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07/04/2008
Por determinação ou temor, muitos muçulmanos educam os filhos em casa

Neil MacFarquhar
Em Lodi, Califórnia


Como dezenas de outras garotas paquistã-americanas, Hajra Bibi parou de freqüentar a escola pública ao chegar à puberdade, e passou a estudar em casa.

Sua família queria que ela limpasse e cozinhasse para os homens da casa, e também se preocupava com o fato de que outras crianças pudessem zombar dela por ser muçulmana e usar roupas tradicionais.

"Alguns homens não gostam quando usamos roupas americanas - eles acham que não é bom para as garotas", diz Bibi, 17, que está na 12ª série e vive numa região agrícola a cerca de 110 km a leste de São Francisco. "É preciso ser respeitável."

David Kadlubowski/The New York Times 
Fawzia Mai Tung (esq.) lê para as suas filhas (a partir da esq.) Kadhima, Karima e Kiram

Por todos os Estados Unidos, os muçulmanos que acham que a educação nas escolas públicas vai de encontro a suas tradições religiosas e culturais estão se voltando para a educação em casa. Em parte essa escolha é uma forma de construir uma sólida identidade muçulmana longe dos preconceitos que as crianças, tanto meninos quanto meninas, podem enfrentar nos pátios das escolas. Mas em alguns casos, como no de Bibi, a intenção também é isolar as filhas adolescentes das influências corrosivas que eles vêem em grande parte da vida americana.

Cerca de 40% das garotas paquistanesas e de outros países do Sudeste Asiático em idade colegial registradas no distrito são educadas em casa, apesar das estatísticas gerais sobre o número de crianças muçulmanas que estudam em casa, e sobre seu desempenho acadêmico, serem vagas. Mesmo as estimativas sobre o número de crianças americanas que são educadas em casa variam bastante, de 1 a 2 milhões.

Não importa qual seja o credo, os pais que fazem essa escolha são normalmente inspirados pela crença de que as escolas públicas são antros de desequilíbrios sociais, como as drogas, e que o melhor que fazem é manter os filhos em casa.

"Eu não gosto desse comportamento", diz Aya Ismael, uma mãe muçulmana que ensina seus quatro filhos em casa, próximo a San José. "As meninas pequenas andam por aí vestidas inapropriadamente, xingando e desrespeitando os mais velhos. No Islã acreditamos no respeito, na dignidade e na honra."

Ainda assim, a questão da educação em casa é controversa em várias comunidades islâmicas, em que os oponentes argumentam que o melhor para as crianças islâmicas é continuar no sistema, e, se for preciso, lutar por seus direitos.

Robina Asghar, uma muçulmana que trabalha com serviço social em Stockton, Califórnia, diz que o fato de que seu filho foi repetidamente taxado de "terrorista" nos corredores da escola aumentou o interesse dele sobre os direitos civis e inspirou o sonho de se tornar um advogado. Agora ele cursa o colegial em uma escola católica.

"Não foi fácil para meu filho na escola, mas cada vez que acontecia alguma coisa, era um aprendizado para ele", diz Asghar. "Ele aprendeu a lidar com isso. Muitas pessoas já foram discriminadas nesse país, mas a única coisa que pode trazer mudança é a educação."

Muitos pais, contudo, preferem que seus filhos aprendam em um ambiente menos difícil, e optam por mantê-los em casa.

Hina Khan-Mukhtar decidiu tutorar seus três filhos em casa e mandá-los para uma pequena cooperativa escolar muçulmana estabelecida por cerca de 15 famílias de Bay Area para ensinar temas como língua arábica, ciências e carpintaria. Ela se decidiu depois de visitar a possível escola de educação elementar de seu filho mais velho, onde cada um dos alunos havia feito um trabalho intitulado "Por que gosto de porcos". Khan-Mukhtar leu consternada o que as crianças haviam escrito sobre o gosto delicioso da carne de porco, proibida pelo Islã. "Eu me lembrei de como é importante se encaixar no grupo nessa idade", diz.

Muitos pais muçulmanos contatados pela reportagem se recusaram a falar, dizendo que freqüentemente são retratados como extremistas religiosos por educarem seus filhos em casa. Essa visão é em parte alimentada pelo fato de que Adam Gadahn, um porta-voz da Al Qaeda nascido nos Estados Unidos, foi educado em casa na zona rural da Califórnia.

