UOL Notícias Internacional
 

04/04/2008

Um novo rosto para a Al Qaeda em sua guerra contra o Ocidente

The New York Times
Michael Moss e Souad Mekhennet
Na noite de 10 de julho de 2005, um pregador militante obscuro chamado Abu Yahya Al Libi escapou de uma prisão americana no Afeganistão e ganhou fama no mundo dos jihadistas.

A fuga de Libi e três companheiros de cela da Base Aérea de Bagram -eles arrombaram um cadeado, se esquivaram dos guardas e atravessaram o vasto terreno da base até a liberdade- embaraçou os oficiais americanos tão profundamente quanto deliciou o movimento jihadista. Nos quase três anos desde então, a ascensão meteórica de Libi dentro da liderança da Al Qaeda provou ser ainda mais problemática para as autoridades.

Libi, um líbio supostamente na faixa dos 30 e tantos anos, é atualmente considerado um alto estrategista da Al Qaeda, assim como um de seus promotores mais eficazes da jihad global, aparecendo em uma dúzia de vídeos de sites militantes no ano passado, disseram autoridades de contra-terrorismo. Em um momento em que a Al Qaeda parece mais inspiradora do que operacional, Libi se destaca como um astro formidável, cuja ascensão para a proeminência marca a crescente ênfase do grupo na informação em sua guerra com o Ocidente.

Intel Center/The New York Times 
Imagem de vídeo da Al Qaeda divulgado pela IntelCenter mostra Abu Yahya al-Libi

"Eu o considero um pau para toda obra na Al Qaeda", disse Jarret Brachman, um ex-analista da CIA que atualmente é diretor de pesquisa do Centro de Combate ao Terrorismo em West Point, Nova York. "Ele é um guerreiro. É um poeta. É um estudioso. É um especialista. É um comandante militar. E é um jovem muito carismático, um ousado astro ascendente dentro da Al Qaeda, e acho que ele se tornou o aparente herdeiro de Osama Bin Laden em termos de tomada de todo o movimento jihadista global."

O sigilo que envolve a estrutura de liderança da Al Qaeda torna estas estimativas especulativas, notaram outros analistas. Mas um islamita bem informado disse que além de jovem e carismático, Libi possui uma habilidade que os líderes da Al Qaeda há muito careciam: erudição religiosa. Talvez com isso em mente, a Al Qaeda está exibindo Libi, que passou dois anos na África estudando o Islã, em tantos vídeos quanto os dois principais líderes do grupo, Bin Laden e Ayman Al Zawahri.

"Bin Laden é um engenheiro e Zawahri é um médico", disse o dr. Muhammad Al Massari, um dissidente saudita que vive em Londres. "Então é importante que também apresentem alguém que tenha o papel de estudioso."

Os vários papéis de Libi nos vídeos, de recrutador a reforçador ideológico, também apontam para a mudança de tática da Al Qaeda. Nos últimos meses, estas táticas passaram a incluir manobras defensivas visando desarmar as contra-operações de mídia dos Estados Unidos e seus aliados.

Astuto e à vontade no vídeo, Libi transmite sua mensagem com a cadência de um pregador. Seu turbante preto cai até o peito e ele alterna entre mantos árabes brancos e jaquetas de camuflagem.

"Ó jovens muçulmanos no Oriente e no Ocidente, que escutam a Deus chamando vocês: 'Vão à guerra, seja fácil ou difícil para vocês, e esforcem-se na causa de Deus com suas posses e suas vidas'", ele disse em um sermão em vídeo divulgado neste ano.

Mas cada vez mais, Libi usa seus vídeos não para expandir a base da Al Qaeda, mas para sustentá-la. Ele atacou os estudiosos muçulmanos moderados que acusam a Al Qaeda de usar falsas interpretações do Alcorão para justificar a jihad. Ele zombou dos esforços da Arábia Saudita de persuadir os militantes presos a desistirem da luta.

Em um discurso de 93 minutos no ano passado, Libi alertou os simpatizantes da Al Qaeda a se prepararem para um aumento da guerra psicológica com uma carga de propaganda falsa. Ele citou um rumor de que a Constituição da Al Qaeda pede pela morte de qualquer um que romper com o grupo: "A Al Qaeda e seus líderes são nobres e puros demais para descerem ao nível podre de tamanha tolice".

Estas e outras comunicações francas de Libi levaram analistas de inteligência, no centro em West Point e em outras partes, a se debruçarem sobre seus vídeos como kremlinologistas à procura de pistas operacionais das intenções soviéticas.

