UOL Notícias Internacional
 

01/04/2008

Educação do ódio pela mídia prepara próxima geração do Hamas

The New York Times
Steven Erlanger
Na Cidade de Gaza, na Faixa de Gaza
Em uma sexta-feira recente, na mesquita Katib Wilayat, o imame falava sobre a velhacaria dos judeus.

"Os judeus são um povo no qual não se pode confiar", disse com convicção o imame do Hamas, Yousif al-Zahar. "Eles traíram todos os acordos - basta consultar a História. A fé deles é no seu desaparecimento. Vejam o que eles estão fazendo conosco".

Na mesquita Al Omari, o imame amaldiçoou os judeus e os "cruzados", ou cristãos, e os dinamarqueses, por terem voltado a publicar caricaturas do profeta Maomé. Ele refere-se aos judeus como "os irmãos dos macacos e dos porcos", enquanto a estação de televisão do Hamas, a Al Aksa, elogia os atentados suicidas a bomba, e defende a guerra santa até que a Palestina fique livre do controle judeu.

Johan Spanner/The New York Times 
Palestino chora a morte de um bebê em cena de peça de teatro patrocinada pelo Hamas

Os vídeos da estação elogiam os combatentes e as equipes de lançadores de foguetes; as suas transmissões insultam o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, por conversar com Israel e com os Estados Unidos; os seus programas infantis enaltecem o "martírio" e ensinam aquilo que o Hamas chama de a perfídia dos judeus e a necessidade de acabar com a ocupação israelense da terra palestina, que, neste caso, significa qualquer parte do Estado de Israel.

Tal incitamento contra Israel e os judeus deveria ter sido banido segundo os acordos de Oslo de 1993 e o plano de paz "mapa do caminho" de 2003. Enquanto a Autoridade Palestina, sob o Fatah, empenhou-se em esforços significativos, ainda que imperfeitos, para acabar com tais incitamentos, o Hamas, que não participou desses acordos, não sente necessidade de tal moderação.

Desde que o Hamas assumiu o poder na Faixa de Gaza em junho do ano passado, desbancando o Fatah, os sermões e comunicados à imprensa do grupo pregando a violência e o ódio tornaram-se mais disseminados, radicais e sofisticados, tendo como modelo o Hezbollah e a sua estação de televisão Al Manar, no Líbano.

Com o objetivo de doutrinar a juventude com a sua versão de islamismo radical, que combina política, assistência social e resistência militar, incluindo atos de terrorismo, os programas das estações de rádio e televisão Al Aksa, incluindo os cruciais sermões das sextas-feiras, são um indicador do quão distantes israelenses e palestinos estão da reconciliação.

O poder do Hamas na Faixa de Gaza é importante, mas o que importa mais no longo prazo é o seu controle sobre a propaganda e a educação no território, gerando problemas de longo prazo para Israel, e para a paz. Independentemente daquilo quanto ao qual os negociadores israelenses e palestinos concordarem, existe aqui o temor de que as atitudes que têm sido pregadas tornem uma paz sustentável extremamente difícil.

"Se você usar uma amostra da sexta-feira, provavelmente escutará incitamentos contra os judeus nas orações e nos sermões do imame", afirma Mkhaimer Abusada, cientista político na Universidade Al Azhar. "Ele usa versos do Alcorão para dizer como os judeus eram os inimigos do profeta e não cumpriram as suas promessas a ele 1.400 anos atrás".

Abusada é muçulmano e politicamente independente. "Há jovens na mesquita, e todos têm que ouvir o imame, quer acreditem nele ou não", diz ele. "Ao ouvir as mesmas coisas repetidas diversas vezes, muita gente acaba acreditando nelas, especialmente quando ele cita o Alcorão ou a Hadith", as frases do profeta Maomé.

Radwan Abu Ayyash, vice-ministro da Cultura em Ramalah, dirigiu a Palestinian Broadcasting Corporation até 2005. "O Hamas usa a linguagem religiosa para motivar as pessoas simples a interessarem-se por objetivos políticos e religiosos", diz ele. "As pessoas não fazem distinções entre os dois". Ele disse que achou muitos programas transmitidos pela Al Aksa "repugnantes e antiprofissionais".

"Todo palestino concorda que a situação na Faixa de Gaza é terrível", explica ele. "Mas o que não está certo é educar as crianças com uma cultura de ódio, de mentes fechadas, uma cultura de doença. Não sei se eles têm sempre consciência do que estão criando. As pessoas usam uma arma, a linguagem, sem perceberem que também a usam contra elas próprias".

