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08/04/2008

Inflação na Ásia pressiona preços para consumidores ocidentais

The New York Times
Keith Bradsher

Em Bat Trang, Vietnã
A farra para os consumidores está acabando. Por duas gerações, os americanos importaram bens cada vez mais baratos produzidos em uma sucessão de países com salários mais baixos -primeiro o Japão e a Coréia, depois a China e cada vez mais lugares como o Vietnã e a Índia.

Mas a crescente inflação no mundo em desenvolvimento, especialmente na Ásia, está ameaçando esse arranjo, e não apenas na China, onde o aumento dos custos de energia e trabalho já tornam as exportações para os Estados Unidos mais caras, mas também em alternativas mais baratas que a China.

"A inflação é a maior ameaça aos países asiáticos", disse Jong-Wha Lee, o chefe do escritório de integração econômica regional do Banco Asiático de Desenvolvimento.

Justin Mott/The New York Times 
Empresa Quang Vinh Ceramic Company aumentou em 10% o preço de suas cerâmicas

Também é uma ameaça aos consumidores ocidentais, porque os exportadores asiáticos, mesmo em países muito pobres, estão repassando seus custos maiores para seus clientes.

Os países em desenvolvimento já sofreram períodos de inflação antes. De fato, alguns são famosos por eles, como o Brasil, que experimentou inflação de três dígitos no final dos anos 80 e início dos anos 90. Mas duas coisas tornam esta vez diferente, e juntas prometem também elevar os preços no Wal-Mart e em supermercados nos Estados Unidos, no momento em que cresce a possibilidade de uma recessão.

Primeiro, os países em desenvolvimento atualmente produzem quase metade de todas as importações americanas. Segundo, a inflação nestes países está ocorrendo quase ao mesmo tempo em que suas moedas estão se valorizando frente ao dólar.

Isto coloca os consumidores americanos em uma amarra dupla, pagando por pelo menos parte dos custos mais altos dos produtores para produção de seus bens, e preços mais altos além destes porque o dólar compra menos nesses países.

Os empresários asiáticos dizem que não têm escolha a não ser cobrar mais. "É um momento difícil para realizar negócios", disse Le Hoai Vu, gerente de vendas da Quang Vinh Ceramic Company, aqui no norte do Vietnã.

A empresa acabou de majorar em até 10% os preços que cobra da Pier 1 Imports nos Estados Unidos por vasos pintados à mão, porque os custos trabalhistas estão subindo 30% ao ano.

No geral, no Vietnã, um dos destinos onde os investimentos em manufatura estão crescendo mais rapidamente e uma das fontes que mais crescem de importações americanas, os preços subiram 19,4% entre março de 2007 e março de 2008.

Na China, a Foshan Shunde Augustus Bathroom Equipment Ltd., em Foshan City, está prestes a aumentar os preços em 10% para uma série de peças para banheiro exportadas para a América do Norte.

"O aumento da inflação faz parte da vida na China atualmente, você a vê em toda parte", disse Faye Kong, o supervisor de negócios internacionais da empresa.

O custo das importações americanas oriundas de países menos industrializados está crescendo como um todo. Um índice do Birô de Estatísticas do Trabalho de preços médios de bens manufaturados importados desses países vinha caindo gradualmente até o início de 2004, mas agora está subindo fortemente e foi de 5,6% em fevereiro em comparação ao mesmo mês no ano passado.

Isto contribui para o aumento da inflação nos Estados Unidos; nos 12 meses até fevereiro de 2008, os preços dos bens à venda nos Estados Unidos subiram 4%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor do governo.

Mas até o momento, os exportadores asiáticos repassaram apenas uma parte de seus custos. Na China, por exemplo, os preços estão subindo atualmente quase 9% ao ano, o triplo do ritmo há um ano.

Os trabalhadores nos países em desenvolvimento que estão enfrentando preços majorados estão cada vez exigindo salários maiores, com protestos ocorrendo nos últimos dias no Vietnã, Camboja e Egito.

Ao mesmo tempo, a inflação continua subindo: as Filipinas anunciaram que sua inflação ao consumidor dobrou nos últimos cinco meses, com um aumento de 6,4% em março em relação ao mesmo mês no ano passado. A inflação semanal no atacado acelerou na Índia, atingindo uma taxa anual de 7% na semana encerrada em 22 de março, em comparação a 3,1% em outubro do ano passado.

Há não muito tempo, seria improvável para um país pobre com inflação alta ver seu dinheiro se valorizar frente ao poderoso dólar. Mas o dólar não é mais tão poderoso quanto já foi. Os grandes déficits comerciais americanos e outros problemas enfraqueceram seu apelo.

E há sinais de que o dólar poderia cair ainda mais caso os bancos centrais dos países em desenvolvimento deixassem de apoiá-lo, particularmente na Ásia.