Libi iniciou sua carreira como um militante em um caminho acadêmico, segundo um líbio que diz tê-lo conhecido. Seu irmão mais velho, atualmente preso na Líbia, foi uma figura crucial no Grupo de Combate Islâmico Líbio, cujos membros foram ao Afeganistão para ajudar a derrotar a União Soviética.

Libi, que foi ao Afeganistão no início dos anos 90, foi enviado de volta ao Norte da África para estudar o Islã na Mauritânia. Quando ele voltou dois anos depois, o Afeganistão não era mais um campo de batalha para militantes líbios, mas sim um santuário: o Taleban controlava grande parte do país.

O treinamento em combate de Libi era mínimo, e seus primeiros trabalhos como pregador islâmico raramente tocavam em ação militante, segundo o homem líbio que disse ter conhecido Libi no Afeganistão, e que falou sob a condição de anonimato por motivos de segurança. "Ele começou a visitar os campos de treinamento e a falar sobre a sharia", ou lei islâmica, disse esse homem em uma entrevista por telefone, sobre "moral, etiqueta, como agir".

Um ano depois dos ataques do 11 de Setembro, Libi foi capturado pelas autoridades paquistanesas e entregue às autoridades americanas, que no final o colocaram na prisão de Bagram.

Em um vídeo produzido após sua fuga em 2005, Libi e seu companheiros fugitivos narram sua fuga, dando crédito a Deus por ter distraído seus captores. Uma nova versão que atualmente circula nos sites jihadistas reencena parte da fuga com toque dramático.

Presume-se que Libi, que já foi conhecido pelos nomes Hasan Qaiid e Yunis Al Sahrawi, esteja na área de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.

Ele parece ter ascendido rapidamente no círculo interno da Al Qaeda.

Libi estava entre os líderes da Al Qaeda que enviaram cartas para censurar Abu Musab Al Zarqawi, o líder militante que foi morto no Iraque em 2006, que sentiam estar minando a estratégia global do grupo ao atacar civis demais.

"Eu compartilho com você sua grande jihad", ele escreveu em uma carta datada de 20 de novembro de 2005, segundo uma tradução em inglês obtida junto ao grupo de West Point. "Eu espero que você abra seu coração para a aceitação do que digo."

Em aparições em vídeo subseqüentes, Libi se apresentou como um curinga da Al Qaeda. Ele refutou os estudiosos muçulmanos que criticaram os homens-bomba na Argélia; ele pediu aos muçulmanos para realizarem ataques na Europa em vingança pelas charges dinamarquesas do profeta Maomé.

Ao ser pedido que avaliasse a estatura de Libi, o chefe de contraterrorismo do Departamento de Estado, Dell L. Dailey, que se aposentou do Exército como general, disse por um e-mail: "Abu Yahya é um alto membro da Al Qaeda, um alto estrategista do grupo, considerado pelo grupo um dos promotores mais eficazes da jihad".

Ele também se tornou o líder de um contingente líbio de combatentes na região do Afeganistão e Paquistão, particularmente após a morte neste ano de outro militante chave, que atendia pelo nome de Abu Laith Al Libi, disse Evan F. Kohlmann, um analista que depõe como testemunha do governo em julgamentos de terrorismo. (Os dois Libis não têm parentesco.)

A discussão mais franca de Abu Yahya Al Libi sobre a guerra de informação da Al Qaeda com o Ocidente veio em um vídeo divulgado no final do ano passado.

Ao avaliar o estado da militância islâmica em todo mundo, Libi tratou dos "desertores" que condenam a jihad violenta, das brigas internas entre militantes e das fatwas, ou pronunciamentos legais islâmicos, de muçulmanos moderados que buscam criminalizar os jihadistas. Ele chegou até mesmo a especificar seis formas com que os Estados Unidos e seus aliados poderiam tentar explorar esta desarmonia por meio de guerra psicológica.

Os esforços do Pentágono para minar a Al Qaeda se intensificaram nos últimos meses no Iraque, segundo oficiais militares em Bagdá, incluindo o uso de imãs nos encontros com os detidos pelos americanos para discussões religiosas, antes de serem soltos, e a divulgação dos militantes que renegam os modos violentos.

Em seu vídeo do final do ano passado, Libi buscou preparar os seguidores da Al Qaeda para táticas como estas, que ele disse que fracassariam. As retratações dos militantes capturados seriam particularmente ineficazes, dada a condição deles de prisioneiros, ele argumentou.

"Me diga", disse Libi, "o que você espera de alguém que vê a espada acima dele, o tapete diante dele, e o xeque ditando para ele a prova e a evidência para a obrigação de obedecer ao soberano?"

*Margot Williams contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h49

    0,35
    3,155
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h00

    0,23
    65.160,68
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host