UOL Notícias Internacional
 

05/04/2008

Superando costumes e estigma, Sudão dá uma tábua de salvação aos órfãos

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Cartum, Sudão
Como tantos bebês no Orfanato Maygoma, Nariman Siddiq Ahmed Ali foi trazido para cá um dia após seu nascimento, doente e quase morto, pesando menos de 2 quilos.

Estranhos o encontraram no final de fevereiro após ter sido largado em um acostamento, em um subúrbio distante desta capital em crescimento. Quase certamente ele foi produto de uma união ilícita, a evidência irrefutável de adultério ou fornicação em um lugar onde isto poderia significar uma vida inteira de vergonha ou até mesmo a morte -para a mãe e o bebê.

Há poucos anos, as chances eram de que Nariman morreria no Orfanato Maygoma, assim como ocorria com 80% das crianças infelizes o suficiente para irem parar lá, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os órfãos em Maygoma enfrentavam uma existência dickensiana de penúria e negligência, muitas crescendo quase mudas e terrivelmente atrasadas, atendidas por funcionários que mal falavam com elas e nunca as seguravam, as evitando como grande parte da sociedade que as viam como irremediavelmente corruptas por meio de seu nascimento infeliz. Mas nos últimos anos uma mudança radical levou a uma coalizão incomum de autoridades do governo, organizações de ajuda ocidentais e líderes religiosos aqui. Ela resgatou muitas crianças de Maygoma de um destino sombrio, ao transformar as posturas religiosas e legais em relação às crianças ilegítimas nesta sociedade profundamente conservadora.

Lynsey Addario/The New York Times 
Bebê no orfanato Maygoma; órfãos tinham uma existência de penúria e negligência no país

Os costumes sociais aqui tradicionalmente transferem os pecados dos pais para os filhos, tornando a adoção -uma questão já complexa no Islã, que enfatiza os laços familiares de sangue- praticamente algo fora de questão. Mas segundo esta nova abordagem, Nariman, que no mês passado dividia o berço com um ursinho de pelúcia cor-de-rosa, ganhou peso e está sendo tratado com carinho por enfermeiras, preparado não para a morte ou para uma vida de desespero, mas para o envio para um lar provisório e talvez até mesmo para uma família que venha a adotá-lo permanentemente.

"É realmente uma revolução social", disse Mona Abdullah El Faki, uma assistente social do governo que supervisiona os lares adotivos para as crianças de Maygoma. "Foi muito difícil persuadir as pessoas de que a adoção não é proibida no Islã. Há muitas noções equivocadas."

Poucas religiões exigem que seus fiéis contribuam para caridade tão fortemente quanto o Islã, e cuidar dos órfãos traz bênçãos especiais. Mas a lei islâmica também proíbe a adoção no sentido ocidental, na qual uma criança é absorvida pela família adotiva em pé de igualdade com os filhos biológicos. A relação de sangue entre pais e filhos biológicos e todos os direitos e responsabilidades que confere são sacrossantos e não podem ser imitados, segundo estudiosos legais daqui.

Como resultado, uma criança no Sudão criada por uma família que não a sua biológica não pode receber o sobrenome dela, nem pode herdar a propriedade de seu pai como um filho biológico herdaria, dizem estudiosos legais e assistentes sociais daqui. Além disso, um filho adotado, assim que completa 18 anos, não é mais permitido a ver sua mãe e irmãs descobertas, já que carecem de um relacionamento consangüíneo que os impediria de se casarem, e uma garota adotada enfrentaria problemas semelhantes de ter que se cobrir diante dos familiares do sexo masculino. A adoção por estrangeiros é proibida aqui.

Este emaranhado de questões legais levou alguns muçulmanos a concluírem que a idéia de adotar uma criança permanentemente é haram, ou proibida, segundo as leis do Islã. Isto é particularmente verdadeiro em países como o Sudão, onde a sharia, ou código legal islâmico, é a lei predominante.

Para mudar estas posturas, o governo, auxiliado pelo Unicef e algumas organizações de ajuda locais, consultaram centenas de líderes religiosos e sociais, se encontraram com grupos de mulheres, foram até colégios e encorajaram a imprensa a visitar Maygoma e ver as terríveis condições ali.

