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09/04/2008

Vale do Silício começa a sentir a desaceleração econômica dos EUA

The New York Times
Matt Richtel e Brad Stone

Em San Francisco
Os preços dos imóveis residenciais no Vale do Silício permanecem desafiadoramente altos. Novos BMWs e Saabs cruzam o corredor da Rodovia 101. Mas pela primeira vez há sinais de que a desaceleração econômica está afetando o berço de tecnologia e inovação do país.

O crescimento do emprego diminuiu, novas empresas estão contratando e gastando com maior cautela e os investidores que nutrem as novas empresas com dinheiro e experiência estão se tornando mais frugais.

A maioria dos investidores, empreendedores e inovadores que montam empresas no Vale o faz na esperança de lançar suas ações no mercado ou vendê-las -as oportunidades que as pessoas aqui chamam de saídas. Mas com o pessimismo que toma conta dos mercados financeiros e o clima de negócios, saídas são difíceis de encontrar.

Durante os primeiros três meses do ano, apenas cinco empresas apoiadas por investidores de capital de risco tiveram ações lançadas em Wall Street, disse a Associação Nacional de Capital de Risco na semana passada, em comparação a 31 no quarto trimestre do ano passado e próximo do ponto mais baixo do estouro da bolha pontocom.

Também há uma queda acentuada na aquisição de novas empresas por corporações maiores. A Microsoft está causando alvoroço com seu esforço para comprar a Yahoo, mas fora isso as coisas estão calmas. Houve apenas 56 aquisições nos primeiros três meses do ano, em comparação a 83 no quarto trimestre.

Com as opções cada vez mais fora da mesa, os investidores devem gastar dinheiro e tempo estimulando -ou salvando- as empresas existentes em vez de construindo novas.

"Nós estamos controlando rigidamente as despesas", disse Jim Breyer, sócio-diretor da Accel Partners, uma empresa de capital de risco. A firma é uma investidora da Model N, uma empresa de software que recentemente retirou seu registro para abertura de capital por causa das condições de mercado desfavoráveis. Breyer disse que a empresa esperará até o quarto trimestre, no mínimo, para tentar de novo.

"Ninguém sabe por quanto tempo vai durar a desaceleração", disse Breyer.

Se durar por todo este ano, ele disse, "será bem mais do que uma inconveniência para todas as empresas". O mercado inóspito para abertura de capital e aquisições está afetando não apenas o ambiente de inovação, mas também o estilo de vida de seus participantes.

"Menos dinheiro ingressando no Vale significa menos dinheiro para compra de imóveis, para ir a restaurantes caros, para gastar em produtos de consumo e férias", disse Hans Swildens, fundador e presidente da Industry Ventures, uma firma de investimento que compra participações em novas empresas que precisam de injeção de capital.

O sentimento geral no Vale do Silício é de que ainda não chegamos nesse ponto, mas a realidade é que já chegamos", disse Swildens. "Já começou."

A região sente como se estivesse à beira de uma mudança de humor. Por um lado, seus cidadãos dizem se sentir afortunados por trabalharem em um segmento da economia e viver em uma região que foram menos atingidos do que outras partes do país. Eles também expressam uma confiança teimosa na migração inexorável para a Internet e o papel que as empresas de tecnologia terão nesta transição.

E eles afirmam que não estão sentindo nada parecido com a dor que se seguiu ao estouro da bolha pontocom, que levou a grandes demissões, um êxodo de talento, um colapso do mercado de imóveis comerciais e uma queda significativa do investimento em novas empresas.

Mas após se reerguer com persistência do estouro da bolha pontocom, o Vale se vê novamente diante de condições adversas. Nas empresas "blue chip" da área, o desempenho das ações está ruim com a desaceleração do crescimento. As ações da Google caíram cerca de 31% neste ano; a Apple teve queda de 21%. O índice composto Nasdaq, com foco em tecnologia, teve queda de 11,4% neste ano.

Entre as ações de empresas apoiadas por capital de risco que abriram o capital no ano passado, apenas 28% estão acima do preço de lançamento, em comparação a cerca de 50% em um ano típico e 70% em boas condições de mercado, segundo a Associação Nacional de Capital de Risco.

Novas empresas estão atingindo obstáculos em seu caminho para os mercados de capital. A Upek, uma empresa em Emeryville, Califórnia, que produz chips de computador e software usado para reconhecimento de impressões digitais, se registrou em maio passado para lançar suas ações no mercado. Ela então começou a estimular o entusiasmo do investidor e estava conseguindo progresso. Mas em 4 de março, ela retirou seu registro.

