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02/04/2008

Diversidade marca os candidatos dos EUA e também os analistas políticos

The New York Times
Felicia R. Lee
Do The New York Times
Mais do que nunca as campanhas prolongadas e históricas dos senadores Barack Obama e Hillary Rodham Clinton têm injetado na política as questões referentes à desigualdade entre as raças e os sexos. Neste momento em que a cobertura dessas campanhas é o foco principal dos canais de TV a cabo, os produtores e os críticos estão novamente apelando para a diversidade dos analistas políticos, que falam (e como falam) sobre assuntos como o pastor de Obama, o voto dos latinos, o Iraque e a economia.

Nesta temporada eleitoral, tanto a MSBNC quanto a CNN deram um novo papel de destaque a um punhado de comentaristas que têm os mais diversos antecedentes e pontos de vista: negros, latinos e mulheres. Alguns especialistas em mídia afirmam que a questão é saber se tais medidas indicam um progresso real no sentido de diversificar a "autocracia dos analistas", ou se elas simplesmente refletem as necessidades de um ciclo específico de notícias. Os cargos mais importantes na televisão continuam sendo quase que uma exclusividade daqueles que são brancos e do sexo masculino, e alguns críticos observam como esta não inclusão pode parecer chocante neste ano eleitoral.

"Independentemente do progresso que foi feito ultimamente em termos de colaboradores e comentaristas, as redes de TV a cabo ainda precisam percorrer um longo caminho até que tenham um perfil que reflita a composição do povo dos Estados Unidos", afirma Karl Frisch, porta-voz da Media Matters for America, um grupo liberal que fiscaliza as redes de televisão. Ele acrescenta que os indivíduos brancos e do sexo masculino se constituem na maioria dos apresentadores dos programas de entrevistas matinais de domingo, o principal horário nobre da programação de TV a cabo e - com a exceção de Katie Couric, que, relativamente falando, é uma recém-chegada - dos noticiários noturnos das redes de televisão.

"Mas os progressos graduais não devem ser descartados, ainda que mais mudanças sejam necessárias", afirma Pamela Newkirk, professora de jornalismo da Universidade de Nova York e autora do livro "Within the Veil: Black Journalists, White Media" (algo como, "No Local Mais Sagrado: Jornalistas Negros, Jornalismo Branco"), publicado em 2000 pela editora New York University Press.

Newkirk observa que os "astros súbitos" desta eleição têm sido os comentaristas negros com menos de 40 anos de idade, que dão opiniões na CNN, como o jornalista e apresentador de programas de entrevistas no rádio, Roland S. Martin; Amy Holmes, estrategista político conservador e ex-redator dos discursos do senador Bill Frist, republicano do Tennessee e ex-vice-presidente do Senado: e Jamal Simmons, estrategista democrata, simpatizante de Obama e porta-voz de imprensa veterano com experiência internacional.

"Eles trazem pontos de vista novos, que não estamos acostumados a ouvir na mídia tradicional", diz Newkirk. "Tomara que a importância de se contar com perspectivas diferentes seja valorizada para além desta campanha histórica".

A lista de comentaristas da CNN também inclui Alex Castellanos, um estrategista político republicano nascido em Cuba, e Leslie Sanchez, uma estrategista republicana norte-americana filha de pais mexicanos, que também tem aparecido na Fox News.

Donna Brazile, uma estrategista política democrata negra e famosa, também é uma colaboradora regular da CNN que fez parte da equipe de comentaristas da rede em 2004.

Os seus congêneres na MSNBC incluem Michelle Bernard, advogada negra e conservadora; Rachel Maddow, que é branca e apresenta um programa na estação liberal Air America Radio; Eugene H. Robinson, um colunista negro do jornal "The Washington Post"; e Joe Watkins, um estrategista republicano negro. Na semana passada, Harold Ford Jr., um ex-parlamentar do Tennessee, estreou na MSNBC como analista político. Ford, um democrata negro, foi analista da Fox News.

