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08/04/2008

Que barulho é esse? É o encanamento? Não, são apenas peixes tagarelas

The New York Times
Nonny de la Pena
"Ruídos misteriosos assustam moradores", dizia uma manchete no "The News-Press" de Cape Coral, Flórida. "Barulho pode custar caro para a cidade".

Foi no final de janeiro de 2005, durante a estação de reprodução de um peixe apropriadamente chamado de black drum ("tambor preto", piraúna). Os chamados de acasalamento noturno estavam em um crescendo. Mas ninguém vivendo na área parecia perceber que o barulho era de origem aquática.

Os aposentados que vieram para passar seus inverno descansando nos tranqüilos estuários e canais da Costa do Golfo na Flórida culpavam os encanamentos municipais. Eles pressionavam a Conselho Municipal a pagar mais de US$ 47 mil para uma empresa de engenharia eliminar o barulho que reverberava por suas casas.

Então James Locascio, um estudante de doutorado em ciência marinha pela Universidade do Sul da Flórida, salvou a cidade de uma despesa inútil. Após ler um artigo no jornal, Locascio telefonou para um vereador poucas horas antes da votação para aprovação da despesa. Ele explicou que a algo entre 100 e 500 hertz, os chamados de acasalamento da piraúna viajam em freqüência baixa o bastante e longa o suficiente para atravessar o quebra-mar, o solo e chegar à estrutura das casas à beira-mar como a vibração de um carro que passa.

"A piraúna gosta do sistema de canais de Cape Coral", disse Locascio. "O chamado noturno delas é como uma tortura do gotejar de água que pode durar meses."

A princípio os moradores não acreditaram. "Os queixosos mais persistentes diziam que de modo algum um peixe seria capaz de produzir o som que ouviam dentro de suas casas", ele lembrou.

Locascio e David Mann, um biólogo marinho da Universidade do Sul da Flórida e que é especialista em bioacústica, recrutaram as pessoas que rejeitavam a idéia para um estudo, pedindo que anotassem os nível de ruído e a hora. "Nós pegamos os dados deles e comparamos com os sons do peixe que gravamos com hidrofones dentro d'água", disse Locascio. "A combinação foi perfeita."

Uma situação semelhante ocorreu há duas décadas em Sausalito, Califórnia, quando as casas-barco foram tomadas por chamados de peixes-sapo. O "Marin Independent Journal" disse em um editorial: "Nós não acreditamos que o barulho que mantêm os moradores de barcos de Sausalito acordados à noite seja causado pela versão dos peixes-sapo da Canção de Amor Indígena".

Gregg Coppa, um professor colegial de ciências aposentado, também foi tratado com zombaria quando disse que ouviu peixes barulhentos enquanto navegava perto de Block Island, em Rhode Island. "Algumas pessoas até mesmo perguntaram o que bebi antes de ouvir os sons e me davam aquele olhar reservado a um bom amigo pateticamente incapaz", disse Coppa, rindo.

Com a ajuda de Rodney A. Rountree, um cientista da empresa de pesquisa Marine Ecology and Technical Applications e professor assistente da Universidade de Massachusetts, em Amherst, Coppa descobriu que o peixe que imaginou ser uma imensa criatura marinha era na verdade um minúsculo congro listrado, que podia soar como uma perfuratriz.

Naturalistas desde Aristóteles sabem que peixes podem emitir sons. Mas quando Jacques Cousteau intitulou seu documentário de 1956 de "O Mundo Silencioso", ele pareceu capturar a imaginação do público a respeito da vida submarina, deixando ao mesmo tempo nossos ouvidos surdos aos latidos, tagarelice, gemidos, zunidos e choros dos peixes.

"Seus tanques de mergulho mascaravam todos os sons na água", disse Rountree. "Na verdade, os oceanos são um lugar barulhento."

Entre as 30 mil espécies existentes lá fora, apenas cerca de 1.200 produtoras de som foram catalogadas, e bem menos foram gravadas. Até mesmo o peixinho dourado comum foi merecedor de duas publicações científicas. Na verdade, disse Philip Lobel, um professor de biologia da Universidade de Boston, "a maioria dos peixes de aquário é sonora. Manter o peixe em um aquário é como manter um canário em uma gaiola à prova de som".

O livro mais definitivo sobre sons de peixes foi publicado em 1973, pela auspiciosamente batizada Marie Poland Fish e William H. Mowbray. Trabalhando no Laboratório Marinho de Narragansett, da Universidade de Rhode Island, eles obtiveram acesso às gravações de áudio da Marinha feitas para detecção de submarinos inimigos. Como a vida submarina barulhenta continuava interferindo nos objetivos militares, foi pedido aos autores que separassem os sons biológicos dos feitos pelo homem. A obra resultante, "Sounds of Western North Atlantic Fishes: A Reference File of Underwater Biologic Sounds", identifica vocalizações de mais de 150 peixes.

