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11/04/2008

Garotas da América Central encontram nas gangues uma forma violenta de família

The New York Times



Marc Lacey
Na Cidade da Guatemala
Para ingressar em uma feroz gangue de rua da América Central, Benky, uma jovem franzina que usa uma pesada maquiagem e que tem tatuagens espalhadas por todo o braço, teve que fazer sexo com cerca de uma dúzia dos membros da quadrilha em uma só noite. Ela recorda-se de ter chorado descontroladamente quando o último jovem saiu de cima dela e todos se reuniram à sua volta, cumprimentando-a por ter se tornado membro integral da gangue Mara Salvatrucha.

O líder da gangue ordenou a Benky que assaltasse ônibus, arrancasse colares dos pescoços das pessoas e até mesmo que matasse uma garota de uma gangue rival. Benky sempre obedeceu, embora diga não ter certeza se a garota sobreviveu ou morreu após ela ter disparado um tiro nas suas costas.

"Achei que a gangue seria como a minha família", diz Benky, ao explicar por que se juntou à gangue, e pedindo que o seu nome completo não seja revelado. "Acreditei que teria o amor do qual sentia falta. Mas eles me bateram. Deram-me ordens sem parar. Eles me diziam que eu tinha que roubar ou matar alguém, e eu obedecia".

Quando ela tentou deixar o grupo, os seus colegas de gangue a balearam com seis tiros. As cicatrizes ainda visíveis no seu corpo são uma recordação da história dela, assim como as assistentes sociais que a visitaram durante os nove meses que passou no hospital.

Por mais horrível que seja, a história de Benky não é incomum. O lamento dela é apenas um dentre os vários das jovens que estão em gangues por toda a região. Em entrevistas elas contaram histórias similares de iniciação sexual, espancamentos e de serem obrigadas a roubar e matar para conquistar o seu espaço no grupo.

Novas evidências sugerem que o número de meninas como Benky - a maioria com menos de 18 anos - que integram as gangues de rua da América Central pode ser maior do que se suspeitava anteriormente. Muitas delas são ao mesmo tempo vítimas e algozes. "O número de mulheres e garotas nessa situação é bem maior do que se imaginava", diz Ewa Werner-Dahlin, a embaixadora da Suécia na Guatemala. "Isso é uma surpresa para os especialistas e mostra que as autoridades têm reagido contra as gangues sem realmente entendê-las".

Recentemente o governo sueco ajudou a financiar um estudo que incluiu entrevistas com mais de mil integrantes e ex-integrantes de gangues, dos sexos masculino e feminino, por toda a América Central. A pesquisa revelou que as mulheres podem representar até 40% dos membros das gangues regionais. Outros especialistas em gangues acreditam que esta percentagem seja menor.

Calcula-se que as gangues de rua da América Central, que criaram uma rede de violência na Guatemala, em El Salvador, em Honduras, e até mesmo nos Estados Unidos, contem com até 100 mil integrantes. Existe apenas um pequeno número de gangues na região formadas exclusivamente por garotas, e que têm meninas como líderes. Mas a realidade vivida por Benky é bem mais comum - algumas poucas jovens em um oceano de rapazes brutais e carregados de impulso sexual.

Freqüentemente o motivo que as faz procurar as gangues é o abuso que sofreram em suas casas, e as gangues continuam a submetê-las a abusos encobertos pelo véu da proteção. As mulheres dizem que a gangue é uma família adotada, que oferece aquilo que é uma mistura imprevisível de afeição e agressão.

"Se uma menina está sofrendo abusos do pai, a gangue age e acaba com o problema", diz Gustavo Cifuentes, um ex-membro de gangue, dono de uma extensa ficha policial, que trabalha para o governo da Guatemala tentando atrair os integrantes das gangues para que estes levem vidas melhores e respeitem a lei.

Cifuentes admite que se as garotas recusam-se a seguir as ordens do líder, são espancadas ou submetidas a coisas piores.

Os integrantes masculinos das gangues dizem que as mulheres desempenham um papel essencial, e não apenas como parceiras sexuais. Elas são capazes de se movimentar livremente pelas ruas quando a polícia está presente, transportando drogas ou armas. E, segundo veteranos de gangues, os assaltos em ônibus são mais bem-sucedidos com uma equipe formada por dois homens e duas mulheres, o que deixa os passageiros confusos, sem saber quem está envolvido.

Com quatro passagens pela cadeia, Benky, 23, está experimentando uma nova fase em sua vida. Porém, uma fase que está se revelando tão difícil quanto tudo o que ela enfrentou antes. Os ferimentos deixaram-na manca para sempre. Ela vende doces nos ônibus que antigamente assaltava, porque as tatuagens das gangues a desqualificam para a maior parte de outros tipos de emprego.