Juan Williams, um correspondente negro da National Public Radio, é um comentarista regular do programa "Fox News Sunday", que também convida analistas do sexo feminino e representantes de minorias, como Angela McGlowan, uma estrategista republicana negra; Michelle Malkin, uma jornalista filipino-americana conservadora; e Linda Chavez, que é hispânica e ocupou cargos administrativos no governo Reagan. Uma recente aquisição do programa é Laura Ingraham, apresentadora branca de um programa de entrevista de rádio.

Todos os comentaristas aparecem quando as redes necessitam deles, mas eles têm opinado mais na tela do que os especialistas externos convidados. Embora alguns deles ainda sejam desconhecidos para os telespectadores em geral, todos possuem currículos volumosos que em sua maioria incluem atuações no jornalismo, na política, em universidades, em organizações sem fins lucrativos e nos negócios.

"Estamos procurando atrair um novo público curioso pelo interesse amplo nesta campanha", diz Phil Griffin, vice-presidente da NBC News, e diretor-executivo da MSNBC.

Quando lhe perguntam como a rede encontra os seus comentaristas, Griffin diz: "É uma mensagem que corre de boca em boca. Alguém diz, 'Vamos usar tal pessoa'. Após a situação referente a Don Imus, tivemos que refletir e dizer que precisávamos assumir um grande compromisso em relação à diversidade".

Jon Klein, presidente das redes locais da CNN, diz acreditar que as mesmas forças históricas que colocaram Barack Obama e Hillary Clinton na ponta da disputa pela indicação democrata também significam que mais pessoas de cor e mais mulheres estão disponíveis como comentaristas. Ele diz que o canal não os convida apenas por causa desta eleição, e acrescenta que a CNN tem o compromisso de refletir a composição de todo o país.

"Com o advento da Internet, os consumidores perceberam que existem muitas outras vozes", diz ele. "Há uma quantidade enorme de pessoas escrevendo, trabalhando em organizações não governamentais de pesquisa política e em campanhas de propaganda".

Barbara Ciara, presidente da Associação Nacional de Jornalistas Negros dos Estados Unidos, diz que toda a cobertura eleitoral na televisão deixa "muito a desejar" quando se trata dos membros da sua organização. Segundo ela os especialistas negros muitas vezes desaparecem tão rapidamente como surgiram, e com freqüência falam apenas sobre raça.

Ela diz que uma mistura mais variada tem estado na linha de frente dos noticiários nas últimas duas semanas devidos a novos fatos: o discurso de Barack Obama sobre raça, motivado pela controvérsia a respeito das declarações do seu ex-pastor, Jeremiah A. Wright Jr.; e a afirmação de Geraldine Ferraro de que a raça de Obama é a razão para o sucesso político do candidato. Segundo Ciara e outros especialistas, a diversidade não rende apenas um bom jornalismo, mas também bons negócios.

"Não é necessário ser um neurocirurgião para entender que uma grande parcela dos telespectadores é negra, latina ou do sexo feminino", afirma Al Primo, um executivo do setor de telejornalismo que criou décadas atrás o telejornal no formato "Eyewitness News", e ajudou muitos jornalistas negros e latinos a estrearem na TV. Ele acrescenta: "Um telespectador latino-americano ou afro-americano não deseja ter a sensação de que as pessoas não estão compreendendo o seu ponto de vista".

Com horas a serem preenchidas, a cobertura política preenche grande parte do tempo dos canais a cabo. Durante a semana que incluiu o dia 5 de fevereiro último (o dia das eleições primárias de costa a costa dos Estados Unidos), o índice de audiência da CNN entre os telespectadores de 18 a 34 anos aumentou 232% em relação à semana correspondente na eleição de 2004, e, segundo os diretores da rede, 36% da sua audiência daquele dia consistiu de telespectadores negros e latinos. A Fox atraiu um número de telespectadores jovens 78% maior, e a MSNBC apresentou um aumento de audiência de 400% (embora referente a uma base de telespectadores bem menor) em relação à mesma semana durante a eleição de 2004.

