UOL Notícias Internacional
 

04/04/2008

Krugman: economia da saúde vodu

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Elizabeth Edwards tem câncer. John McCain já teve câncer. No último fim de semana, Elizabeth Edwards apontou sem rodeios que nenhum deles conseguiria obter cobertura segundo o plano de McCain para o atendimento de saúde.

Já era hora de alguém dizer isso e, de forma mais geral, argumentado que a abordagem de McCain para o atendimento de saúde se baseia em economia vodu -não o vodu do lado da oferta, que alega que redução de impostos aumenta a receita (apesar de McCain também dizer isso), mas a alegação igualmente tola, refutada por toda a evidência disponível, de que a magia do mercado pode produzir atendimento de saúde barato para todos.

Como Elizabeth Edwards apontou, o plano de McCain para a saúde não faria nada para impedir os planos de saúde de negarem cobertura para aqueles, como ela e McCain, que possuem condições médicas pré-existentes.

A resposta da campanha de McCain foi condescendente e desdenhosa -uma declaração de que Elizabeth Edwards não entende a natureza abrangente da abordagem do senador, que exploraria o "poder da concorrência para produzir maior cobertura para os americanos", reduzindo custos para que até mesmo pessoas com condições pré-existentes possam ter condições de pagar um plano de saúde.

Isto é uma tolice em múltiplos níveis.

Primeiro, mesmo se você aceitar a premissa de que a concorrência reduziria os custos do atendimento de saúde, a idéia de que poderia cortar os custos o suficiente para deixar o seguro a preço acessível aos americanos com histórico de câncer ou outras grandes doenças é pura fantasia.

Além disso, não há motivo para acreditar nestas supostas reduções de custos. As seguradoras tentam conter as "perdas médicas" -o termo do setor para o que acontece quando uma seguradora de fato acaba tendo que honrar seu compromisso de pagar as contas médicas de um cliente. Mas elas não fazem isto promovendo atendimento médico custo-eficaz.

Em vez disso, elas reduzem os custos dando cobertura apenas a pessoas com saúde, fazendo uma triagem para eliminar aqueles que mais precisam de cobertura -exatamente o argumento de Edwards. Elas também negam o máximo de reembolsos possível, forçando médicos e hospitais a gastarem grandes somas na briga para serem pagos.

E a evidência internacional dos custos do atendimento de saúde é esmagadora: os Estados Unidos contam com o sistema mais privatizado, com a maior concorrência de mercado -e também possui os custos mais altos de atendimento de saúde do mundo.

Mas o plano de McCain para a saúde -na verdade apenas uma listagem no site da campanha- é totalmente baseado na fé cega de que a concorrência entre os planos de saúde resolverá todos os problemas.

Eu gostaria de destacar um destes itens em particular -a primeira proposta substantiva que McCain oferece (as demais não são nada mais que clichês para que as pessoas se sintam bem).

Como mencionei em colunas anteriores, a Administração de Assuntos dos Veteranos é uma das poucas histórias americanas de sucesso na luta para conter os custos do atendimento de saúde.

Desde sua reforma durante os anos Clinton, a Administração de Assuntos dos Veteranos (VA, na sigla em inglês) faz uso do fato de ser um sistema integrado -um sistema que assume a responsabilidade a longo prazo pela saúde de seus clientes- para fornecer uma combinação impressionante de atendimento de alta qualidade e baixo custo. Ela também saiu na frente no uso de tecnologia da informação, que tanto economiza dinheiro quanto reduz os erros médicos.

É claro que McCain deseja privatizá-la e, na prática, desmontar a VA. Naturalmente, esta agenda destrutiva vem enrolada na bandeira: "Os veteranos da América lutaram pela nossa liberdade", diz o site de McCain. "Nós temos que dar a eles a liberdade de escolher transferir seus dólares da VA para um plano de saúde que lhes dê o atendimento oportuno, com alta qualidade e na melhor localização".

Esta é uma receita para fazer com que os veteranos com saúde deixem o sistema, minando sua natureza integrada e drenando os recursos.

McCain, portanto, está oferecendo uma abordagem totalmente equivocada para o atendimento de saúde. Mas a forma como a campanha pela indicação democrata está se desdobrando levanta dúvidas sobre quão eficaz seu futuro oponente apresentará tal argumento.

De fato, ao mesmo tempo em que Edwards concentrava suas críticas em McCain, ela deixou claro que prefere a abordagem de Hillary Clinton -"o plano da senadora Clinton é um ótimo plano"- do que a de Barack Obama. O plano de Clinton lembra muito o plano de cobertura universal que John Edwards apresentou há mais de um ano. Em comparação, Obama oferece um plano diluído que fica aquém da universalidade e que teria custos maiores por pessoa coberta.

Pior, Obama atacou os planos de saúde de seus rivais democratas usando argumentos conservadores sobre escolha e o mal do governo lhe dizer o que fazer. Isto dificultará -caso ele seja indicado- para que refute McCain quando apresentar argumentos semelhantes em prol de coisas como a privatização do atendimento aos veteranos.

Ainda assim, o atendimento de saúde deveria ser um tema importante nesta campanha. Eu me pergunto se teremos tempo para discuti-lo depois de lidarmos com os temas mais importantes, como boliche e basquete. George El Khouri Andolfato

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