UOL Notícias Internacional
 

09/04/2008

Eleição e maoístas poderão transformar o Nepal

The New York Times
Somini Sengupta
Em Katmandu, no Nepal
Com uma eleição na próxima quinta-feira, este antigo reino nos Himalaias, encaixado estrategicamente entre a Índia e a China, terá uma chance de fazer aquilo que poucas nações modernas fizeram: reformular todo o seu governo.

Após dez anos de combates, os insurgentes maoístas do Nepal saíram da selva e participarão das eleições para a escolha de uma assembléia especial que reescreverá a constituição. Essa experiência ousada dará a esta nação de 27 milhões de habitantes uma oportunidade de cimentar a paz e instalar um governo totalmente eleito. Ao mesmo tempo, é bem provável que chegue ao fim a monarquia que governa o Nepal há 250 anos.

Mas o processo não está isento de riscos. Os rivais acusam os maoístas de abrirem à força o caminho rumo ao poder em uma campanha maculada pela violência e a intimidação. Os maoístas insistem que não querem retornar à guerra, mas eles tampouco renunciaram à possibilidade de voltar à luta armada. A julgar pela campanha, os críticos daqui e do exterior afirmam que não acreditam que os insurgentes de ontem agirão como os democratas do futuro.

Brian Sokol/The New York Times 
Moradores locais ouvem discurso de Prachanda durante campanha eleitoral em Pharping

Um recente comício, em uma escala de campanha do ex-líder insurgente, conhecido pelo seu nome de guerra, "Prachanda" - que em nepali quer dizer "o feroz" -, teve início com o ruído de um tiroteio de armas leves, que saía de um par de auto-falantes velhos, dando ao evento um tom revolucionário. "Acenda a lâmpada do amor", dizia a letra da música que veio a seguir. "Eu sigo carregando as bandeiras da revolução e do Nepal no meu coração".

Monitores da Organização das Nações Unidas (ONU) disseram que, apesar do acordo entre os partidos políticos no sentido de manter a paz, "a violência e a intimidação por membros dos partidos continuam". Mas eles acusaram os apoiadores dos maoístas de serem os responsáveis pela maioria dos ataques.

"Ainda existem dúvidas quanto às intenções dos maoístas", afirma Shekhar Koirala, que faz parte do comitê central do Partido do Congresso Nepalês. "Eles ainda acham que podem conquistar o governo na base da força bruta. Esta é uma grande preocupação".

Com 10 mil locais de votação, cerca de 10 mil candidatos e mais de 234 mil funcionários eleitorais para supervisar toda a operação, o Nepal nunca antes teve uma eleição como esta.

A Assembléia Constituinte decidirá se a monarquia será abolida e determinará também como os diferentes grupos étnicos e castas do país serão representados no governo, e até mesmo o tipo de governo que o Nepal adotará.

Na verdade os nepalenses depositarão dois votos na urna. Eles escolherão uma candidatura para representar os seus distritos e, independentemente disto, escolherão um partido. A fim de garantir que as mulheres, os grupos étnicos e as castas tenham uma voz, cada partido precisa atender a determinada cota.

A eleição foi adiada duas vezes, em parte devido a um levante armado nas planícies do sudeste do Nepal. Embora a situação neste momento esteja bem mais calma, algumas facções da etnia madhesi continuam ameaçando os candidatos.

"Esta eleição faz parte do processo de construção da paz", disse em uma entrevista o comissário eleitoral Bhojraj Pokharel. "Esta não é uma eleição normal".

A eleição ocorre dois anos depois que protestos de rua obrigaram o rei Gyanendra a ceder poder e retiraram os maoístas da selva. Segundo um acordo de paz, os rebeldes concordaram em desmobilizar quase 20 mil combatentes e a abandonar as armas sob a supervisão da ONU.

Enquanto os maoístas se empenham para apresentarem-se como líderes respeitadores da lei, há um estranho desequilíbrio entre palavras e as ações. Por exemplo, às vezes o líder maoísta Prachanda, cujo nome real é Pushpa Kamal Dahal, afirma que o seu partido "capturará" o Estado. Ele homenageia os guerrilheiros que lutaram e morreram pela causa maoísta.

Certa vez ele chegou a referir-se a uma Revolução de Outubro, o que alguns nepaleses entenderam como uma ameaça velada de que os guerrilheiros voltarão a pegar em armas caso não vençam nos votos. Prachanda diz que não proferiu esta frase desde que a campanha teve início.