Tom Rosenstiel, diretor do Projeto para Excelência no Jornalismo, diz que os programas de TV a cabo recorrem cada vez mais a pessoas capazes de analisar os desdobramentos das campanhas, em vez de limitarem-se a anunciar os acontecimentos. "Assim, as redes de televisão necessitam de mais especialistas e de uma variedade maior de especialistas", explica Rosenstiel.

"Na semana passada presenciamos uma diferença distinta nos comentários sobre o reverendo Wright por parte das pessoas que freqüentaram igrejas de negros, em relação aos que nunca as freqüentaram", afirma Gwen Ifill, correspondente do programa "The Newshour With Jim Lehrer", da PBS, e moderadora do "Washington Week".

Recentemente, na CNN, quando Martin entrevistou o convidado Tony Beans, do "Christian Worldview Today", ele foi capaz de garantir que os ouvintes da sua estação de rádio em Chicago entenderam porque Obama apoiou Wright.

"Em um outro ano qualquer, quando Geraldine Ferraro tivesse dito aquilo, as pessoas teriam afirmado que ela não tinha nenhuma mensagem em especial", acrescentou Martin, um colunista e autor que escreve para jornais de todo o país. Ele previu que haverá um apetite crescente por mais análises multidimensionais.

De fato, Sanches indicou que recebe vários convites das emissoras de televisão. "Estou em toda parte", disse ela, acrescentando que, além do seu trabalho na CNN, ela esteve recentemente no programa "Studio B With Shepherd Smith", da Fox, discutindo a polêmica a respeito do ex-pastor de Obama, bem como a briga relativa às primárias canceladas em Michigan e na Flórida.

Ela e Bernard, da MSNBC, assim como os outros analistas, afirmam que não se restringem a falar sobre questões referentes a raça e sexo, mas que também não repelem estes tópicos.

Bernard, presidente do Fórum Independente da Mulher, uma instituição de centro-direita de pesquisa e educação em Washington, recorda-se de ter desaprovado Patrick J. Buchanan, o comentarista conservador, por ter chamado Obama de "articulado", afirmando que este termo, quando usado para descrever uma pessoa negra bem sucedida, muitas vezes traz a conotação de um fato inesperado.

De acordo com os críticos, essas vozes diferentes injetaram um pouco de vida nova no mundo dos apresentadores de programas de entrevista.

"Nunca presenciamos tantos comentários sobre as mulheres enquanto eleitoras, exceto como mães de jogadores de futebol infantil", diz Marie C. Wilson, presidente do Projeto Casa Branca, que promove o avanço das mulheres nos negócios, na política e na mídia. "Agora se fala sobre mulheres brancas, mulheres afro-americanas, mulheres de mais de 60 anos. Isso sem falar nas latinas".

Mark Anthony Neal, um negro que leciona cultura popular negra na Universidade Duke, afirma: "Há uma demanda súbita por negros inteligentes. Estamos vendo muito menos indivíduos do tipo Jesse Jackson e Al Sharpton, e mais acadêmicos e pensadores. Isto é fundamentalmente uma resposta a Barack Obama, e também, em menor escala, a Hillary Clinton. Devido à combinação Hillary-Barack, estamos vendo mais mulheres negras no cenário de análise política".

Esta mudança que consiste em mais interpretação e menos narração de notícias exige uma maior transparência a respeito de quem está falando, diz Rosenstiel, do Projeto para Excelência no Jornalismo. Muitas vezes os canais colocam a legenda "Apoiador de Hillary Clinton" ou "Estrategista republicano" na tela, abaixo da imagem do analista.

"Se você não conhece bem essas pessoas, há um problema", diz Rosenstiel. "O fato de um indivíduo não estar oficialmente alinhado não significa que ele não tenha as suas preferências eleitorais".

Muitos dos especialistas dizem ter recebido uma resposta bastante positiva dos telespectadores. Martin diz que recebe mensagens de e-mail de alunos do segundo grau e que é cumprimentada por engraxates.

"Mesmo nesta era, as pessoas ainda não foram expostas a vários tipos diferentes de pessoas", afirma Bernard. "Portanto, é fundamental que nós todos estejamos aqui na TV, juntos, falando sobre os fatos que realmente têm importância". UOL

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