UOL Notícias Internacional
 

03/04/2008

Partido de Mugabe perde o controle sobre o parlamento de Zimbábue

The New York Times
Barry Bearak*
Em Harare, Zimbábue
O presidente Robert G. Mugabe e o seu partido perderam o controle sobre o parlamento do Zimbábue, segundo os resultados eleitorais divulgados na quarta-feira (02/04), o que confere mais importância à questão maior: isto pressagiaria a perda da própria presidência, o cargo ao qual ele se agarra com unhas e dentes há 28 anos?

Enquanto os frustrados zimbabuanos aguardavam durante um quarto dia pelos resultados oficiais da eleição presidencial, o principal partido oposicionista, liderado por Morgan Tsvangirai, anunciou a sua contagem final, proclamando a vitória com 50,3% dos votos, contra 43,8% de Mugabe - o que seria suficiente, por uma margem estreitíssima, para evitar um segundo turno.

Agora a nação está aguardando para verificar se a contagem oficial coincidirá com a da oposição, sabendo que não seria necessária uma manobra fraudulenta muito ousada para levar o país a um segundo turno daqui a três semanas.

Desmond Kwande/AFP - 2.abr.2008 
Zimbabuano repara pneu de bicicleta junto a muro com cartazes da campanha de Mugabe

Há sinais de que Mugabe aprovou um segundo turno, que, embora não tão humilhante quanto uma derrota sumária, ainda seria uma pílula difícil de engolir para um homem que detém o poder há 28 anos, e que se considera o pai da nação. A edição da manhã de quarta-feira do jornal estatal "The Herald" anunciou que o "padrão de resultados" indica que nenhum candidato "obterá mais de 50% dos votos, o que implicará em um segundo turno".

O jornal, considerado um canal de comunicação de Mugabe, não publicou nenhuma contagem de votos da eleição de sábado, e atribuiu a sua conclusão a analistas. Mas isso provavelmente significa que elementos do partido governista rogaram ao presidente que não abrisse mão do seu poder (e do poder deles), fosse persuadindo-o a lutar ou pelo menos a manter em aberto a opção de agir desta forma.

Mesmo assim, a comissão eleitoral confirmou na quarta-feira que o equilíbrio de poder sofreu um deslocamento inevitável no parlamento, que há muito tempo é um bastião de apoio a Mugabe. Faltando apenas a declaração do resultado de 11 disputas, o Movimento Pela Mudança Democrática, o partido oposicionista, conta ao todo com 106 cadeiras, incluindo uma para um aliado independente, na assembléia de 210 cadeiras. O partido de Mugabe, a Frente da União Patriótica Nacional Africana do Zimbábue, ou ZANU-PF, obteve apenas 93 cadeiras, e entre os seus candidatos derrotados estão sete ministros do atual governo.

Mas a presidência continua sendo uma outra questão. Um empresário que possui vínculos estreitos com a hierarquia partidária, falando sob a condição de manter-se no anonimato, disse que na noite da terça-feira Mugabe reuniu-se primeiro com os chefes militares e do serviço de inteligência, e depois com os membros de alto escalão do seu governo e com a diretoria do partido.

"Eles pediram a Mugabe que partisse para a guerra", disse o empresário, querendo dizer com isso que em um segundo turno o partido empregaria as táticas de intimidação e derramamento de sangue que surtiram resultados em campanhas anteriores, especialmente nas áreas rurais, cujo acesso pode ser interditado para os candidatos oposicionistas.
ZIMBÁBUE VAI ÀS URNAS
Alexander Joe/ AFP -4.abr.2008
Cartaz da campanha eleitoral de Mugabe é visto em rua de Harare
MUGABE ACABOU COM MUGABE
APOIO DOS MILITARES
DERROTA NO PARLAMENTO
MAIOR INFLAÇÃO DO MUNDO


Mugabe teria hesitado. Ele é um ex-libertador e estadista que se transformou em um autocrata brutal que será lembrado para sempre pelas campanhas assassinas movidas contra os seus inimigos e pelo confisco mal disfarçado das terras dos fazendeiros brancos, o que resultou na bancarrota da economia do país. Mugabe percebe uma forte rejeição à sua pessoa nos resultados eleitorais, e uma parte dele desejaria ceder, segundo o relato do empresário. Mesmo assim, disse a fonte, membros do governo teriam rogado a Mugabe que continuasse - embora não se possa verificar de forma independente até que ponto tais planos seriam reais.

