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01/04/2008

"Os Bin Laden": livro disseca a família que gerou o 11 de setembro

The New York Times
Michiko Kakutani
O novo livro absorvente de Steve Coll não apenas oferece um retrato psicológico detalhado da cabeça por trás de 11 de setembro, mas, ao contar a épica história da família de Osama Bin Laden, também revela o papel crucial que seus parentes e seu relacionamento com a casa real de Saud tiveram em sua formação, em sua forma de pensar, suas ambições, sua experiência e suas táticas.

"The Bin Laden's: An Arabian Family in the American Century" (Os Bin Laden: uma família árabe no século americano, The Penguin Press, US$ 35) usa o prisma de uma família para examinar os efeitos estonteantes e abaladores que a súbita riqueza com o petróleo teve na Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, dá nova luz ao relacionamento "conturbado, compulsivo, ganancioso e cheio de segredos" que se desenvolveu entre a nação desértica e os EUA e os conflitos que muitos sauditas sentiram, divididos entre as crenças tradicionais de seus ancestrais e as tentações reluzentes do Ocidente.

O livro possui a energia de um romance épico sobre uma família que sai da pobreza para a riqueza, acompanhando seus vários personagens enquanto viajam de Meca e Medina para Las Vegas e Disney World. Ainda assim, ao mesmo tempo, é um livro que, ao traçar as conexões entre o público e o privado, entre o político e o pessoal, complementa o livro de Coll de 2004 que venceu o prêmio Pulitzer: "Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan, and Bin Laden, from the Soviet Invasion to Sept. 10, 2001" (guerras fantasmas: a história secreta da CIA, Afeganistão e Bin Laden, da invasão soviética até 10 de setembro de 2001).

AFP -7.mar.2003 
Imagem de TV mostra Osama Bin Laden (dir.) no casamento de seu filho Mohammed

O trabalho anterior concentrou-se no crescimento do extremismo islâmico durante a jihad anti-soviética dos anos 80 no Afeganistão, onde Bin Laden surgiu pela primeira vez como líder. Este volume, por sua vez, aborda as forças políticas culturais e familiares que o influenciaram enquanto crescia na Arábia Saudita.

Partes da narrativa de Coll são devedoras ao trabalho pioneiro de outros repórteres neste assunto -mais notavelmente, os dois livros de Peter Bergen sobre Bin Laden e "The Looming Tower", livro abrasador de Lawrence Wright sobre a Al Qaeda e a estrada para 11 de setembro. Entretanto, ao se concentrar no relacionamento conflituoso de Bin Laden com sua família e no relacionamento desta com o Ocidente, Coll, que faz parte da equipe do "The New Yorker" e que também trabalhou muitos anos no "The Washington Post", acrescentou novos detalhes fascinantes à compreensão de como Bin Laden transformou-se de um ajudante leal à família em uma ovelha negra revoltada, determinada a atacar as próprias pessoas que seu pai e seus irmãos cultivaram em seus negócios por anos -a família real saudita e os EUA.

Enquanto livros recentes como "Bush Tragedy", de Jacob Weisberg, ressaltaram o papel que rivalidades edipianas podem ter tido na presidência de George W. Bush e em sua decisão de entrar em guerra contra o Iraque, este volume ressalta o papel que a dinâmica familiar freudiana pode ter tido na radicalização de Bin Laden e sua declaração de guerra contra os EUA.

Coll mostra como Osama -que ainda era menino quando seu pai, Muhammad, foi morto em um acidente de avião em 1967- encontrou uma sucessão de figuras paternas em uma série de mentores radicais, inclusive um professor de ginástica do colégio que o envolveu em um grupo de estudo islâmico e Abdullah Azzam, acadêmico carismático que introduziu o jovem Osama ao conceito de "jihad transnacional".

O livro de Coll também acompanha uma série de conexões bizarras entre seus personagens, sugerindo que freqüentemente há menos de seis graus de separação entre os agentes do novo mundo globalizado de finanças internacionais. Descobrimos, por exemplo, que Muhammad Bin Laden começou a carreira trabalhando como pedreiro da Aramco, Arabian American Oil Co., formada para administrar os direitos de petróleo da Standard Oil. Co., da Califórnia, e que a enorme empresa internacional que os Bin Laden construíram viria a fazer negócios com firmas americanas famosas, como General Electric, e receberia conselhos da firma de advocacia Baker Botts, dirigida por James A. Baker III, ex-secretário de Estado e consultor da família Bush.

Também descobrimos que Jim Bath, ex-piloto da reserva da guarda nacional Texas Air, que costumava festejar com George W. Bush, mais tarde se tornou sócio de Salem Bin Laden, meio-irmão de Osama, em Houston.

