UOL Notícias Internacional
 

03/04/2008

Plano iraquiano de ataque a Basra foi considerado deficiente pelos EUA

The New York Times
Michael R. Gordon

Em Bagdá
O embaixador Ryan C. Crocker tomou conhecimento do plano iraquiano em 21 de março: o primeiro-ministro Nouri Kamal al Maliki seguiria para Basra com tropas iraquianas para impor ordem na cidade.

Mas a operação iraquiana não foi o que os Estados Unidos esperavam. Em vez de aumentar metodicamente seu poder de combate e acelerar gradualmente as operações contra as milícias renegadas, as forças de Al Maliki investiram contra a cidade, atacando antes da chegada de todos os reforços iraquianos. Em 25 de março, uma grande batalha estava em andamento.

"A sensação que tínhamos era de que este seria um esforço de longo prazo: um aumento gradual de pressão sobre os Grupos Especiais", disse Crocker em uma entrevista, usando o termo americano para as milícias apoiadas pelo Irã. "Não foi o que aconteceu."

Qais Mizher/The New York Times 
Milicianos xiitas (f) em Basra travaram combates com forças iraquianas e americanas

"Nada estava posicionado do nosso lado", ele acrescentou. "Tudo tinha que ter sido reunido."

O governo Bush retratou a ofensiva iraquiana em Basra como um "momento definidor" -uma demonstração inequívoca de que o governo iraquiano, há muito criticado por sua inação, tinha tanto a vontade quanto os meios para lidar com as milícias renegadas.

A operação indica que as forças armadas iraquianas podem rapidamente organizar e enviar forças a distâncias consideráveis; dois aviões C-130 iraquianos e vários helicópteros iraquianos também estiveram envolvidos na operação, um passo importante para uma força militar que ainda está lutando para desenvolver uma capacidade de combate aéreo.

Mas entrevistas com uma série de funcionários e oficiais americanos também sugerem que Al Maliki superestimou a capacidade de suas forças armadas e subestimou a escala da resistência. O primeiro-ministro iraquiano também exibiu um estilo de liderança impulsivo, que não deu tempo para que suas forças, ou as de seus aliados mais poderosos, os americanos e britânicos, se prepararem.

"Ele foi com uma vareta e espetou o vespeiro, e a resistência que recebeu foi um pouco maior do que ele esperava", disse um oficial da coalizão em Bagdá, que pediu anonimato. "Eles prosseguiram com 70% do planejado. Às vezes basta. Desta vez não."

Com o aumento das baixas civis e militares iraquianas e o plano iraquiano parecendo pouco mais que um improviso, os Estados Unidos montaram um esforço político e militar intensivo para tentar reverter a situação, segundo relatos de Crocker e vários oficiais militares americanos em Bagdá e Washington, que falaram sob a condição de anonimato.

Dois altos oficiais americanos -um membro dos SEALs da Marinha e um general do Corpo de Marines- foram enviados para Basra para ajudar a coordenar o planejamento iraquiano, disseram os oficiais militares. Soldados da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército foram pressionados a entrar em serviço como consultores de combate enquanto controladores aéreos eram posicionados para requisitar os ataques aéreos em nome das unidades iraquianas em dificuldades. Aviões americanos se juntaram aos iraquianos no transporte de suprimentos para as tropas iraquianas.

Em Bagdá, Crocker fazia lobby junto às autoridades no governo iraquiano, que se queixavam de terem sido excluídas da tomada de decisão de Al Maliki em relação a Basra, para que apoiassem o esforço do primeiro-ministro lá.

"Eu destaquei que se tratava de um momento de crise nacional, que tinham que pensar nacionalmente, que ninguém deveria pensar que um fracasso em Basra beneficiaria algum elemento da comunidade iraquiana", disse Crocker. "A resposta foi boa. Eu não encontrei nenhum elemento do governo iraquiano que admitirá ter sido consultado."

