UOL Notícias Internacional
 

05/04/2008

Sucesso causa problemas para microfinanciadores mexicanos

The New York Times
Elisabeth Malkin
Em Villa de Vazquez, no México
Carlos Danel e Carlos Labarthe transformaram uma organização sem fins lucrativos que emprestava dinheiro aos pobres do México em um dos bancos mais rentáveis do país.

Mas em vez de provocar a admiração dos colegas no mundo do microfinanciamento - assim denominado por causa dos empréstimos diminutos que concede -, os co-executivos do Compartamos estão sendo chamados de "penhoristas" e "agiotas".

Eles estão no centro de uma questão acalorada: o microfinanciamento deve transformar-se em um grande negócio?

De um lado estão os microfinanciadores tradicionais, como o economista Muhammad Yunus, fundador da mais famosa instituição de microfinanciamento, o Grameen Bank, e ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006. Do outro estão os "Dois Carlos", como são conhecidos neste universo restrito que deu a eles o impulso inicial quando eram apenas idealistas.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Micaela Rivera assina sua carta de crédito em Villa de Vazquez, México

As microfinanciadoras, as organizações de microfinanciamento originais e ainda as mais comuns, ajudam os pobres a dar início ou a aumentar o tamanho dos seus negócios em locais que são desprezados por muitos bancos, como as favelas de Calcutá, ou as colinas habitadas por pobres na região de plantio de cana-de-açúcar no México, três horas ao sul da Cidade do México. As operações delas são consideradas sucessos no que diz respeito à transformação das vidas dos empresários do mundo em desenvolvimento, especialmente as mulheres e as suas famílias.

Muitos defensores do microfinanciamento, incluindo Yunus, dizem que esse sucesso está sendo ameaçado pelo modelo de Danel e Labarthe, voltado para o mercado, e focado nos lucros do investidor.

"O microfinanciamento teve início na década de 1970 com um foco no uso desta novidade para ajudar a acabar com a pobreza", explica Sam Daley-Harris, diretor da Microcredit Summit Campaign, uma organização sem fins lucrativos que promove o microfinanciamento para famílias que ganham menos de um dólar por dia. "Agora a proposta corre o grande risco de privilegiar os lucros dos investidores e das instituições de microfinanciamento, em vez de acabar com a pobreza".

Segundo ele, a situação apresenta o risco de fazer com que "a missão perca o rumo original".

Danel e Labarthe afirmam que o microfinanciamento ajudará mais pessoas pobres a recorrerem às fontes ilimitadas de capital de investimentos, em vez de aos recursos limitados dos doadores de dinheiro. "É maravilhoso ter um financiador, mas ainda mais maravilhoso é ter um milhão de financiadores", diz Labarthe. "E foi aí que nós realmente começamos a modificar a face da oportunidade".

O Compartamos (que em espanhol quer dizer "compartilhemos") espera contar com um milhão de mutuários neste ano. Os seus lucros são altos, cerca de US$ 80 milhões no ano passado, e a sua carteira cresceu quase US$ 400 milhões. Desde que ele fez ofertas iniciais públicas de ações há um ano, o lucro com os seus títulos tem sido superior a 40%.

Ambos os lados concordam que existe uma necessidade de capital muito grande para ser atendida pelos grupos de doações que inicialmente financiaram o microfinanciamento. O Deutsche Bank calcula que a demanda global por microfinanciamento seja de aproximadamente US$ 250 bilhões, dez vezes a quantia que foi emprestada até o momento.

Mas a decisão do Compartamos de fazer uma oferta pública de suas ações em abril de 2007 tornou-se um ponto de forte discórdia naquilo que vinha sendo um debate gentil sobre a forma como as instituições de microfinanciamento poderiam obter recursos nos mercados financeiros. A oferta pública inicial do Compartamos é objeto de menção especial em todas as conferências sobre microfinanciamento, e foi condenada por Yunus, o ganhador do Prêmio Nobel.

Alex Counts, presidente da Fundação Grameen, com sede em Washington, D.C., diz que os clientes pobres do Compartamos "geram os lucros, sem usufruir deles".

Lynne Patterson, fundadora do Pro Mujer, um grupo de microfinanciamento sem fins lucrativos com várias filiais nos países latino-americanos, concorda. "Nós usamos o lucro para reinvestir nos serviços fornecidos aos nossos clientes", diz ela, referindo-se aos lucros com o pagamento das dívidas.

