UOL Notícias Internacional
 

06/04/2008

Sob sete anos de ataque, cidade forja nova identidade

The New York Times
Ethan Bronner
Em Sderot, Israel
A cidade de imigrantes há muito negligenciada de Sderot, a cerca de 1,6 km de Gaza, atingida por foguetes palestinos durante os últimos sete anos, está agora assumindo uma nova identidade e despontando no cerne da consciência sionista como um símbolo do lema não oficial da nação: "Nunca Mais".

Assim como o memorial do Holocausto Yad Vashen em Jerusalém, Sderot é uma parada obrigatória para aqueles que apóiam Israel ou se sentem impelidos a isso. Vários grupos montaram agências para organizar visitas em casas destruídas e lugares traumáticos. Diplomatas estrangeiros são trazidos para cá em ônibus pelo governo, um oficial das Nações Unidas diz que já trouxe altos funcionários da organização para cá cinco vezes; o senador John McCain veio no mês passado; os senadores Barack Obama e Hillary Rodham Clinton não devem ficar para trás, dizem os moradores.

Israelenses e simpatizantes fazem fila para se voluntariar. Está chovendo dinheiro para abrigos anti-bomba, serviços sociais e para um seminário religioso ortodoxo.

"Durante anos, o governo e muitas outras pessoas pensavam em Sderot não como um problema nacional, mas como um problema local", diz o prefeito Eli Moyal, pouco antes de cortar a faixa de inauguração de um sofisticado centro de primeiros socorros com ambulâncias construído com dinheiro doado em grande parte por judeus americanos. "Agora eles entendem que, se Sderot cair, Israel também cai."

A idéia de que Sderot é na verdade a linha de frente de Israel em sua batalha por legitimidade e auto-respeito tem ganhado um valor real, assim como no mundo árabe o sofrimento dos moradores de Gaza assumiu um significado especial. Para os israelenses, a convicção da importância de Sderot começou a crescer com o aumento gigantesco dos ataques de foguetes desde sua saída de Gaza em 2005 e depois do conflito com o Hezbollah em 2006, que resoltou em milhares de foguetes no norte de Israel.

Com o Hamas e o Hezbollah ganhando força nas fronteiras de Israel e desenvolvendo foguetes de maior alcance, Sderot é um exemplo amargo do que outros lugares mais prósperos e distantes de Israel podem enfrentar se essa ameaça for ignorada, dizem os defensores da causa israelense. E para um número cada vez maior de pessoas na esfera política, isso inspirou uma operação de resgate coletivo.

"Em Tel Aviv, há cafés elegantes, roupas bonitas e vive-se a ilusão de que tudo está bem", reflete o diretor de teatro Ilanit Swissa, que faz parte de uma dezena de intelectuais liberais que se mudaram para Sderot há alguns meses para trabalhar com formação de atores no segundo grau. "Mas isso não é verdade. Aqui eu sinto que estou contribuindo com algo. Estamos em guerra, e aqui dá pra sentir isso."

Cercada por pomares de laranjeiras e campos de trigo, vigiada pelo alto por um
zepelim militar que dispara um alarme a cada foguete lançado desde Gaza, Sderot tem sido um lugar difícil para viver.

Houve dias em que mais de 50 foguetes caíram dentro ou próximo da cidade, trazendo pânico, destruição e às vezes a morte em uma cidade de 20 mil habitantes, densamente povoada por grupos minoritários israelenses - marroquinos, refugiados da Ásia central e etíopes. O pânico é generalizado. Lojas fecharam. Três mil moradores já deixaram a cidade.

Os moradores foram se acostumando - apesar de dificilmente estarem confortáveis - com o som constante do alarme que atinge toda a cidade conhecido como "Código Vermelho", produzido quando o zepelim detecta a chegada de um foguete. Uma vez que o alarme é ativado, eles têm 20 segundos para encontrar um abrigo antes que a cidade seja atingida. Por causa do tempo tão curto do aviso, as escolas mantêm as crianças pequenas dentro dos abrigos todo o tempo para não correr riscos com sua falta de agilidade.

Centenas de foguetes são sinistramente expostos no pátio da delegacia de polícia. A cidade propriamente dita, apesar de se parecer com muitas outras de mesmo tamanho em Israel, é marcada pelos buracos deixados pelos foguetes e pelos abrigos, e desenvolveu um feroz humor negro em relação à sua situação, visível nas esculturas feitas com foguetes em vários lugares.

O orgulho de Sderot por sua recusa em se render e o interesse em encontrar novas formas de proteger e melhorar a cidade se espalharam rapidamente. A organização mundial Wizo, de mulheres sionistas, descobriu que a campanha de Sderot estimula um apoio visceral por parte dos doadores.