Basra, a segunda maior cidade do Iraque, se encontra sobre vastas reservas de petróleo e está localizada estrategicamente no porto do canal Shatt al Arab, que controla o acesso do Iraque ao Golfo Pérsico.

Predominantemente xiita, ela sofre com disputas internas entre as várias milícias xiitas, forças tribais e gangues criminosas que lutam pelo controle de seu contrabando lucrativo e receita do petróleo. Até mesmo parte da polícia iraquiana parece estar sob influência dos grupos milicianos.

As tropas britânicas, que forneciam a principal presença aliada na província após a invasão em 2003, se retiraram do centro da cidade em setembro passado e formalmente entregaram Basra para controle iraquiano em 16 de dezembro, se deslocando para uma posição de "supervisão" em um aeroporto fora do centro da cidade.

Há uma crescente preocupação no governo iraquiano com a desordem na cidade. Nas últimas semanas, o general Mohan al Fireji, um alto comandante iraquiano em Basra, propôs o envio de forças adicionais.

Por causa desta sugestão, um plano detalhado estava sendo desenvolvido por oficiais americanos e iraquianos, envolvendo o estabelecimento de postos avançados de combate na cidade e o envio de equipes SWAT iraquianas, Forças Especiais iraquianas e unidades do Ministério do Interior, assim como brigadas iraquianas.

O plano foi apresentado na reunião na noite de 21 de março convocada pelo general David H. Petraeus com Mowaffak al Rubaie, o conselheiro de segurança nacional de Al Maliki. No final da reunião, foi pedido a Petraeus que se encontrasse com Al Maliki na manhã seguinte. O primeiro-ministro, ao que parecia, tinha suas próprias idéias sobre como lidar com Basra e planejava viajar até a cidade para supervisionar a implantação de seu plano.

"Na prática, grande parte da cidade estava sob controle das milícias e assim se encontrava há algum tempo", disse Crocker. "Maliki ficou ouvindo isso juntamente com algumas descrições bem gráficas dos excessos das milícias e decidiu: 'Eu vou até lá e cuidarei disso'. Eu acho que para ele era um momento Karbala."

Em agosto passado, Al Maliki correu até Karbala após um surto de violência entre xiitas, demitiu o comandante da polícia e supervisionou um esforço bem-sucedido de restaurar a ordem na cidade.

Mas um funcionário americano de inteligência em Washington tinha uma interpretação um tanto diferente das motivações do primeiro-ministro. Apesar de restaurar a ordem ser sua meta declarada, ele afirmou, o líder iraquiano também estava ávido em enfraquecer o Exército Mahdi, assim como o partido político afiliado do clérigo renegado Muqtada Al Sadr, antes das eleições provinciais no sul, que deverão ser realizadas neste ano. O Conselho Islâmico Supremo do Iraque, um partido político e milícia xiita rivais de Al Sadr, seu partido e sua milícia, formam uma parte crucial da coalizão política de Al Maliki.

Quando Al Maliki se encontrou com Petraeus na manhã de 22 de março, ele indicou que sua meta era enfrentar os "criminosos e líderes de gangue" em Basra, segundo um relato da reunião por um funcionário americano. Al Maliki explicou que a operação seria um assunto iraquiano, mas que poderia precisar de apoio aéreo americano.

Ele disse que se encontraria com os xeques, figuras religiosas e outros líderes locais, para tirar proveito da influência adicional que esperava ganhar com o envio das tropas, promoção de programas de desenvolvimento econômico e envio de equipes de juízes para julgar e punir o comportamento corrupto e violento.

"Foi uma decisão unilateral de Maliki", disse um funcionário americano familiarizado com a reunião. "Era um assunto liquidado."

Para os americanos, o momento não era bom. As forças armadas americanas tinham pouco interesse em ver uma operação planejada às pressas e que poderia abrir uma nova frente de combate ao tentar Al Sadr a anular seu cessar-fogo, que contribuiu para a redução dos ataques nos últimos meses. Crocker e Petraeus também deveriam testemunhar no Congresso no próximo mês sobre os frágeis ganhos políticos e de segurança obtidos no Iraque.