Segundo ela, a maioria das pessoas que compunham a sua gangue morreu em tiroteios com a polícia, mas um dos poucos sobreviventes a viu recentemente na rua e deu um grito, ameaçando-a de morte. Ele ficou surpreso ao constatar que ela havia sobrevivido à tentativa de assassinato.

"Vendo de fora tudo parece tão bom", diz Benky, ao falar sobre o motivo pelo qual entrou para a gangue. Para entender os seus sentimentos, é importante saber que a infância dela, assim como a de várias outras garotas que integram as gangues, foi amarga.

Ela começou morando nas ruas aos seis anos de idade com um irmão mais velho. Ela não sabe ao certo o que aconteceu com a mãe, mas recorda-se de que o pai não tinha interesse em cuidar dos filhos. O seu irmão foi morto a tiros por um membro da gangue Rua 18, o que fez com que ela entrasse para outra enorme gangue da região, a Mara Salvatrucha, em busca de amor e aceitação.

Benky aproximou-se da gangue e soube que nela havia algumas outras garotas. Eles lhe disseram que tudo o que precisava fazer era falar com o líder e ele a aceitaria. Porém, antes que ela soubesse o que estava acontecendo, a sua nova família estava se despindo e fazendo fila para fazer sexo com ela.

O abuso diminuiu quando ela começou a namorar um membro da gangue que a protegeu dos outros.

"Ele era muito gentil", conta ela. "Ele às vezes assaltava um ônibus apenas para obter coisas que eu desejava".

Outras meninas de gangue, que, da mesma forma, só se identificaram pelo primeiro nome ou por apelidos, também reclamaram de vidas arruinadas, de situações em que quase morreram, e de pesadelos com relação a todas as coisas terríveis que fizeram pelas suas gangues e bairros. As garotas dizem que a coisa geralmente começa com sexo grupal, quando as mentes delas estão entorpecidas pelo álcool e a maconha.

Ana, 21, que passou quatro anos como integrante da gangue Rua 18, diz que pôde escolher entre sexo grupal ou espancamento coletivo quando entrou para a quadrilha porque era amiga da namorada do líder da gangue. "Outras garotas não têm opção", diz ela. "Eu achei que o espancamento seria melhor. Fiquei com o olho roxo e saí bastante machucada, mas pelo menos não fiquei grávida nem peguei nenhuma doença".

Ela recorda que os seus dias de gangue eram intensos, repletos de roubos e assaltos, bem como de outros comportamentos que atualmente ela vê como transviados.

"Aprendi a usar mais ou menos um revólver, mas eu era melhor com a faca", conta ela.

A sua gangue tinha uma líder especial para as garotas, uma jovem brutal que um dia ordenou a Ana que espancasse uma menina da vizinhança que a líder achava irritante. Ana descobriu que a garota era uma amiga antiga, mas disse que fez o que tinha que ser feito.

Uma outra integrante de gangue, uma moça de 17 anos chamada Moncha, começa a soluçar ao descrever como um membro da sua gangue matou a tiros uma amiga dela. "Perdi a minha melhor amiga, e a minha própria gangue a matou", lamenta Moncha. "Foi então que percebi que se a mataram, eles poderiam matar-me também. Cansei-me de levar uma vida na qual eles podiam simplesmente dizer, 'vamos apagar alguém', e você tinha que obedecer".

Ana teve um pouco mais de facilidade do que as outras para superar a fase que passou na gangue. A sua mãe estava morrendo de câncer, e isso fez com que Ana voltasse para casa e cuidasse dela a todo momento. A longa doença da mãe possibilitou a Ana fazer uma pausa.

A sua trajetória foi um pouco mais fácil que a de Benky porque ela nunca usou nenhuma tatuagem que a identificasse como integrante de gangue. De acordo com os especialistas neste tipo de crime, evitar tatuagens está se tornando cada vez mais comum à medida que os governos centro-americanos reprimem as gangues com as suas "Manos Duras".

Na penitenciária Santa Teresa, um vasto complexo presidiário feminino, é possível ver sinais de esperança e de desalento. Bianca, 24, uma integrante bastante ríspida da gangue Rua 18, que está presa por tráfico de drogas, mostra as suas ousadas tatuagens da gangue e fala em proteger o seu bairro. Ela ficou observando mas não participou do jogo de futebol da prisão patrocinado pelo Ministério da Cultura e dos Esportes da Guatemala.

Mas uma outra detenta, que tem 25 anos e cujo apelido é Happy, diz que pretende sair da gangue quando cumprir a sentença por ter assaltado um ônibus. Ela conta que nos seus primeiros anos atrás das grades, os membros da gangue vinham fazer uma visita. Mas agora, eles sumiram. Cinco anos depois, a única pessoa que a visita é a sua mãe, que lhe traz comidas e roupas. "Ela é a minha família", afirma Happy. "Demorou anos, mas eu finalmente aprendi isto". UOL

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