos na época. Ele nunca mais foi visto desde então. A China então consagrou outro jovem tibetano como substituto do Panchen Lama, e tem controlado sua educação e deveres públicos rigidamente desde então. No budismo tibetano, o Panchen Lama é tradicionalmente responsável por nomear um novo Dalai Lama, o que teoricamente dá a Pequim o controle sobre a sucessão do atual Dalai Lama.

Para combater essa estratégia, os tibetanos têm cogitado mudar as regras de sucessão, permitindo ao Dalai Lama consagrar uma criança tibetana que viva no exílio, ou mesmo uma mudança mais radical, que permita aos tibetanos escolherem um novo Dalai Lama pelo voto. Qualquer uma das duas medidas certamente deixariam a China furiosa, que se reserva o direito de controlar as religiões organizadas.

O atual Dalai Lama jurou repetidas vezes que não tem nenhum desejo de ver o Tibete se libertar da soberania chinesa. Ele, contudo, pressiona os chineses para uma "autonomia genuína" sob o governo chinês. Ele se refere à constituição chinesa, que invoca o direito de autonomia e auto-governo "em áreas em que povos de nacionalidades minoritárias vivem em comunidades compactas."

"A tarefa que se apresenta é de desenvolver um sistema que garanta a autonomia requerida pelos tibetanos para conseguirem sobreviver como um povo distinto e próspero dentro da República Popular da China", disse Lodi Gyaltsen Gyari, enviado especial do Dalai Lama, num discurso em Washington em 2006.

Os líderes do partido resistem até mesmo à modesta visão de um auto-governo ampliado. Os oficiais parecem temer que o aumento da autonomia política possa sobrecarregar os circuitos do Estado chinês, provocando demandas de outros grupos étnicos e religiosos e libertando forças centrífugas que poderiam dividir o país, além de certamente resultar no pedido de independência do Tibete.

"Se você prestar atenção ao que o Dalai Lama diz, a parte que diz respeito à independência do Tibete é realmente vazia, enquanto as demandas por um Tibete mais forte e com um alto grau de autonomia são reais", diz Zhang Yun, acadêmico do Centro de Pesquisas de Tibetologia da China. "Que tipo de governo seria capaz de permitir isso? É impossível.

Um alto grau de autonomia significa abrir mão de tudo: nosso sistema administrativo, nosso sistema burocrático, e até mesmo do socialismo do partido." Eloise De Vylder

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