Itamar Marcus, do grupo israelense Palestinian Media Watch, diz que o Hamas buscou a sua visão dos judeus naquilo que considera as raízes do islamismo e, a seguir, tentou fazer com que o presente se encaixasse no passado.

Por exemplo, em uma coluna da revista semanal "Al Risalah", o xeque Yunus al-Astal, um legislador e imame do Hamas, discutiu um verso do Alcorão sugerindo que "o sofrimento pelo fogo é o destino dos judeus neste mundo e no próximo".

"A razão para esta punição com chamas é o fato de isto ser uma retribuição apropriada por aquilo que eles têm feito", escreveu Astal em 13 de março. "Mas a questão mais urgente é: será possível que eles sofram a punição pelo fogo neste mundo, antes de sofrerem a grande punição no inferno? Vários líderes religiosos acreditam que sim. Portanto, estamos convictos de que o Holocausto ainda se abaterá sobre os judeus".

No final, observa Marcus, Astal troca "harik", a palavra usual para queimar, por "mahraka", normalmente usada como referência ao Holocausto.

Alguns vídeos do Hamas, como um produzido em março de 2007, incentivam a participação de crianças na "resistência", mostrando-as fazendo treinamentos de uniforme e empunhando rifles. Vídeos recentes mostraram Abbas beijando a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice e o primeiro-ministro Ehud Olmert, de Israel, com o slogan, "A Palestina não retribui com beijos, ela retribui com mártires".

Um outro programa infantil, "Os Pioneiros do Amanhã", tornou-se infame pelos seus personagens fantoches - um tipo de Mickey Mouse, uma abelha e um coelho - que falam, como Assud, o coelho, em conquistar os judeus, para a jovem convidada do programa, Saraa Barhoum, 11. "Libertaremos a mesquita Al Aksa da sujeira sionista", disse recentemente Assud. "Libertaremos Jaffa e Acre", cidades atualmente ocupadas por Israel. "Libertaremos a pátria inteira".

O rato, Farfour, foi assassinado por um interrogador israelense e substituído por Nahoul, a abelha, que morreu "uma morte de mártir" devido à falta de cuidados médicos por causa do fechamento das fronteiras da Faixa de Gaza. Ela foi substituída por Assud, o coelho, que jurou: "Nós nos livraremos dos judeus, com a graça de Deus, e os engoliremos, se Deus quiser".

Quando Assud apareceu pela primeira vez, ele disse a Saraa: "Todos nós buscamos o martírio, não é Saraa?" A menina respondeu: "Claro que sim. Nós estamos prontos a nos sacrificar pelo bem da pátria. Sacrificaremos as nossas almas e tudo que temos pela pátria".

Juntamente como grupo de Marcus, o Instituto de Pesquisas sobre a Mídia do Oriente Médio, ou Memri, também monitora a mídia árabe. Mas ninguém questiona as suas interpretações, e há vários palestinos na Faixa de Gaza - na atmosfera carregada de um território isolado e superlotado, no qual os cartazes de mártires e de ódio a Israel também estão disseminados entre o Fatah - profundamente perturbados com o controle exercido pelo Hamas sobre as suas mesquitas e sobre aquilo que as crianças assistem. Embora a Autoridade Palestina do Fatah também cause certa preocupação - os seus livros educacionais, por exemplo, raramente reconhecem o Estado de Israel -, Yigal Carmon, que dirige o Memri, diz: "O Hamas e a sua mídia usam aquele tipo de linguagem antiisraelense e antijudaica que não se ouve mais por parte da Autoridade Palestina, que há muito tempo não fala mais desse jeito".

Abu Saleh, que pediu que o seu sobrenome não fosse publicado devido à sua postura crítica, está preocupado com os seus filhos. O filho mais velho, de 13 anos, assiste a Al Aksa, e gosta particularmente das músicas nacionalistas e dos vídeos militares. "Eu falo com eles sobre o Hamas, mas, para ser honesto, é assustador, e é necessário acompanhar o processo no decorrer do tempo", diz ele. "Quando os filhos têm 17 ou 18 anos de idade, não se sabe o que pode acontecer. Eles ficam furiosos e podem vincular-se a grupos radicais".

O profeta Maomé firmou um hudna, ou armistício, temporário com os judeus cerca de 1.400 anos atrás, de forma que o Hamas admite a idéia. Mas nenhum membro do Hamas diz que firmaria um acordo de paz com Israel, ou que cederia permanentemente qualquer parcela do Mandato Britânico da Palestina.