Mesmo assim, em três décadas o microfinanciamento evoluiu - de pequenas organizações não governamentais que emprestavam US$ 50 a mulheres a fim de que estas pudessem comprar máquinas de costuras ou frutas para vender no mercado, para, em certos casos, bancos formais que cobrem os seus custos e crescem por meio de lucros, assim como qualquer negócio.

Em Wall Street, os bancos de investimentos agrupam os empréstimos de microfinanciamento para vendê-los a investidores institucionais, muitos dos quais "socialmente responsáveis" e que buscam retornos estáveis para os seus investimentos, em vez de lucros enormes. Alguns poucos fundos de eqüidade chegaram até a tornar-se acionistas de instituições de microfinanciamento.

Críticos dizem que o Compartamos gerencia o seu negócio para beneficiar os seus investidores, e não os mutuários. O banco teve início como uma organização não governamental em 1990, por iniciativa de um grupo católico de ação social chamado Gente Nueva, cuja inspiração foi uma visita feita por Madre Teresa ao México.

Depois que o Compartamos tornou-se uma companha com fins lucrativos em 2000, os custos caíram à medida que a eficiência aumentava, mas o banco manteve os juros altos. Em média, os clientes pagam uma taxa de juros anual de quase 90%, que inclui 15% em impostos governamentais. Em grande parte do mundo, as taxas de juros do microfinanciamento variam de 25% a 45%. Mas no México os altos custos, a ineficiência e a concorrência limitada mantém estas taxas bem mais elevadas. Por exemplo, as taxas de juros cobradas pelo Compartamos são apenas uns poucos pontos percentuais mais elevadas do que as do Pro Mujer.

Um outro motivo pelo qual as taxas de juros são tão altas é que, assim como as instituições de microfinanciamento de todo o mundo, o Compartamos empresta dinheiro sem caução. Os seus mutuários, quase todos mulheres, estão organizados em grupos que garantem a pagamento das dívidas. Pare de pagar e os seus amigos terão que pagar para você: desta forma o sistema mantém reduzido o índice de calotes.

Historicamente, observam os microfinanciadores, tais mutuários são riscos excelentes. Por exemplo, as dívidas do Compartamos que não tiveram o retorno esperado correspondiam a apenas 1,36% da carteira da instituição no final do ano passado.

A administração desses empréstimos exige trabalho, e isso empurra para cima os juros cobrados sobre quantias tão reduzidas. Um agente de cobrança do Compartamos visita cada grupo toda semana, viajando até as vilas em ônibus do sistema de transporte público.

O Compartamos é mais eficiente do que outras instituições mexicanas de microfinanciamento e os seus próprios custos de empréstimo são baixos graças à sua forte classificação de crédito. Os críticos acusam o Compartamos de não ter repassado essas economias aos seus clientes.

Os números parecem comprovar isso. Um estudo feito no ano passado pelo Comitê Consultivo de Assistência aos Pobres, conhecido como CGAP, um grupo da indústria do microfinanciamento com sede no Banco Mundial, calcula que 23,6% da renda do Compartamos oriunda dos juros é classificada como lucro. O seu retorno com balanço médio diário é mais do que o triplo da média de 15% dos bancos comerciais mexicanos.

O lucro não é uma palavra suja no mundo do microfinanciamento. A questão é definir qual é a margem de lucro apropriada. O CGAP estima que o retorno médio sobre ativos para organizações auto-suficientes seja de 5,5%. O número relativo ao Compartamos foi de 19,6% no quarto trimestre do ano passado. Danel diz que as taxas de juros do Compartamos caíram 30 pontos percentuais no decorrer dos últimos cinco anos. "Elas caem com base na eficiência, e nós repassamos esse benefício aos clientes", afirma ele.

O número de clientes do Compartamos aumentou de 60 mil em 2000 para 840 mil no ano passado.

Em abril de 2007, os donos do Compartamos venderam 30% das suas ações no mercado de valores mexicano em uma oferta pública inicial. A oferta pública rendeu US$ 458 milhões. Investidores privados mexicanos, incluindo altos executivos de bancos, embolsaram US$ 150 milhões com a venda. Mais da metade do dinheiro obtido com a oferta pública retornou a instituições de desenvolvimento que haviam investido no Compartamos quando ele deixou de ser uma instituição sem fins lucrativos e tornou-se uma empresa comercial em 2000.

Uma delas foi a Accion International, uma organização não governamental com sede em Boston que ajuda a criar instituições de microcrédito e que fornece a elas assistência técnica. A Accion investiu US$ 1 milhão no Compartamos em 2000. Ela vendeu metade da sua parcela acionária de 18% na época da oferta pública por US$ 135 milhões.