Em Wall Street "repentinamente não havia mais apetite por empresas em crescimento", disse Eric Buatois, sócio geral da Sofinnova Ventures, uma firma de investimento em empresas em estágio inicial que financiou a Upek.

A Upek já dá lucro, mas sem a injeção de capital do lançamento das ações, disse Buatois, ela adiará novos produtos, limitará o número de projetos em andamento e contratará menos agressivamente.

"Você encolhe seus planos de expansão", disse Buatois.

A Upek conta com 30 funcionários na Califórnia e outros 80 ao redor do mundo; seu departamento de manufatura fica em Cingapura, o desenvolvimento de hardware na Itália e o desenvolvimento de software fica em Praga. Ela também realiza 80% de suas vendas no exterior.

A natureza global da Upek, que é compartilhada por um número crescente de novas empresas no Vale do Silício, é uma faca de dois gumes em meio à desaceleração econômica. No lado positivo, as vendas no exterior estão isolando a empresa de algumas das condições econômicas adversas nos Estados Unidos.

Mas por causa de seus funcionários fora do país, ela paga um preço caro e inesperado em conseqüência da desvalorização do dólar.

"O maior impacto é causado pela queda livre do dólar", disse Buatois. Ele disse que os custos para a empresa aumentaram de 10% a 20% nos últimos três trimestres. "Mas o preço do produto não está subindo."

O murchar da economia nacional também parece ter um impacto na quantidade de dinheiro que os investidores de risco estão dispostos a aplicar.

Em 2007, os investidores em empresas em estágio inicial -os chamados "anjos"- colocaram US$ 26 bilhões em novas empresas, segundo o Centro de Pesquisa de Capital de Risco da Universidade de New Hampshire. Esse número não apresentou nenhum aumento em relação ao ano anterior, após grandes aumentos anuais desde 2003, quando o Vale começou a se reerguer do estouro da bolha.

"Desde a retomada, este é o primeiro ano sem aumento", disse Jeffrey Sohl, o diretor do centro. Ele disse que o dinheiro estava sendo disseminado em mais novas empresas, o que significa que o valor médio investido em empresas individuais pelos anjos caiu de cerca de US$ 500 mil para US$ 450 mil.

"Não é uma crise de confiança, mas é mais uma abordagem cautelosa", disse Sohl sobre o ponto de vista dos investidores, que ele disse que também podem dispor de menos dinheiro para investir em novas empresas, já que a queda do mercado reduziu seu capital.

A cautela provavelmente atrapalhará o crescimento do emprego. O Centro para o Estudo Contínuo da Economia da Califórnia projeta que haverá 10 mil novas vagas de trabalho na região neste ano, em comparação a 17.700 no ano passado e 25 mil em 2006.

Outra questão financeira aparentemente não relacionada mas potencialmente crucial vem da paralisia do mercado para os chamados títulos auction-rate (título de taxa variável com dividendo redefinido por leilão). Estes são investimentos que indivíduos e empresas usavam para aplicar dinheiro por um curto prazo, cientes de que poderiam resgatar rapidamente os fundos. Muitos capitalistas de risco faziam uso desses investimentos, mas agora se vêem incapazes de resgatar seu dinheiro, o que por sua vez está ameaçando a capacidade deles de pagar as contas em suas novas empresas.

Mas o espectro mais problemático para a economia de alta tecnologia é o mercado de ações estagnado e seu impacto na capacidade de investidores e empreendedores de lançarem novas ações, seja para lucro pessoal como para levantar dinheiro para a continuidade do desenvolvimento de seus negócios.

No final do quarto trimestre, havia 60 empresas financiadas por capital de risco registradas para abertura de capital. No final do primeiro trimestre, 38 estavam registradas. E de lá para cá algumas retiraram seu registro, disse Mark G. Heesen, presidente da Associação Nacional de Capital de Risco.

"Foi quão rapidamente a situação mudou", disse Heesen, acrescentando: "Não são boas notícias e não estamos tentando dourar a pílula".

Isto causa um impacto, ele disse. "Para o Vale do Silício, significa menos novas empresas financiadas, menos empreendedores financiados, menos empregadores com esperança de se tornarem o próximo grande empregador." George El Khouri Andolfato

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