"Há uma tendência a fazer com que os pais que educam seus filhos em casa se pareçam com fanáticos anti-sociais que não querem seus filhos no sistema", diz Nabila Hanson, que argumenta que a maioria desses pais, assim como ela, faz um esforço extra para encontrar oportunidades para que suas crianças pratiquem esportes, aprendam música ou façam excursões com outras pessoas.

Os muçulmanos de Lodi também atraíram uma atenção indesejada no país quando um morador local, Hamid Hayat, foi sentenciado no ano passado a 24 anos de prisão por uma acusação de terrorismo que, segundo seus parentes, deveu-se em grande parte a uma confissão forjada. (Se ele fosse mais americanizado, dizem, saberia que podia pedir um advogado assim que o FBI apareceu.)

Os pais que educam seus filhos são na maioria muçulmanos convertidos, diz Khan-Mukhtar. Os imigrantes que ela conhece normalmente se opõem à idéia, vendo as oportunidades educacionais nos Estados Unidos como uma das principais razões para estarem no país.

Se isso for verdade, então Fawzia Mai Tung é uma exceção, ela é uma muçulmana chinesa que educa três filhas em sua casa em Phoenix. Ela passou muitas noites em claro preocupada se suas filhas passariam nos testes padronizados, até que descobriu quão baixas eram as notas das escolas locais. Seu filho mais velho, que também estudou em casa, agora está concorrendo a uma vaga na faculdade de medicina.

Em alguns casos, o ensino em casa é usado principalmente como uma forma de isolar as garotas como Bibi, a paquistã-americana de Lodi.

Cerca de 80% dos 2.500 muçulmanos da cidade são paquistaneses, e muitos vêm das mesmas famílias e localidades e tentam recriar a atmosfera social conservadora que tinham em seu país de origem. Há dez anos, muitas meninas eram simplesmente enviadas de volta a seus vilarejos assim que atingiam a adolescência.

"As famílias querem que elas mantenham sua cultura e não se tornem americanizadas", diz Roberta Wall, diretora da Escola Independente coordenada pelo distrito de Lodi, que supervisiona o estudo em casa, e recebe os alunos semanalmente para tutorias de uma hora.

Das mais de 90 garotas paquistanesas ou do Sudeste Asiático em idade de cursar o colegial inscritas no distrito de Lodi, 38 estudam em casa. Por outro lado, apenas sete dos 107 garotos recebem educação no lar, a explicação mais freqüente para isso é que os meninos estavam ficando para trás nos estudos.

Logo que terminam sua educação, as meninas se casam, normalmente com primos trazidos das cidades de origem das famílias.

Os pais "querem que suas filhas estejam seguras em casa e longe de perigos como garotos, bebidas e drogas", diz Kristine Leach, uma professora veterana da Escola Independente.

As garotas seguem o currículo regular do ensino médio, espremendo algumas horas de estudo entre o serviço doméstico, cozinhar, rezar e ler o Corão. Os professores da tutoria semanal vez ou outra fazem alguma piada do tipo "por acaso os braços de seu irmão estão quebrados?", mas em geral levam a situação com leveza, já que percebem que suas alunas obedecem à família e à tradição porque não têm alternativa.

"Sinto falta de meus amigos", disse Bibi sobre os colegas com quem ela estudava na escola pública. "Nós fazíamos coisas juntos, nos divertíamos, e ajudávamos uns aos outros com a tarefa de casa."

Mas estudar sozinha tem seus benefícios, diz ela. "Não queremos ninguém apontando o dedo para nós", diz ela, "dizendo que somos maus".

Asghar, a mulher de Stockton que é contra a educação em casa, desaprova a idéia de tirar as meninas da escola para preservar a honra familiar, dizendo que isso é uma barreira à assimilação.

"As pessoas que pensam assim estão presas em uma cápsula do tempo", diz ela. "Quando as crianças sabem mais que seus pais, os pais perdem o controle. Acho que é esse o medo que todos temos."

Aishah Bashir, que hoje tem 18 anos e é aluna da Escola Independente, foi mandada de volta ao Paquistão dos 12 aos 16 anos. Ela não recebeu nenhuma educação lá.

Em relação à educação em casa, ela diz que foi a melhor escolha. Mas admite que não foi uma escolha sua e, quando questionada se ela também educaria sua filha em casa, olhou muda para o chão. Finalmente disse em voz baixa: "quando eu tiver uma filha, quero que ela aprenda mais que eu. Quero que ela estude mais."

Tradução: Eloise De Vylder

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