O patriarca da família, Muhammad Bin Laden, deixou uma aldeia profundamente religiosa e empobrecida para buscar fortuna (ele era tão pobre que, em um interlúdio na cidade de peregrinação de Jeddah, dormia em covas que cavava na areia). Pela combinação de capacidade, astúcia e cultivação assídua da família real, tornou-se o principal construtor do rei, supervisionando reformas de locais sagrados em Meca, Medina e Jerusalém. Ele deixou aos filhos não só fortuna, mas também o que Coll chama de "uma visão transformadora de ambição e fé religiosa em um mundo sem fronteiras". Seu filho que estudou no Reino Unido, Salem, assumiu a empresa depois da sua morte e expandiu seu alcance internacional. Ele também adotou uma existência ocidentalizada de jet set, com a qual explorou suas excentricidades ao máximo.

De fato, Salem emerge neste volume como uma figura maior que a vida, sedutora; um playboy picaresco, ao mesmo tempo sincero, brilhante e auto-indulgente, que manteve unido o clã cada vez mais dividido dos Bin Laden pela pura força de vontade e carisma. Salem, que usava jeans, adorava aviões e gostava de tocar gaita. Ele "pagou a uma banda centenas de dólares na festa do Oscar em Los Angeles para que o deixasse cantar 'House of the Rising Sun' em sete línguas".

Coll conta que Salem organizava expedições de família para Las Vegas, enviava milhares de caixas de molho Tabasco para a Arábia Saudita e sonhava em casar-se com quatro mulheres de nações ocidentais: ele imaginava que sua família se pareceria com a Organização das Nações Unidas, com quatro casas, uma de bandeira americana, outra alemã, uma francesa e outra inglesa. Salem morreu em 1988, em um acidente de avião no Texas.

Quanto a Osama Bin Laden, Coll, como Wright em "The Looming Tower", sugere que a guinada do fundador da Al Qaeda para a guerra internacional contra os EUA não era inevitável. Coll escreve que, quando a família real saudita concordou, no verão de 1990, com a vinda de tropas americanas em resposta à invasão do Kuwait pelo Iraque, Bin Laden "não ofereceu dissidência pública", e sim "agiu rapidamente com sua família para proteger sua fortuna pessoal contra a possibilidade de queda do regime de Al Saud". Apesar de ver a si mesmo como "líder guerrilheiro islâmico internacional", sua opinião ainda era "mutável, com nuances e contradições", na época, escreve Coll.

Cada vez mais em discordância com a família real saudita, Bin Laden deixou o reino em 1991 para o Sudão, onde comprou terras e criou cavalos e girassóis enquanto treinava guerrilheiros (que enviava a lugares como a Bósnia). "Osama parecia acreditar durante este período que poderia ter tudo no Sudão -mulheres, filhos, negócios, horticultura, criação de cavalos, lazer, devoção e jihad- tudo protegido pela deferência devida a um xeque verdadeiro. Ele não parecia ainda entender que seus empreendimentos, particularmente em seu apoio à violência contra governos amigáveis ou dependentes de Al Saud, talvez se provassem difíceis de conciliar com os interesses de sua família e em Jeddah".

Em junho de 1993, a família, provavelmente sob pressão do governo saudita, expulsou Osama como acionista da Muhammad Bin Laden Co. e Saudi Bin Laden Group, segundo Coll. No ano seguinte, a família repudiou-o publicamente, o Ministério do Interior anunciou que ele tinha perdido formalmente a cidadania saudita, e Bin Laden começou a escrever longos ensaios contra a família real, os quais divulgava por fax.

Em 1995, havia "uma sugestão de rei Lear" em seu exílio: ele estava sem dinheiro, uma de suas mulheres havia se divorciado dele e seu filho mais velho o tinha deixado para voltar para a Arábia Saudita. O isolamento alimentou a crença de Bin Laden em suas teorias, entretanto, e seu ódio se concentrou cada vez mais nos EUA, particularmente depois de Washington fazer pressão sobre o Sudão para expulsá-lo de Cartum, levando ao seu exílio de volta para as terras duras do Afeganistão em 1996.

Enquanto aprofundava-se no caminho da violência, outros membros de sua família fortaleciam seus laços com o Ocidente. A família investiu em empresas variadas, desde a Iridium, uma rede de comunicações por satélite, até uma franquia do Hard Rock Cafe no Oriente Médio.

Após 11 de setembro, o príncipe Bandar Bin Sultan, embaixador saudita em Washington -que se reuniu com o presidente Bush na noite do dia 13 de setembro- ajudou a organizar (com a permissão do FBI) o fretamento de um avião especial para levar de volta para a Arábia Saudita mais de uma dúzia de membros da família Bin Laden, alguns dos quais moravam nos EUA há anos.

Investigações subseqüentes do FBI "não revelaram evidências de cumplicidade da família de Bin Laden na violência terrorista", escreve Coll. A Casa Branca parece ter decidido, no início de 2002, que, a não ser que aparecessem maiores evidências, "o governo americano não ia sancionar a família Bin Laden de nenhuma forma por sua história com Osama" .

Um analista do FBI resumiu a avaliação do escritório da seguinte forma: havia "milhões" de Bin Ladens "correndo por aí", e "99.999999 % deles eram da variedade não diabólica". Deborah Weinberg

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