Caso haja um segundo turno, a oposição está pronta, afirmou o secretário geral do partido, Tendai Biti, na entrevista coletiva que concedeu após os resultados. "Aceitaremos sob protesto. Mas isso será apenas um adiamento do inevitável". Ele previu que o presidente perderá no segundo turno por "uma margem embaraçosa", e sugeriu que Mugabe aceitasse a derrota graciosamente.

Biti também exigiu que a comissão eleitoral concluísse a contagem dos votos da eleição presidencial, insinuando que há alguma manobra traiçoeira em andamento. "Existe um vácuo. E um vácuo é preenchido por todos os tipos de irregularidades", diz ele. "Harare está fervilhando com conspirações e contra-conspirações".

Biti afirmou que as contagens feitas pela comissão eleitoral para o parlamento coincidiram com as do partido, porque os dois lados estão trabalhando com números que foram registrados em todos os locais de votação. Segundo ele, a exceção foram as discrepâncias constatadas na província de Mashonaland Central.

O atraso na publicação dos resultados gerou críticas internacionais. Na Romênia, onde o presidente Bush participa de uma reunião de líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), um porta-voz da Casa Branca disse na quarta-feira que o governo apóia os apelos para que Mugabe aceite os resultados da eleição, sugerindo que ele deveria deixar o cargo. No entanto o porta-voz não chegou a afirmar isso diretamente. "É evidente que o povo do Zimbábue votou por uma mudança", disse o porta-voz, Gordon D. Johndroe. O estado de espírito da oposição é de alegria. Os resultados demonstraram que ela obteve várias cadeiras parlamentares em áreas rurais nas quais anteriormente Mugabe era enormemente popular.

Patrick Chitaka obteve uma cadeira no Senado no distrito rural de Nyanga-Mutasa, na província de Manicaland. "Nós varreremos Mugabe do mapa", declarou ele ao referir-se à perspectiva de um segundo turno. "O povo está cansado de ser pobre, e agora que os eleitores sabem que o malfeitor pode ser destronado eles comparecerão em número mais elevado do que no primeiro turno. Até mesmo anciões de bengala comparecerão às urnas. Em 2000 e em 2002, Mugabe confiscou as terras dos brancos e usou isso para atrair os eleitores. Mas agora vemos que ele destruiu não só a agricultura comercial mas também a agricultura de subsistência. As únicas pessoas que lucraram com aquela iniciativa foram os figurões que se locupletaram".

Mas, caso haja de fato um segundo turno, isto criaria dificuldades para a oposição. Grupos cívicos e o partido de Tsvangirai espalharam milhares de fiscais eleitorais por todo o país, a fim de prevenir fraudes nas urnas e garantir que os votos fossem contados de forma transparente, e que os resultados fossem publicados em locais públicos. Pode ser difícil recriar tal iniciativa, especialmente em uma nação economicamente devastada, na qual uma operação de tal dimensão exige o uso de gasolina escassa e de um sistema de telefonia celular problemático.

Um aspecto positivo foi o fato da eleição de sábado ter sido relativamente isenta da violência que caracterizou tantas outras campanhas. Muitos temiam que, encostado à parede, e com o apoio de líderes militares e policiais, Mugabe pudesse extravasar o seu desespero de forma violenta.

"Desta vez, muitas áreas que tradicionalmente votavam em Mugabe apoiaram Tsvangirai, e as pessoas dessas regiões serão recriminadas", afirma Useni Sibanda, coordenador nacional da Aliança Cristã do Zimbábue.

Caso haja um segundo turno, a aliança pretende enviar delegações nesta semana à África do Sul, a Zâmbia e à Tanzânia para pedir aos presidentes daqueles países que implorem a Mugabe que renuncie - ou que no mínimo enviem observadores para monitorar a eleição, disse Sibanda.

*Steven Lee Myers, em Bucareste, na Romênia, contribuiu para esta matéria. UOL

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