O banco central do Vietnã até mesmo teve que ordenar aos bancos comerciais do país, no final do mês passado, que retomassem a compra de dólares dentro de uma faixa rígida de taxa de câmbio estabelecida pelo governo. Muitos bancos começaram a apostar na desvalorização do dólar e estavam se recusando a aceitar grandes somas em dólares, a ponto das multinacionais e exportadores terem dificuldade para transferir dinheiro para o país para pagamento dos salários de seus funcionários.

Além disso, a fraqueza do dólar é por si só uma causa da inflação nos países em desenvolvimento, particularmente aqueles que refreiam a valorização de suas moedas frente ao dólar em um esforço para não afetar as exportações.

Em um mercado de rua dobrando a esquina do Templo Lungshan de 270 anos, em Taipé, Taiwan, Teresa Gau, uma vendedora de peixe, está cobrando um terço a mais pelo peixe e caranguejo do que cobrava há um ano. Isto porque os donos do barco pesqueiro estão cobrando dela mais para poderem cobrir o custo mais alto do diesel, cujo preço é em dólares.

"Eles precisam aumentar o preço para compensar", disse Gau.

A inflação em Taiwan começou a aumentar em parte porque o governo esperou até este ano para permitir a valorização da moeda, o novo dólar de Taiwan. Taiwan importa quase todo seu petróleo e apenas agora é que a ligeira valorização do novo dólar de Taiwan está começando a segurar para os consumidores o custo do abastecimento de seus tanques de gasolina.

Aqui em Bat Trang, um centro ancestral de cerâmica perto de Hanói, as crescentes despesas da Quang Vinh Ceramic são pela tinta azul para pintura dos vasos e outras peças cerâmicas. Importada da Bélgica, a tinta é cobrada em euros e já aumentou 80% em relação ao ano passado em dongs vietnamitas.

A manutenção do dong barato frente ao dólar ajudou o Vietnã a aumentar suas exportações em 24,1% no ano passado, assim como também ajudou a atrair uma enxurrada de investimento. Os empréstimos bancários subiram mais de 50% no ano passado, alimentando um frenesi imobiliário que ainda não cedeu.

Proprietários de olarias como Le Thi Hop aqui em Bat Trang responderam triplicando os preços no ano passado.

"A maioria das pessoas que compram meus tijolos diz que o preço está uma loucura, mas eu digo: 'Este é o mercado'", disse Hop alegremente.

Os altos custos para os materiais de construção estão tornando mais caros para muitas multinacionais como a Samsung, da Coréia do Sul, e a Hanes e Emerson Electric, dos Estados Unidos, que agora estão construindo fábricas no Vietnã, em parte em resposta aos custos crescentes na China.

Além do dólar fraco, os economistas dizem que países como Vietnã, Egito, China e Brasil ficam inerentemente mais vulneráveis à inflação quando, como agora, a alta dos preços é provocada por commodities cada vez mais caras.

A alta dos custos de energia e alimentos tem um efeito muito maior em país em desenvolvimento como o Vietnã, por causa de seus setores agrícolas e de manufatura que exigem muita energia, do que os países industrializados, que tendem a possuir setores de serviço maiores do que os de manufatura.

A Quang Vinh, que foi fundada por um produtor de cerâmica de 15ª geração, aumentou os salários em 30% ao longo do ano passado para acompanhar o aumento dos preços dos alimentos. Alimentação é a maior despesa para os operários da empresa, que ganham US$ 75 por mês trabalhando oito horas por dia, seis dias por semana.

"Antes eu costumava sair com meus amigos regularmente", disse Nguyen Xuan Tu, um operário de 29 anos da Quang Vinh que dirige uma motoneta, como muitos vietnamitas. "Mas agora com o preço caro da gasolina, eu não saio muito."

Duas tendências opostas dificultam a medição da verdadeira extensão da inflação nos países em desenvolvimento.

O investimento muito pesado em novas fábricas, especialmente na China, mas também em países emergentes como a Índia e o Vietnã, criou muita capacidade industrial adicional. Isto poderia provocar uma queda nos preços caso a desaceleração econômica americana venha a causar uma queda global na demanda.

Mas muitos países desenvolvidos, liderados pela China e pela Índia, contiveram o impacto pleno da inflação até o momento com uma combinação de controles de preços e subsídios, e mais países estão se juntando a eles -o Vietnã impôs controles de preços ao transporte e gasolina na semana passada, por exemplo.

Enquanto as empresas estudam meios de contornar os controles de preços, como a cobrança do mesmo valor apesar da redução da quantidade em cada pacote, e com a possibilidade do custo dos subsídios se tornar insustentavelmente alto, a inflação poderá pior.

*Mary Galanternick, no Rio de Janeiro, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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