"Fizemos camisetas dizendo 'Sderot Precisa de Você'. Em apenas um dia, levantamos US$ 1 milhão", diz Helena Glaser, presidente do grupo. No outro dia, David W. Lentz, de Livingston, Nova Jersey, andou pra baixo e pra cima pela cidade com colegas advogados de Israel, tentando descobrir como sua classe pode ajudar.

Na mesma tarde, angariadores de fundos judeus suficientes para encher um ônibus inspecionaram os novos centros de cuidado que haviam patrocinado, passando por alguns dos vários abrigos anti-bomba, alguns deles bancados por cristãos evangélicos; enquanto um rabino reavaliava os planos de um seminário de US$ 5 milhões, financiado na maior parte por dinheiro de fora.

Para quem vive e trabalha aqui, toda essa atenção, principalmente por parte de estrangeiros ricos, pode parecer opressiva. Muitos dizem que eles não são capazes de concluir nada.

"Isso saiu fora do controle", diz Dror Marsha, diretor do centro de voluntariado local. "Tornou-se uma moda - uma boa moda - mas não dou conta do que está acontecendo. Agora temos mil voluntários por mês". Há dois anos, eram apenas 200, disse ele.

Entre os projetos doados por grupos evangélicos estão cerca dos quase 80 abrigos pequenos e paradas de ônibus que também são usadas como abrigo assim como um conjunto de "centros de recuperação" para coordenar os serviços sociais. Dirigidos pela Coalizão de Trauma de Israel, os centros de recuperação, um projeto da Federação UJA de Nova York, enviam assistentes sociais para atendimentos domiciliares, fornecendo treinamento para pais solteiros, e também oferecem cursos para a terceira idade e novos imigrantes.

Além das doações e do apoio estrangeiro, outra grande mudança em Sderot nos últimos anos foi econômica, e o motivo surpreendente para isso foi a evacuação israelense da Faixa de Gaza. Até 2005, havia um parque industrial dentro de Gaza, composto por companhias formadas em parceria por israelenses e palestinos. Com a retirada, as empresas se transferiram para Sderot e empregaram os moradores locais, diminuindo a taxa de desemprego alarmante de 20% no final dos anos 90 para 3,5% próximo da mínima nacional, de acordo com Shalom Halevy, porta-voz do município.

Ainda assim, 30% da população de Sderot mostra sinais de estresse, cinco vezes mais do que em comunidades similares de Israel, conforme mostram os estudos de Marc Gelkopf da Universidade de Haifa. Muitas famílias dormem juntas em apenas um cômodo por causa do medo de perder um alerta de bomba.

Apesar de Sderot ser um símbolo, também é uma espécie de teste de Rorschach - uma tela em que várias facções políticas projetam seus medos e esperanças. Para a direita, é uma evidência de que os ataques de foguetes cessarão só com o uso da força; para a esquerda, é evidência de que o uso da força não é a resposta e que os foguetes não podem ser impedidos sem uma nova abordagem.

Uma das tentativas dessa nova abordagem envolve um grupo de Sderot que começou a realizar debates com palestinos em Gaza via teleconferências. O grupo, chamado "Outra Voz", faz um apelo por um cessar-fogo. Há também um novo blog que mostra o debate entre um morador de Sderot e um morador de Gaza, ambos anônimos.

Mas para o rabino David Fendel, que dirigiu uma yeshiva (escola judaica) para 500 alunos durante anos, os foguetes são uma prova de que a retirada dos ocupantes israelenses e soldados de Gaza foi uma besteira. Ele levantou milhões de dólares para construir uma nova yeshiva. O ponto central de seu projeto é enfrentar aqueles que desejam o mal de Israel.

"Os palestinos estão tentando transformar isso aqui em uma cidade fantasma", disse enquanto caminhava pela construção da nova escola. "Não vamos deixar que eles façam isso. Transformaremos a cidade num dinâmico centro de sionismo, Torá e construção."

A construção aqui é um tanto incomum - o novo salão de estudos da yeshiva terá 1,5 tonelada de concreto no teto como proteção contra os simples foguetes feitos em casa conhecidos como Qassams, e outros que atingem a cidade praticamente todos os dias, vindos de Gaza.

Fendel reconhece que há muito trabalho pela frente. O mais velho de seus sete filhos vai se casar em algumas semanas. E apesar de a yeshiva ser o futuro lar do casal, o casamento não acontecerá lá porque muitos convidados têm medo de comparecer.

Avi Farhan, que viveu como ocupante no Sinai antes que ele fosse devolvido ao Egito e depois em Gaza antes da retirada israelense, diz que concorda com Fendel de que a saída foi um erro. Do alto de um morro próximo ao seu novo apartamento, ele pode ver o que restou de seu antigo acampamento em Gaza, transformado em plataforma de lançamento de foguetes.

"Da minha casa antiga, agora eles podem explodir minha nova casa", disse com pesar. Eloise De Vylder

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