Em uma manhã recente, enquanto bandeiras com a foice e o martelo eram agitadas pelo vento, Prachanda chegou ao local de um comício usando um paletó quadriculado preto e branco. O seu cabelo estava escovado para trás. Ele poderia ser confundido com um sindicalista da década de 1940, não fosse pelos buquês de margaridas que trazia pendurados ao pescoço.

"Não estou pedindo o voto de vocês da maneira tradicional", disse Prachanda, revelando o desconforto de um revolucionário que tem que agir como um político prosaico. "A minha representação aqui é simbólica. Eu represento milhares de mártires".

Segundo o próprio Prachanda admite, ex-membros de esquadrões paramilitares maoístas funcionam abertamente como a Liga da Juventude Comunista. Eles são acusados de cometer alguns dos piores excessos.

Em meados de março, na região central do país, os jovens revolucionários espancaram trabalhadores do rival Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado), mais conhecido como UML, fazendo com que um candidato fosse parar no hospital, de acordo com a agência local da ONU para direitos humanos.

Na terça-feira um outro candidato do UML foi morto a tiros, embora não se saiba ao certo quem foi o responsável pelo ataque.

Em fevereiro, o Partido do Congresso Nepalês acusou os maoístas de incendiarem a casa de um candidato quando este almoçava. Quando o candidato fugiu, uma pedra enorme foi lançada contra ele do topo de uma colina, fazendo com que caísse e fraturasse a bacia. Os maoístas dizem que os seus membros também foram espancados pelos trabalhadores do rival UML, que, ao contrário dos maoístas, não praticaram a luta armada e foram alvo da maior parcela de fúria dos maoístas durante a insurgência.

Pradip Nepal, um membro do Partido Comunista no parlamento, diz que as táticas dos jovens maoístas já se tornaram um problema político para Prachanda.

"Existem dois tipos de comunistas", afirma ele, procurando resumir as diferenças entre o seu partido e o dos rivais. "Um é democrático, o outro é autocrático. O nosso é um partido democrático. O deles não".

Ian Martin, o chefe da Missão da ONU no Nepal, diz que rogou a Prachanda, 54, que controlasse os seus jovens apoiadores.

"Não se pode negar a um partido político o direito de contar com um movimento da juventude", afirma Martin. "Mas temos que insistir em que o movimento dos jovens seja pacífico e respeite as normas da democracia pluripartidária".

Em uma entrevista no seu escritório, Prachanda procurou afastar esses temores, afirmando que os excessos foram contidos e que os jovens estão mais engajados em controlar o tráfego e em plantar árvores.

Ele acrescentou que o seu partido afirmou várias vezes que respeita as regras e o resultado da eleição, e que não tem intenção de retornar à guerra. Quanto à linguagem militante, ele diz que isso é "para o consumo público" e dirigido ao seu próprio campo.

"Como o nosso partido e os nossos militantes vieram da guerra, eles sempre usam frases como, 'Devemos capturar', 'Devemos ser militantes', 'Devemos seguir em frente', "Venceremos!'", explicou Prachanda, e a seguir sorriu. "Até mesmo ao usarmos palavras, temos que ser mais cautelosos".

Ele sustentou que a sua insurgência criou a agenda para as eleições, uma agenda que vários dos outros partidos agora aceitam: principalmente, uma república federal e a abolição da monarquia.

Mas, depois disso, os maoístas acrescentaram uma nova demanda, que não deixou os outros partidos muito satisfeitos: um sistema presidencialista. O seu slogan de campanha tem sido, "Prachanda para presidente".

O seu partido pede uma reforma do Estado e o abandono das "relações feudais de propriedade", substituindo-as por um "modo capitalista de produção". Especificamente, Prachanda promete melhorar a economia com uma ferrovia que ligaria Lhasa, no Tibete, à fronteira indiana. Ele diz que os capitalistas não precisam ter medo.

"Estamos lutando contra o feudalismo, e não contra o capitalismo", declarou Prachanda em uma entrevista. "Nesta fase do nosso desenvolvimento sócio-econômico não é possível ter uma revolução socialista. O que estamos dizendo é que esta é uma revolução democrática burguesa".

E ele prosseguiu: "Criaremos um clima encorajador para que haja mais lucros para os capitalistas. Não faremos nada além disso".

Mas nem todos estão convencidos disso. Por exemplo, Kunda Dixit, editor da revista semanal de língua inglesa "The Nepali Times", afirma: "Eles estão falando somente o que os outros desejam ouvir". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host