UOL Notícias Internacional
 

01/04/2008

Reforma financeira nos EUA favorece Wall Street

The New York Times
Jenny Anderson

Em Nova York
Há mais de um ano, quando os mercados estavam em alta, um coro de alarme soou em Wall Street. Falava-se que os Estados Unidos corriam o risco de perder sua vantagem no mundo financeiro.

Mas a ameaça que muitos executivos viam não era a crise de crédito que se aproximava -era a ameaça de disputas judiciais excessivas e um aumento da regulação. Wall Street pressionava Washington a relaxar.

O setor financeiro não conseguiu o que queria naquele momento, mas pode conseguir o que deseja agora.

Se for adotada, a ampla reforma do sistema de supervisão do sistema financeiro americano proposta na segunda-feira pelo secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., poderia dar aos bancos de investimento de Wall Street uma grande vitória aos seus anos de esforços para reduzir a regulação.
COMBATE À CRISE NOS EUA
Matthew Cavanaugh/EFE
O secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, durante entrevista em que anunciou as medidas para reformar o sistema financeiro
CONHEÇA AS MEDIDAS


Apesar de que dificilmente o plano obterá aprovação do Congresso tão cedo, e poderá não ir a lugar nenhum em um ano eleitoral, ele apresenta muitas das mudanças aparentemente sutis mas profundas pelas quais Wall Street faz lobby há muito tempo.

Uma mudança desejada por Wall Street é que os reguladores deixem de policiar o setor com regras duras e rápidas -faça isto, não faça aquilo- e passem a adotar "princípios" mais flexíveis que possam estar abertos a interpretação. Outra visa modernizar a miscelânea de reguladores estaduais e federais que às vezes se sobrepõem e competem uns com os outros.

O plano de Paulson daria um passo na direção de ambas as mudanças ao consolidar os reguladores do setor bancário e de seguros e potencialmente fundir a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) com a Comissão de Comércio de Commodities e Futuros (CFTC, na sigla em inglês), assim como despojando a entidade combinada de grande parte de sua autoridade reguladora. Muitos em Wall Street aplaudiram estas propostas.

"Eu acho que é um grande passo à frente", disse Thomas A. Russo, diretor legal chefe da Lehman Brothers, sobre a proposta. "O mundo se tornou homogeneizado, mas a estrutura reguladora permanece dentro da mesma camisa de força."

Os defensores da abordagem de princípios dizem que ela é mais eficiente. Eles apontam para a ascensão meteórica de Londres como centro financeiro global, o que alimenta o temor de que algum dia Nova York possa perder seu título de capital mundial do capital. A Autoridade de Serviços Financeiros, o principal órgão regulador financeiro britânico, se apóia mais em princípios do que em regras.

Mas alguns ex-reguladores americanos se perguntam se Wall Street merece uma rédea mais frouxa, especialmente em um momento caótico nos mercados e na economia como um todo. Afinal, o setor financeiro enfrentou muitas complicações com os reguladores nos últimos anos, desde fraudes contábeis e de ações até investimentos hipotecários questionáveis.

"Alguns dos proponentes querem princípios amplos que não serão aplicados", disse Harvey J. Goldschmid, um ex-comissário democrata da SEC que atualmente leciona na Escola de Direito de Colúmbia. "Adote esta abordagem e os problemas do subprime e da securitização parecerão pequenos ressaltos em comparação ao estrago que teremos no futuro."

Richard C. Breeden, o presidente da Comissão de Valores Mobiliários e presidente da Breeden Capital Management, questiona se as propostas do Tesouro mais prejudicarão do que ajudarão o público investidor. "Eu não vejo o que há a favor do público neste plano", disse Breeden. "O que há a favor dos contribuintes e dos clientes destas firmas?"

Mas Wall Street, um dos setores mais ricos e politicamente astutos nos Estados Unidos, sente uma oportunidade.

Em novembro de 2006, o Comitê para Regulação dos Mercados de Capital divulgou um relatório concluindo: "É do entender do comitê de que o equilíbrio da intensidade reguladora foi perdido para desvantagem competitiva dos mercados financeiros americanos".

Um segundo relatório, divulgado dois meses depois pelo prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, e pelo senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, declarava que os Estados Unidos estavam ficando para trás.

"A última coisa que Nova York e o país precisam é acordar um dia e descobrir que não somos mais a capital financeira do mundo", disse Schumer na época.

Hal S. Scott, professor da Escola de Direito de Harvard que dirigiu o Comitê de Regulação dos Mercados de Capital, disse na segunda-feira que concordava com muitas das recomendações a curto prazo do Tesouro. Mas ele argumentou que o governo não devia perder tempo com as propostas de médio prazo, mas sim buscar diretamente uma reforma mais radical com um sistema baseado em princípios.

"Com freqüência demais nós temos um problema e dizemos: 'Eis aqui uma regra', e então as pessoas encontram uma forma de contornar a regra", disse Scott. "Nos sairíamos melhor com um princípio."

Ainda assim, Wall Street prosperou até recentemente apesar -e às vezes por causa- do atual sistema regulador. Os mercados para alguns investimentos complexos, como obrigações de dívida com colateral, não parecem ser policiados por ninguém. E nenhuma agência na prática supervisionou a imensa alavancagem no sistema, um problema que contribuiu seriamente para a atual crise.

De fato, enquanto o setor aumentava seus lucros em razão geométrica nos últimos anos, o tamanho de agências como a SEC não acompanhou o ritmo. Como conseqüência, os reguladores tinham dificuldade em reagir às mudanças sísmicas no setor, como a ascensão dos fundos hedge e a proliferação de produtos financeiros que são comercializados nas sombras entre as firmas, em vez de abertamente nas bolsas. Isto faz ex-comissários da SEC se perguntarem como a transformação da comissão em uma agência diferente melhoraria as coisas.

"É o apogeu do desrespeito pelos investidores americanos a extinção de uma agência que faz algo para proteger o público dos impulsos mais vis de Wall Street", disse Breeden.

Mas ele reconheceu que a mudança é difícil. "Não está tão claro que o simples traçar de mapas organizacionais mais simples fará o sistema funcionar melhor", ele disse. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host