"Não era um lugar onde se cria crianças", disse Osman Abu Fatima, um diretor do programa do Unicef. "Havia crianças que não sabiam falar porque ninguém falava com elas. Algumas estavam desnutridas. Todas não eram amadas. Ninguém as tocava ou as segurava. Após minha primeira visita, eu fiquei traumatizado por um longo tempo."

Mas tudo mudou. As admissões no orfanato se mantêm constantes entre cerca de 500 a 700 por ano, segundo estatísticas do Unicef, mas o orfanato foi reformado e seus berçários contam com relógios do Snoopy e pôsteres dos Ursinhos Carinhosos em paredes pintadas de amarelo, rosa e azul. As enfermeiras são treinadas para segurar e brincar com as crianças enquanto alimentam e cuidam delas. O atendimento médico melhorou enormemente. Em 2001, 479 crianças morreram. Em 2006, morreram 186, segundo o Unicef.

Em 2004, o governo aprovou uma nova lei que disse que as crianças deveriam ser criadas por famílias, não instituições, o máximo possível. Mas a mudança mais significativa ocorreu em 2006, quando a mais alta entidade religiosa do Sudão, o Conselho de Fatwa, emitiu um decreto mudando a forma como os órfãos eram vistos pela sociedade sudanesa.

No passado, apenas crianças cujos pais tinham reconhecidamente morrido eram consideradas órfãs no sentido islâmico, e apenas estas crianças tinham direito à caridade exigida dos muçulmanos. Mas a fatwa decretou que crianças abandonadas também deviam ser consideradas órfãs, o que significava que toda a sociedade tinha o dever islâmico de cuidar delas.

A fatwa também declarou que a gravidez por si só não era evidência suficiente para condenar uma mulher por adultério, e que crianças nascidas fora do casamento não deviam sofrer as conseqüências dos pecados de seus pais.

Estas mudanças fizeram com que mulheres como Fatima Mohammad Abdel Rahman recebessem crianças de pais desconhecidos em suas casas, de uma forma que seria impensável há poucos anos. Rahman, 40 anos, e seu marido tentam ter um filho há anos, mas ela já tinha perdido a esperança de ter uma família até ouvir em um programa de rádio sobre lares adotivos por intermédio do Orfanato Maygoma.

"A família é muito importante em nossa sociedade", ela disse. "Um lar sem crianças é um lugar muito ruim."

Quando ela e seu marido trouxeram para casa um menino chamado Khalid de forma emergencial, Rhaman temeu o desconforto de seu marido.

"Mas ele disse: 'É muito importante que adotemos esta criança'", disse Rahman. "'Deus ama todas as crianças.'"

Ainda assim, mudar as leis, tanto civis quanto religiosas, tem sido mais fácil do que mudar as atitudes. Muitas mulheres, particularmente aquelas incapazes de dar à luz, abraçam o cuidado provisório e a adoção. Mas os maridos freqüentemente são mais difíceis de convencer.

Khanssa Sandal foi mãe provisória de sete crianças, a mais recente Muayid, cuja guarda provisória ela obteve quando ele tinha 2 meses de idade. Ele agora já está com mais de um ano e pronto para ser adotado de forma permanente. Mas o marido de Sandal, um comerciante que vive grande parte do ano na Arábia Saudita, não permitirá que ela adote Muayid.

"Cada vez fica mais doloroso dizer adeus", ela disse, segurando Muayid, escondido nas dobras do seu xale. Ela foi até um armário e retirou uma pilha de fotos de todas as crianças das quais cuidou. O quinto, um menino chamado Siddiq, foi seu favorito.

"Eu queria adotá-lo mas meu marido se recusou", ela disse. "Eu chorei por semanas. Eu ainda sinto falta dele."

As autoridades no Sudão esperam persuadir as famílias de crianças nascidas fora do casamento a aceitá-las e criá-las, mas a crise do abandono continua virtualmente inalterada. Agora mais da metade é adotada por outros, e um número crescente é reunido com seus pais biológicos, algo que só é possível quando um parente deixa o bebê no orfanato em vez de largá-lo em qualquer lugar para ser encontrado.

"Nós precisamos de uma mudança fundamental", disse Hamad al Neer Haider, que trabalha no orfanato. "Como sociedade nós precisamos parar de jogar fora bebês inocentes." George El Khouri Andolfato

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