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04/04/2008

Ex-rota do tráfico de ópio simboliza integração da China com o Sudeste Asiático

The New York Times
Thomas Fuller
Em Luang Namtha, no Laos
A recém-reformada Rota 3 que passa por esta remota vila é uma estrada asfaltada comum, o tipo de pista dupla que alguém esperaria encontrar em meios às florestas do Estado de Vermont ou aos campos de girassóis nas províncias francesas.

Mas para On Leusa, 70, que mora perto da Rota 3, a rodovia é considerada "de luxo".

Quando era jovem ela participava do comércio de ópio e de ossos de tigre ao longo da estrada, que naquela época era pouco mais do que uma trilha de cavalos.

Na segunda-feira, os primeiros-ministros do Camboja, da China, do Laos, de Mianmar, da Tailândia e do Vietnã inauguraram oficialmente a ex-rota de tráfico de ópio como a parte final daquilo que chamam de "corredor econômico norte-sul", uma rede de rodovias de 1.850 quilômetros ligando a cidade chinesa de Kunming a Bancoc.

Justin Mott/The New York Times 
Mulher caminha na Rota 3, que dá acesso ao Laos e já foi rota do tráfico de ópio

A rede, que até dezembro do ano passado ainda tinha várias partes não pavimentadas, é um grande marco para a China e os seus vizinhos do sul. As montanhas baixas daqui, que formam a base da Cordilheira do Himalaia, foi durante vários séculos uma fronteira defensiva natural entre as civilizações do Sudeste Asiático e o império gigante do norte. A estrada raramente segue uma linha reta, enquanto passa por culturas de arroz e de chá plantadas em curva de nível nas montanhas.

Atualmente, as mesmas civilizações do Sudeste Asiático ao mesmo tempo aspiram uma maior integração com aquele império e temem o poder do gigante econômico emergente. A China, por sua vez, cobiça as terras, os mercados e os recursos naturais de uma das regiões mais intocadas e menos desenvolvidas da Ásia.

Com o comércio por estas fronteiras experimentando um aumento de dois dígitos a cada ano, a China ajudou a construir uma série de estradas dentro do território dos seus vizinhos do sul. O governo chinês está arcando com metade dos custos da construção de uma ponte sobre o rio Mekong, entre o Laos e a Tailândia, que deverá ser concluída em 2011.

Pequim financiou a construção de partes da Rota 3, e reformou estradas no norte de Mianmar, incluindo a histórica Estrada de Burma, usada pelos aliados na Segunda Guerra Mundial para abastecer as tropas que lutavam contra os japoneses. A China está também construindo um oleoduto e um gasoduto da baía de Bengala a Kunming, passando por Mianmar.

Juntas, estas estradas estão rompendo o isolamento das regiões elevadas e esparsamente habitada do Laos, de Mianmar e do Vietnã, áreas que em décadas recentes padeceram com guerras, rivalidades étnicas e o tráfico de heroína. As estradas passam pelo centro do Triângulo Dourado, a região que já chegou a ser responsável por 70% da produção mundial de ópio.

As novas estradas, bem como portos reformados ao longo do rio Mekong, estão modificando as dietas e os hábitos de consumo dos dois lados da fronteira. A China está vendendo frutas e verduras de clima temperado aos vizinhos do sul, e compra destas frutas tropicais, borracha, cana de açúcar, óleo de palmeira e frutos do mar.

"Nunca víamos maçãs nos mercados tradicionais", afirma Ruth Banomong, uma especialista em logística que leciona na Universidade Thammasat, em Bancoc.

A China dragou trechos rasos do Mekong a fim de tornar o rio mais facilmente navegável para as barcaças de carga, permitindo aos comerciantes transportar maçãs, peras e alface rio abaixo. O preço das maçãs na Tailândia caiu para o equivalente a 20 centavos de dólar a unidade. Dez anos atrás cada maçã custava o equivalente a um dólar. Rosas e outras flores vindas da China desbancaram as flores importadas da Holanda, tornando as compras do Dia dos Namorados mais acessível para os tailandeses. Agora os comerciantes têm as opções de fazer o transporte por barcaça, por caminhão ou por ambos.

De forma geral, mesmo antes da conclusão da rodovia, o comércio entre a China e a região montanhosa do Camboja, do Laos, de Mianmar, da Tailândia e do Vietnã cresceu de forma impressionante, saltando de US$ 1 bilhão uma década atrás para os US$ 53 bilhões registrados em 2007.

E as pessoas também estão se locomovendo mais. Segundo Wang Suqin, diretora de serviços expressos do terminal rodoviário de Kunming, os turistas chineses estão ansiosos para viajar por terra até a Tailândia.

"Todos os dias recebemos telefonemas de pessoas pedindo informações sobre esta viagem", diz Wang.

As viagens de ônibus até Bancoc, que ainda não estão disponíveis, durarão pelo menos 24 horas, mas, de acordo com Wang, isso não se constitui em um empecilho, e sim em parte da diversão. "Ninguém vai querer perder a paisagem ao longo da viagem", explica ela.

Durante uma jornada de uma semana pelas cidades e vilas ao longo da rota de Kunming a Bancoc, plantadores de arroz, colhedores de chá, empresários, comerciantes e autoridades governamentais expressaram satisfação e uma certa euforia quanto ao fato de um projeto em andamento há décadas estar quase concluído.

