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01/04/2008

Levando as cicatrizes das primárias para a eleição geral nos EUA

The New York Times
Katharine Q. Seelye e Julie Bosman
Do The New York Times
O presidente Carter e o senador Edward M. Kennedy eram duros adversários com uma história ruim, e na campanha presidencial de 1980, eles deixaram que isso se transformasse em uma disputa amarga para a indicação. O governo Carter contestou o patriotismo de Kennedy e se recusou a debater, enquanto Kennedy arrastou a disputa entre eles por nove meses, até a convenção democrata. Um Carter enfraquecido prevaleceu e conquistou a indicação, mas viria a perder em novembro.

Disputas na convenção freqüentemente representam ruína para um partido. A experiência de 1980 para os democratas -assim como a disputa de 1968, e a de 1976 para os republicanos- sugere que uma primária acirrada durante o meio do ano pode contribuir para uma derrota em novembro.

Hoje, democratas nervosos temem que a história se repetirá, já que a senadora Hillary Rodham Clinton, que está atrás em delegados e no voto popular, se recusa a ceder a indicação para o senador Barack Obama. Apesar do crescente rancor da campanha, Hillary diz que lutará até o final.

Barton Silverman/The New York Times -14.ago.1980 
Edward Kennedy (dir.) durante convenção que ratificou a candidatura de Jimmy Carter (esq.)

O ex-presidente Bill Clinton reforçou essa posição no domingo. "Há uma sugestão de que por haver um debate vigoroso sobre quem será o melhor presidente, nós enfraqueceremos o partido no final do ano", disse Clinton. "Fiquem tranqüilos."

Apesar de todas as sirenes alertando para um desastre, a história oferece uma orientação ambígua sobre se lutas acirradas nas primárias são fatais. Muitos historiadores e analistas dizem que apesar de primárias prolongadas poderem enfraquecer um indicado, fatores maiores freqüentemente estão em ação. Os eleitores são freqüentemente influenciados pela sensação do país estar ou não seguindo na direção certa. Eles levam em consideração se as disputas nas primárias são pessoais ou políticas. Eles querem saber se o vencedor e o perdedor serão capazes de consertar as coisas. E o tempo pode fazer a diferença.

Mas ninguém realmente sabe onde está o ponto culminante e se o candidato deste ano estará desgastado demais para superar o senador John McCain, o suposto candidato republicano, no que as pesquisas sugerem ser um ano democrata.

"Há padrões interessantes de disputas até as convenções enfraquecerem os partidos na eleição", disse Ted Widmer, um historiador presidencial da Universidade Brown. "Mas eu não acho que acontecerá neste ano. Todas as questões favorecem os democratas. Há uma economia ruim, a guerra no Iraque e um número imenso de democratas está pronto para votar em qualquer um, exceto no candidato republicano. Seria necessário um esforço considerável por parte do Partido Democrata para perder esta eleição."

No caso de Carter, muitos analistas dizem que ele teria perdido de qualquer forma, mesmo sem a disputa nas primárias. A economia estava atolada na "estagflação", americanos eram mantidos reféns no Irã e seu índice de aprovação era de pouco mais de 30%. Uma disputa nas primárias era quase inevitável e um independente, John Anderson, também foi atraído para a disputa.

Ainda assim, não ajudou Carter o fato de um membro proeminente de seu próprio partido tê-lo enfrentado, ou o fato de Kennedy ter deixado a convenção com a promessa desafiadora de que "o sonho nunca morrerá".

Robert Shrum, um agente democrata de longa data que escreveu esse discurso para Kennedy, disse que a disputa prolongada e amarga até a convenção não condenou por si só o resultado.

"Não é a caminhada até a convenção, é quão negativa e ácida ela se transforma", disse Shrum sobre a batalha entre Clinton e Obama.

"O que prejudicará é se tivermos três ou quatro meses de escalada de ataques negativos e uma disputa imensa em torno de Michigan e da Flórida", disse Shrum. "Nós poderíamos ter uma situação em que colocaríamos gênero e raça um contra o outro, de forma que poderíamos perder a eleição impossível de perder na fogueira das vaidades."

Alguns democratas temem esta trajetória.

"Esta disputa ficará cada vez mais contenciosa e haverá mais acusações e contra-acusações", disse Donna Brazile, que dirigiu a campanha de Al Gore em 2000 e é neutra nesta disputa, após ouvir Bill Clinton dizer aos democratas na semana passada: "Preparem-se".