Para a maioria dos peixes, o mecanismo sonoro é um músculo que vibra a bexiga natatória não diferente de nossas cordas vocais. A bexiga é uma bolsa cheia de gás usada para flutuação, mas também pode ser usada como uma espécie de tambor. O peixe-sapo do Golfo contrai seu músculo sonoro contra sua bexiga natatória milhares de vezes por minuto para gerar um zumbido alto. Com quase três vezes mais que o bater de asas médio de um beija-flor, o peixe-sapo possui o músculo mais rápido conhecido de qualquer vertebrado. O congro chocalha seus ossos contra sua bexiga, mas os peixes-palhaço possuem um ligamento sonoro que usam para "gorjear".

Outros peixes usam estridulação, pela fricção de seus ossos de uma forma semelhante ao fazer tilintar os dentes de um pente ou usar uma catraca em suas barbatanas peitorais para produzir sons. O arenque solta bolhas pelo seu ânus em um "rápido tique-taque repetitivo", o que Joseph J. Luczkovich, um professor associado de biologia da Universidade do Leste da Carolina, diz ser chamado de "peido de arenque".

Ainda assim, apesar de cuidadosa dissecação, o mecanismo sonoro em muitas espécies continua um mistério.

Os sons dos peixes foram documentados como uma forma de atrair parceiros, para demonstrar agressividade e expressar medo ou perigo, mas outras características sutis da "fala" permanecem indecifradas.

"Eles possuem um mecanismo bem sofisticado de comunicação sonora, com diferentes significados dependendo do contexto social dos sons", disse Andrew H. Bass, um professor de neurobiologia e comportamento da Universidade de Cornell. "A comunicação sonora provavelmente evoluiu primeiro entre os peixes."

Apesar da variedade e às vezes voracidade do barulho, os peixes raramente podem ser ouvidos da praia, porque o ponto de encontro entre ar e água cria uma barreira sonora. O som geralmente reflete na interface água-ar.

Novos microfones submarinos sofisticados e mais baratos estão ajudando a pesquisa, tornando o monitoramento acústico passivo, ou o ato de apenas escutar, mais produtivo.

Rountree lançou um hidrofone na água além da costa de Cape Cod na primeira pesquisa de monitoramento acústico passivo da área. Ele ficou surpreso com a conversa abundante entre congros, que não era de conhecimento que viviam na área. A prevalência dos congros passou despercebida pelos pesquisadores do vizinho Instituto Oceanográfico de Woods Hole por mais de 100 anos, apesar da intensa exploração da área.

Outra descoberta incomum foi feita por Gerald D'Spain, do Instituto Scripps de Oceanografia, em San Diego. D'Spain informou que gravou peixes "cantando em coro" ao longo da costa do Pacífico, de Ensenada até Point Loma. Ele compara o som deles à "ola" nos estádios, com o coro se deslocando pela costa como espectadores se levantando de suas cadeiras e gritando em um movimento coordenado. Ele também disse acreditar que o coro foi transferido de peixe a peixe quase na velocidade do deslocamento do som na água -cerca de quatro e meia vezes mais rápido quanto o som viaja no ar.

Estes microfones também captam "desconhecidos biológicos" -os sons de peixes e outras formas de vida marinhas não identificadas. Mann, da Universidade do Sul da Flórida, e Susan Jarvis, uma pesquisadora da Marinha, descobriram um peixe misterioso nas profundezas das Bahamas que chamava a 600 metros de profundidade. "Você sabe que há uma fonte de som lá", disse Mann. "Você sabe onde está, mas não sabe o que é."

Infelizmente, nem todos os que escutam os peixes estão fazendo pesquisa. Pescadores ilegais na China passaram a usar hidrofones para localizar a quase extinta pescada amarela, cuja bexiga natatória pode chegar a US$ 60 mil por causa de seu suposto valor medicinal.

Os golfinhos também seguem a conversa dos peixes para rastrear suas presas. "As 10 principais espécies de peixe na dieta de um golfinho emitem sons", disse Luczkovich.

Com o crescente reconhecimento da importância dos chamados de acasalamento para a reprodução de peixes surge outra preocupação. O aumento do barulho ambiente causado por navios-tanque, sonares e pesquisa sísmica por petróleo, que freqüentemente ocorre na mesma freqüência sonora desses chamados, pode estar abafando a comunicação entre os peixes.

Pressionado por pesquisadores, o Serviço Nacional de Pesca Marinha transformou a escuta de toda a vida marinha, e não apenas de baleias e golfinhos, uma prioridade. Como muitos dos peixes servidos às mesas como bacalhau, perca e hadoque fazem sons ligados à propagação, a simples gravação da vida marinha oferece potencial para a gestão da pesca em um momento em que as populações estão em declínio.

"Ao escutar a paisagem submarina, há muitas coisas que podemos determinar sobre o que existe lá fora e o que estão fazendo", disse Brandon Southall, diretor do programa de acústica oceânica da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica.

A agência espera que o monitoramento acústico passivo possam ajudar a identificar áreas de procriação que necessitem de proteção e possa ser usada como instrumento para um levantamento mais preciso do tamanho da população. Estas técnicas não invasivas seriam um grande passo à frente, disse Lobel, da Universidade de Boston.

"Sem o monitoramento acústico passivo, eles precisariam pegar um peixe ameaçado como o bacalhau e abri-lo para ver se está cheio de ovas", ele disse. "Eles teriam que matar toneladas de peixe apenas para descobrir onde estão procriando." George El Khouri Andolfato

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