Chen Jinquiang, uma autoridade do governo chinês de Xishuangbanna, na província de Yunnan, diz que a estrada ajudará a garantir que os agricultores coloquem os seus legumes, verduras e flores no mercado, evitando um problema ocorrido na década de 1980, quando a deficiência do sistema de transporte fazia com que melancias apodrecessem nos campos. "Até os porcos recusavam-se a comê-las", conta Jinqiang.

Mas a estrada também reaviva antigos temores em relação ao "monolito do norte". Preecha Kamolbutr, governador da província de Chiang Rai, no norte da Tailândia, diz que a rota poderá exacerbar aquilo que ele chama de uma "invasão chinesa". Ele está especialmente preocupado com o Laos, um país pobre do tamanho da Grã-Bretanha, mas com uma população de apenas 6,5 milhões de habitantes.

"Os empresários chineses chegam com o seu próprio capital, os seus próprios trabalhadores e os seus próprios materiais de construção", observa o governador. "Temo que no futuro o povo do Laos possa sentir que foi explorado. Eles perceberão que foram invadidos".

Por ora, esses medos não parecem ser compartilhados por vários laocianos. Moradores da pouco habitada província de Luang Namtha dizem que vêem com bons olhos os visitantes, e que estão contando com um grande fluxo de chineses, tailandeses e outros para ajudar a aumentar as suas rendas.

Alinda Phengsawat, diretora de planejamento turístico da província, diz que a estrada traria visitantes para aquela que até o momento é uma parte muito remota do país.

"Talvez eles passem a noite aqui", diz ela. "Isso seria melhor do que se apenas viessem de passagem".

Os moradores locais dizem que, depois que a pavimentação foi concluída no final do ano passado, pessoas que moram no interior da selva vieram até a beira da estrada para venderem verduras e produtos da floresta.

"Existe um grande interior que é muito mal servido até o momento, de Kumming, passando pelo Laos, até o norte da Tailândia", afirma John Cooney, diretor do departamento de infra-estrutura da divisão do Sudeste Asiático do Banco de Desenvolvimento Asiático, que financiou um trecho da estrada no Laos. "Essa região está transformando-se subitamente em um mercado".

O Laos, carente de dinheiro, está encorajando os investimentos chineses fornecendo aquilo que o país possui em abundância: terra. O vice-primeiro-ministro Somsavat Lengsavad disse que o governo trocará "terra por capital".

Recentemente o governo concedeu a uma companhia chinesa um contrato de 50 anos, que pode ser renovado, para a utilização de um trecho de terras férteis próximo à capital, Vientiane, em troca da construção de um estádio de esportes. Aqui em Luang Namtha, uma companhia chinesa recebeu direitos válidos por 30 anos para construir e operar aquela que é denominada eufemisticamente Zona de Desenvolvimento Econômico Bo Ten.

Até o momento as maiores atrações não são as fábricas ou depósitos tipicamente associados a essas zonas, mas sim um cassino, que, segundo Alinda, não pode ser visitado por apostadores laocianos.

"Fui até lá e todos falavam chinês", conta Pansak Gardhan, um engenheiro tailandês que está ajudando a reconstruir o pequeno aeroporto em Luang Namtha. "Todos os sinais estavam escritos em chinês".

Os chineses que vêm para cá para apostar dirigirão por aquele que provavelmente é o trecho mais bonito da rodovia Kunming-Bancoc, uma auto-estrada de quatro pistas que passa por vales e montanhas pontilhados de seringais e plantações de chá.

Li Hui, um funcionário do escritório de relações exteriores da província de Yunnan, que faz divisa com o Laos, diz que viagem por um dos trechos da jornada de Kunming até a fronteira costumava durar três dias. "Metade das pessoas vomitava", conta Li. Com a nova estrada, o mesmo trecho pode ser percorrido em apenas algumas horas.

Os chineses investiram US$ 4 bilhões na construção da estrada de Kunming até a fronteira. Um trecho especialmente difícil da estrada exigiu a construção de 430 pontes e 15 túneis. Essa parte da estrada também é monitorada por 168 câmeras controladas por funcionários do departamento de estradas, que verificam se não há elefantes - calcula-se que 275 elefantes vivam na área - ou animais abandonados na pista. As câmeras também ajudam a polícia a prender pessoas suspeitas de terem cometido crimes.

"Nós ajudamos a resolver 130 casos de tráfico de droga, roubos e assassinatos", gaba-se Zhang Zhulin, diretor da parte chinesa da auto-estrada, que foi inaugurada em abril de 2006.

Em uma grande sala com uma placa na entrada com os dizeres, "Não entre!", Zhang maneja um controle para mostrar como é capaz de observar diferentes partes da estrada e de observar de perto os rostos dos passageiros dos carros que passam pelos postos de pedágio.

A estrada Kunming-Bancoc não é uma experiência totalmente destituída de problemas. Existem trechos no lado chinês que ainda precisam ser reformados. Como a ponte sobre o Mekong ainda está em fase de planejamento, os passageiros precisam atravessar o rio de barca na fronteira entre a Tailândia e o Laos. E a burocracia nos postos de fronteira, especialmente no que se refere às cargas, pode atrasar a viagem em horas.

Mas a estrada é sem dúvida um aprimoramento em relação àquela que On conheceu quando criança. O filho dela a leva para passear na sua caminhonete Toyota, mas ela não está interessada em ir muito longe. "Fico enjoada", justifica On. UOL

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