Segundo um funcionário americano, Petraeus transmitiu a mensagem de que apesar da decisão estar nas mãos do governo iraquiano, "nós obtivemos vários ganhos nos últimos seis a nove meses que vocês colocariam em risco".

Mas se Al Maliki estava determinado a agir, Petraeus o aconselhou a não se lançar de forma precipitada em uma luta sem avaliar cuidadosamente a situação e fazer os preparativos adequados, disse o funcionário. O envio de duas brigadas do exército iraquiano, forças especiais e forças do Ministério do Interior era uma tarefa complicada que, na melhor das circunstâncias, testaria o sistema de controle e comando e a logística iraquiana.

As forças iraquianas começaram a chegar em 24 de março. O ataque a Basra teve início um dia depois.

Relatos de Basra indicaram que as milícias estavam altamente entrincheiradas. Para aumentar os problemas, os iraquianos não confiaram nos britânicos e não os incluíram em seu planejamento, segundo um alto oficial americano.

Diante de um combate que se intensificou além do que os Estados Unidos antecipavam, os comandantes americanos adotaram vários passos para apoiar os iraquianos.

O almirante Edward G. Winter, um membro da divisão de Operações Especiais da Marinha conhecida como SEALs, foi enviado em 25 de março para liderar uma equipe de ligação americana que acompanhou Al Maliki até Basra.

O general Lloyd J. Austin III, comandante das operações diárias das forças americanas e aliadas no Iraque, foi para Basra em 27 de março para avaliar a situação. No dia seguinte, seu principal vice, o general George J. Flynn, foi enviado para o Centro de Operações em Basra, um centro de comando que supostamente deveria supervisionar as operações militares. Flynn, um oficial do Corpo de Marines, comandou uma equipe de planejadores americanos e outro pessoal.

Os Estados Unidos também enviaram controladores aéreos para requisitar os ataques aéreos em nome das unidades iraquianas e deslocaram helicópteros adicionais e aeronaves não-tripuladas para Basra e para a vizinha Tallil.

Não havia consultores militares suficientes para todos os reforços iraquianos que foram enviados às pressas ao sul. Assim, os Estados Unidos pegaram uma companhia da 1ª Brigada da 82ª Divisão Aerotransportada. Ela foi dividida em dois pelotões, que foram reforçados com controladores da Força Aérea e instruídos a ajudarem as forças iraquianas.

Os Estados Unidos ajudaram os iraquianos a transportar suprimentos com um avião de carga C-130. Mas os iraquianos também começaram a enviar suprimentos usando seus dois C-130. Mais de 500 soldados iraquianos substitutos foram transportados pelo ar enquanto uma brigada adicional foi enviada por terra. Os iraquianos também usaram helicópteros Huey e Hip.

Fazendo uso da doutrina americana de contra-insurreição, os Estados Unidos encorajaram os iraquianos a distribuírem ajuda e a organizarem programas de emprego para tentar conquistar a população de Basra.

Para facilitar a distribuição dos suprimentos, funcionários americanos da Agência para o Desenvolvimento Internacional voaram para Basra ao lado de funcionários iraquianos para trabalharem com os funcionários da ONU. Os americanos também encorajaram Al Maliki a prosseguir com seu plano de buscar aliança com as tribos xiitas, como os americanos fizeram com as tribos sunitas no chamado Despertar de Anbar.

"Nós o encorajamos fortemente a usar sua arma mais substancial, que é o dinheiro, para anunciar grandes programas de empregos, a limpeza de Basra e tudo mais", disse Crocker. "E a fazer o que tinha decidido fazer por conta própria: pagar figuras tribais para efetivamente financiar um despertar de Basra."

*Reportagem de Michael R. Gordon e Stephen Farrell, em Bagdá, e Eric Schmitt, em Washington, e escrita por Gordon. George El Khouri Andolfato

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