"As pessoas estavam empolgadas; agora elas estão exaustas", disse Brazile. "No começo, elas gostavam de um candidato e respeitavam o outro; agora elas amam um e odeiam o outro."

Uma pesquisa Gallup apontou na semana passada que, em março, 28% dos eleitores de Hillary votariam em McCain em vez de Obama, e 19% dos eleitores de Obama votariam em McCain em vez de Hillary.

Mas nas primárias republicanas em 2000, mais da metade daqueles que originalmente apoiavam McCain disse que votaria em Gore e não em George W. Bush em novembro, segundo uma pesquisa do Centro Pew. Em novembro, 30% desses desertores potenciais tinham retornado ao partido, disse Brian Schaffner, um cientista político da Universidade Americana.

Naquele ano, Bush teve sete meses para unir seu partido. Se os democratas lutarem até sua convenção, no final de agosto, eles terão apenas dois meses.

"Quanto mais cedo acabar, maior a probabilidade de que trarão as pessoas de volta ao partido até novembro", disse Schaffner. "Mas eu não acho que veremos muitas deserções quanto em 2000, porque estamos mais polarizados do que estávamos em 2000. Naquele ano, um quarto das pessoas dizia não se importar com quem venceria. Mais pessoas se importam agora, já que vêem grandes diferenças entre os partidos."

Um estudo da Universidade do Novo México, em 1998, apontou que uma primária presidencial divisora poderia ter um "efeito marginal ou mesmo inexistente" sobre o resultado em novembro. A escolha do adversário nas primárias para companheiro de chapa, como Ronald Reagan fez com George Bush em 1980, pode ajudar, assim como uma reconciliação significativa.

Em 1952, após o general Dwight D. Eisenhower e o senador Robert A. Taft disputarem a indicação republicana -com a campanha de Taft convencida de que as forças de Eisenhower tinham "roubado" a indicação- os dois mapearam uma estratégia para a eleição de novembro com um papel claro para Taft. Eisenhower chegou à Casa Branca.

Mas algumas disputas causam ruína. A historiadora presidencial Doris Kearns Goodwin citou 1968 como "um ótimo exemplo" de uma disputa primária que prejudicou seriamente os democratas.

"Aquela disputa foi tão acirrada e tão contenciosa que dividiu a convenção em duas com violência, assim como causou dissensão interna", disse Goodwin. "Aquela divisão contribuiu bastante para a vitória de Nixon."

Igualmente difícil foi a luta quatro anos antes no lado republicano. O relacionamento entre Barry Goldwater e Nelson Rockefeller era tão antagônico que Rockefeller foi vaiado no palco da convenção. Lyndon B. Johnson acabou derrotando Goldwater de forma avassaladora.

Outro ano desastroso para os republicanos foi 1976, quando Reagan desafiou o presidente em exercício, Gerald Ford. Este disse posteriormente que o fracasso de Reagan em fazer vigorosamente campanha a seu favor em novembro foi em parte responsável pela sua derrota para Carter. Mas Ford também estava enfraquecido pela economia ruim, Watergate e seu perdão ao presidente Nixon.

Apesar de disputas intrapartidárias poderem fortalecer um candidato, elas também podem fornecer munição para o outro lado.

"Os republicanos não estão dormindo", disse Paul Kirk, que foi presidente do Partido Democrata de 1985 a 1989 e foi diretor político de Kennedy em 1980. "Eles usarão todas estas coisas como bala de canhão."

Kirk disse que foi o que aconteceu em 1984, quando Gary Hart rotulou Walter F. Mondale como candidato dos "interesses especiais", uma frase que foi usada contra ele depois de ter conquistado a indicação.

Hart, que era o candidato das "novas idéias", lembrou das dificuldades para unir o partido, especialmente com alguns de seus eleitores, que, segundo ele, preferiram ficar em casa do que votar em Mondale.

"Eu acho que eles não sentiam que ele tinha as idéias para o futuro que eu tinha", disse Hart, ainda com uma aresta em sua voz quase 25 anos depois. "Mondale não conseguiu concluir a venda."

Mondale, que estava concorrendo contra um presidente popular, Reagan, perdeu em 49 Estados. George El Khouri Andolfato

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