"Esta é uma estratégia para fazer frente ao problema da pobreza que não permanece pequena e bonita", afirma María Otero, presidente da Accion.

Charles Waterfield, um consultor de microfinanciamento que é um dos maiores críticos do modelo do Compartamos, discorda: "Eles não só estão obtendo lucros obscenos às custas dos pobres, mas também ameaçam macular o resto do setor", critica Waterfield. "O Compartamos é o primeiro, mas eles não serão os últimos".

Mas ainda não houve nenhuma corrida a este mercado. Em parte porque a crise das hipotecas subprime e a liquidação que se seguiu nos mercados globais fizeram com que este se tornasse um mal momento para ofertas públicas iniciais. O Compartamos não escapou da crise. O preço das suas ações está 17% mais elevado desde a oferta pública inicial, mas é 32% inferior aos valores registrados em julho do ano passado.

Aqueles que defendem mais ofertas públicas do gênero dizem que o Compartamos deu o exemplo certo.

"Atraiu-se a atenção de muita gente com aquela oferta pública inicial", diz Bob Pattillo, gerente do Gray Ghost, um fundo que investe em microfinanciamento. "A iniciativa chamou a atenção de Wall Street, de Londres e de Genebra. Percebeu-se que se alguém ligar todos os pontos isso pode ser um negócio bem lucrativo".

Danel e Labarthe argumentam que microfinanciadores de sucesso em um país de renda média como o México devem usar os mercados de capital, em vez de recorrerem maciçamente a doações.

Como parte da sua defesa, eles alegam que o sucesso do Compartamo fez com que várias instituições, incluindo bancos e financiadores tradicionais, passassem a oferecer produtos financeiros aos pobres. "Não nos vemos apenas como especialistas em microfinanciamento, mas também como os criadores de uma nova indústria", afirma Danel.

O Compartamos calcula que o seu mercado alvo seja de 14 milhões de domicílios, mais da metade da população do país, que em sua maioria têm pouco ou nenhum acesso aos serviços bancários.

Em uma recente reunião semanal de um grupo de mutuários do Compartamos na vila de Valle Vazquez, a taxa de juros não era uma grande preocupação. Na verdade, várias mulheres disseram ter abandonado uma outra instituição de microfinanciamento porque ela cobrava mais.

O grupo é sólido, conta com 35 integrantes e está no seu terceiro ano como tomador de empréstimos. A reunião, que ocorreu na sala de estar de um mutuário, foi o início de um novo ciclo de empréstimos de quatro meses. Os empréstimos são fornecidos sem caução. Em vez disso, o grupo garante o pagamento da dívida, pagando caso um dos mutuários torne-se inadimplente.

Claudia Ayala, uma gerente do Compartamos, deu início a uma conversa estimulante, apontando para um vaso com uma planta colocado sobre uma cadeira ao seu lado. "Esta planta cresce, e este grupo também pode crescer", disse ela às mulheres, que se mostravam apáticas no calor da tarde. "Como? Convidando mais 'companeras'. Fertilizando este processo com responsabilidade", disse ela.

Embora a vila dependa bastante do dinheiro enviado pelos parentes que estão nos Estados Unidos, os empréstimos do Compartamos ajudaram muitas mulheres a tornarem-se auto-suficientes.

Silvina Martínez abriu um pequeno restaurante na sua casa há um ano, a fim de vender lanches caseiros aos alunos de uma escola de segundo grau próxima. Desde então o restaurante cresceu sem parar. Nesta nova fase de financiamentos, ela tomará emprestado cerca de US$ 1.100 para pintar o restaurante e ampliar o menu. "Este é o meu próprio negócio", diz ela. "Sou escrava dele, mas pelo menos é algo meu".

Outras mulheres já eram inicialmente empresárias bem-sucedidas, mas o crédito do Compartamos dá a elas um impulso, permitindo que contratem um funcionário ou ajudando a aliviar o seu fluxo de caixa.

Alejandra Abundez, 57, cria porcos e vacas, e produz 150 quilos de queijo de dia. O produto é vendido no mercado local. Ela e a filha, Micaela Rivera, estão tomando emprestado US$ 3.500 junto ao Compartamos para comprar ração e abastecer a pequena loja na entrada da sua casa.

"Tudo o que tenho, invisto", afirma Abundez, que aos 35 anos ficou viúva, com cinco filhos para criar. "Não posso me dar ao luxo de usar o dinheiro sem um objetivo claro". UOL

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