"Eles falam do hudna, e não de paz ou reconciliação com Israel", afirma Abusada. "Eles acreditam que com o tempo serão suficientemente fortes para libertar toda a Palestina histórica".

Saraa, a convidada do programa "Os Pioneiros do Amanhã", é sobrinha de Fawzi Barhoum, um porta-voz do Hamas. Parte da linguagem usada contra outros árabes o perturba, diz Barhoum, mas ele insiste em afirmar que Israel é um país ilegítimo. "Ninguém pode negar que tudo isto era terra palestina e que os judeus ocuparam a nossa terra", diz ele com firmeza. "Portanto, o estatuto do Hamas baseia-se naquilo que Israel cometeu contra o nosso povo, e na forma como vemos Israel e as suas práticas".

O estatuto é um documento profundamente anti-semita que cita a famosa falsificação, os Protocolos dos Anciões de Sion, como verdade. "Mas a nossa batalha não é com os judeus enquanto judeus", diz ele. "Mas sim com aqueles que vieram, ocuparam as nossas terras e nos mataram. Afinal, os judeus que reconheceram o mal representado pela ocupação ficaram de fora e recusaram-se a vir para a Palestina como ocupantes. Já os judeus que vieram, chegaram para ocupar e matar".

Marwan M. Abu Ras, 50, um imame que leciona na Universidade Islâmica do Hamas há 25 anos, tem um programa de aconselhamento na Al Aksa. Ele orgulha-se do fato de o show usar linguagem de sinais para surdos.

Presidente da Liga Acadêmica Palestina e legislador do Hamas, Abu Has é popularmente chamado de "Hamas' mufti", porque está sempre pronto a conceder aprovação religiosa às estruturas políticas do Hamas.

No início deste ano, ele criticou o Egito por fechar as fronteiras com a Faixa de Gaza a pedido de Israel. Abu Ras reclama: "Estamos sitiados pelos filhos do arabismo e do islamismo, bem como pelos irmãos dos macacos e dos porcos".

Ele tentou fazer uma distinção entre linguagem política e religiosa, e, a seguir, disse: "Os israelenses não conseguem aceitar críticas. Eles reagem de forma exagerada, como qualquer pessoa culpada". Para ele, Israel é um inimigo. "Esta é uma guerra aberta contra Israel, onde cada lado tenta pressionar o outro", afirma. Uma guerra? "Se não é uma guerra, o que é então?", questiona.

A seguir ele fala do filho, que tentou alistar-se como voluntário para combater os israelenses aos 17 anos de idade. "Eu o convenci a aguardar até os 20 anos. Ele não tinha armas", conta Abu Ras. "Agora ele é membro do Qassam, o braço armado do Hamas, e é um exemplo para outros jovens".

Mark Regev, porta-voz de Olmert, pediu aos "líderes árabes que são moderados e que acreditam na paz que se pronunciem mais energicamente contra elementos extremistas". Ele disse que o "incitamento ao ódio e à violência é um procedimento operacional padrão do Hamas", e acrescentou: "Na educação e nos programas de rádio e televisão do Hamas eles transformam o homem-bomba suicida que mata inocentes em um modelo positivo, e retratam os judeus da forma mais negativa. Isso também muitas vezes nos faz lembrar da linguagem usada na Europa na primeira metade do século 20. A questão séria é: que mentalidade eles estão promovendo?"

Hazim el-Sharawi, 30, o ator que originalmente encarnava o personagem Farfour na televisão do Hamas, e que é conhecido como "Tio Hazim", não tem dúvidas. Ele conta que a idéia de fazer com que Farfour fosse assassinado por interrogadores israelenses foi sua. "Nós queríamos enviar, através desse personagem, uma mensagem que retratasse a realidade da vida palestina".

Ele disse que Israel é a fonte disso tudo. "Uma criança vê os vizinhos serem assassinados, ou explodidos com bombas na praia. Como vou explicar a uma criança aquilo que ela já sabe? A ocupação é o motivo disto. É ela que cria esta realidade. Eu apenas organizo as informações".

Segundo ele, a mensagem é simples: "Nós desejamos conectar a criança à Palestina, ao seu país, de forma que ela saiba que a sua cidade original é Jaffa, que a sua capital é Jerusalém e que os judeus tomaram a nossa terra e fecharam as nossas fronteiras, e agora estão assassinando os nossos amigos e parentes". UOL

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